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Montagem sobre fotos de Marcelo
Zocchio
Silvio Ferraz

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Será
lançada a primeira ameaça séria ao reinado do Aurélio.
Portentosa obra de catalogação do português falado
e escrito no Brasil, o Aurélio pode deixar de ser sinônimo
de dicionário. Desde sua primeira edição, há
26 anos, o livrão do professor Aurélio Buarque de Holanda
Ferreira vendeu um total de 45 milhões de cópias em suas
três versões. Talvez não deixe de ser sinônimo
de dicionário. Mas terá de dividir o título com o
Houaiss (pronuncia-se uáis), como certamente ficará
conhecido pelos brasileiros o novíssimo Dicionário Houaiss
da Língua Portuguesa, cujos primeiros exemplares começam
a ser vendidos no Rio de Janeiro e em São Paulo a partir desta
semana e em todo o país dentro de dez dias. O preço oscilará
em torno de 125 reais. O Houaiss levou uma década para ficar
pronto e é resultado do trabalho de 140 especialistas brasileiros,
portugueses, angolanos e timorenses. A obra é a materialização
do sonho de Antônio Houaiss, considerado o maior filólogo
do século XX em língua portuguesa, morto em 1999, pouco
antes de ver o livro terminado. Diplomata de carreira, Houaiss foi ministro,
presidente da Academia Brasileira de Letras e refinado gastrônomo.
Mas nada absorveu mais sua existência do que a obsessão de
ver publicado o mais completo dicionário da língua portuguesa.
Conseguiu?
Em números absolutos, o novo dicionário é imbatível.
O Houaiss, com um total de 228.500 verbetes,
tem 68.500 a mais que o Aurélio
e 28.500 a mais que o Michaelis, o outro
competidor. Em Portugal, o recém-lançado dicionário
da Academia de Ciências tem 120.000 verbetes.
Só o tempo dirá, porém, se o Houaiss será
aceito pelo grande público como a fonte primordial da língua
viva falada hoje no Brasil o olimpo que todo grande dicionário
almeja. "Por todos os critérios técnicos válidos,
o Houaiss é o mais completo e moderno dicionário
de português", diz Roberto Feith, dono da editora Objetiva, que
publicou a obra e fez dela o seu mais ousado empreendimento. "Para lançar
um Paulo Coelho, invisto cerca de 500 000 reais. Para um outro best-seller,
ponho 100 000 reais. Com o dicionário Houaiss gastamos 5
milhões de reais", compara Feith. Na semana passada, o editor pôs
os olhos pela primeira vez no resultado de sua milionária aposta
editorial. Ele foi vistoriar os primeiros dois contêineres com milhares
de dicionários, volumes de capa ocre, revestidos de tecido de alta
resistência, impermeável, com baixos-relevos, serigrafias
e nome de batismo em letras douradas. Os livros acabavam de aportar no
Rio de Janeiro, vindos da Itália, onde foram impressos. A Objetiva
não encontrou no Brasil quem atendesse às exigências
técnicas da obra, especialmente a montagem de 3.008
páginas em um único volume de 3,8 quilos.
Oscar Cabral

Oitenta
dos 140 especialistas que fizeram o Houaiss posam para uma
foto histórica: a viagem ao coração do idioma levou-os dez séculos
ao passado |
"Sem ousarmos
nos comparar com o Oxford English Dictionary, com seus 615.000
verbetes, acho que conseguimos chegar aonde outros dicionários
de português não conseguiram", diz Mauro Villar, filólogo,
sobrinho de Antônio Houaiss, responsável pela conclusão
da obra depois da morte do tio. Houaiss levou a equipe a mergulhar nas
profundezas do passado e produzir quase uma enciclopédia. Por isso
o Houaiss é tão mais volumoso que os concorrentes.
Mas atenção. Nem o Houaiss pode se gabar de ter abraçado
todas as palavras do idioma. Os dicionaristas orgulham-se de transformar
em verbetes palavras que atendem a dois requisitos: estão vivas
e são matrizes do idioma. Ou seja, delas derivam outras. Quando
se somam aos verbetes as palavras compostas e os termos técnicos,
não há obra que dê conta de catalogar todo o universo
da língua. Quem chegou mais longe foi o Dicionário Filológico
da Academia Brasileira de Letras, que registra 360.000
palavras. "Qualquer língua moderna conta com milhões de
palavras potencialmente dicionarizáveis. Calcula-se que a medicina
contribua com cerca de 600.000 acepções,
a química e a farmacologia, com 2 milhões, apenas superados
pela zoologia. Só a classificação dos insetos exige
2 milhões de termos", explica Villar.
Como todo
dicionário com forte acento enciclopédico e histórico,
o Houaiss oferece, ao mais superficial manuseio, um delicioso passeio
pela linhagem evolucionária das palavras. Os vocábulos,
como as pessoas, podem ser promovidos ou rebaixados. Tome-se o exemplo
do que foi legado às gerações posteriores pelo militar
aventureiro alemão Friederich Hermann Schönberg, que nos idos
de 1615 comandava tropas portuguesas contra os espanhóis e ditava
a moda na corte. Ele não viveu o bastante para ver seu pomposo
sobrenome acabar rolando nobreza abaixo. Em Lisboa, de Schönberg
para "chumbergas" foi um pulo. No Brasil colônia, outro tombo fenomenal:
virou "chumbrega", coisa ruim, ordinária, reles. Já a palavra
marechal subiu de elevador. De artesão encarregado das ferraduras
dos cavalos em 1086, a palavra marechal foi alçada ao mais alto
posto na hierarquia do Exército brasileiro mais de 800 anos depois.
Outra palavra rebaixada pelo Houaiss é uma daquelas que
podem aparecer tanto numa questão do vestibular quanto no Show
do Milhão. Qual é a maior palavra da língua portuguesa?
Quem respondeu "anticonstitucionalissimamente" errou. Ela perdeu para
outra ainda mais extensa. Quem ostenta o título agora é
"pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico". São 46
letras. Seu significado? Bem, ela descreve o estado de quem é acometido
de uma doença rara provocada pela aspiração de cinzas
vulcânicas. Com curiosidades, segredos garimpados em centenas de
obras consagradas e uma pesquisa histórica profunda que datou a
entrada de quase todas as palavras no idioma, o novo dicionário
vai brigar pela posição de a maior autoridade da língua
pátria, a sétima do mundo, com 200 milhões de falantes,
à frente do japonês, francês e alemão. "Nosso
objetivo é que as pessoas saquem do Houaiss numa discussão
para resolver sem contestação uma dúvida de linguagem",
diz Feith.
Não
é pouca ambição. Obra plácida, neutra em sua
aparência de celeiro do idioma, com a matéria-prima disposta
em ordem alfabética, os dicionários, no fundo, escondem
rivalidades terríveis. Os mais mansos chegam ao mundo com o objetivo
apenas de descrever como o idioma está sendo usado pelas pessoas
em determinados períodos da História. Outros, como o Aurélio
e o Houaiss, querem ser autoridade. São dicionários
brigões, normativos, querem dar receita do bom uso da língua.
Seus autores esperam que as pessoas recorram a eles em caso de dúvidas
cruéis de linguagem. Dar a palavra final, ser a obra de maior credibilidade,
é o grande prêmio. Poucos chegam lá. Já é
um grande passo para um dicionário quando o nome do autor se confunde
com a própria obra. O primeiro dicionário da história
ocidental a obter tal honraria foi uma lista de poucos milhares de palavras
latinas compiladas pelo intelectual italiano Ambrogio Calepino em 1502.
Seu Dictionarum interpretamenta fez enorme sucesso numa Europa
sedenta de conhecimento que mal se erguia das sombras da Idade Média.
Historiadores encontram freqüentes referências à obra.
Uma delas é a prova de que o dicionário fazia parte do cotidiano
da elite letrada menos de 1% da população européia
de então. Um nobre inglês morto em Lancashire em 1568 registrou
em seu testamento que deixava como herança, entre outros objetos
de valor, seu "calepino". Mais tarde, outros dicionários atingiram
essa singularidade. O Covarrubias, na Espanha, e o Caldas Aulete,
em Portugal. O Johnson e o Webster nos países de
língua inglesa. O Aurélio no Brasil.
Quando se
examina a complexidade desse tipo de empreitada fica claro que, para a
equipe envolvida, prêmio mesmo é pôr um ponto final
à obra. Ao cabo dos trabalhos, o dicionarista-chefe do projeto
Houaiss, Mauro Villar, estava à beira de um ataque de nervos. Típico
da atividade. É famoso entre as pessoas do ramo o registro que
ficou da triste vida do inglês Thomas Cooper, que se meteu em 1565
a fazer um Thesaurus Linguae Romanae et Britannicae ("Tesauro da
língua romana e britânica"). "Ele estava com metade do trabalho
pronto quando a paciência de sua mulher se esgotou. Ela jogou todos
os papéis na fogueira. Mas era tão grande o zelo de Cooper
que ele começou tudo de novo, do zero", escreveu um século
mais tarde o historiador John Aubrey. Em 1789, a Academia de Ciências
de Lisboa arregimentou forças para criar um dicionário completo
da língua portuguesa. Com todo o empenho, não conseguiu
passar da letra A. Apesar do fracasso, o volume remanescente é
considerado pelos filólogos uma peça preciosa. Dois séculos
se passar os papéis na fogueira. Mas era tão grande o zelo de Cooper
que ele começou tudo de novo, do zero", escreveu um século
mais tarde o historiador John Aubrey. Em 1789, a Academia de Ciências
de Lisboa arregimentou forças para criar um dicionário completo
da língua portuguesa. Com todo o empenho, não conseguiu
passar da letra A. Apesar do fracasso, o volume remanescente é
considerado pelos filólogos uma peça preciosa. Dois séculos
se passaram e só no ano passado a academia finalmente editou seu
dicionário. Na Alemanha, os irmãos Grimm começaram
a compilar um léxico no século XIX. Ele só foi dado
por concluído 126 anos depois, em 1960. Por essa razão,
os Grimm tornaram-se famosos planetariamente como autores de contos infantis
e não como filólogos. Editar o dicionário Houaiss
em uma década foi um feito.
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