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Um sinal de alertaA
filha de Silvio Santos foi seqüestrada.
Luís Henrique Amaral
O seqüestro de Patrícia Abravanel, filha do apresentador de televisão Silvio Santos, ocorrido na semana passada, é um marco da disseminação em São Paulo de um tipo de crime covarde, violento e ousado. A estudante de administração Patrícia, de 24 anos, arrancada de casa na manhã da terça-feira por um grupo de bandidos, é a vítima de mais visibilidade numa multidão de pessoas que passaram pela mesma experiência nos últimos anos no Estado mais rico do país. Ao mesmo tempo que até a noite de sexta-feira ela era mantida presa pelos seqüestradores, pelo menos outras quatro vítimas estavam em cativeiro enquanto bandidos negociavam com seus familiares. Nos últimos dois anos, houve 154 seqüestros em São Paulo. Só no primeiro trimestre de 2001, foram 41 casos. O secretário de Segurança, Marco Vinício Petrelluzzi, não apresenta os números do período seguinte. Diz que ainda não foram somados. Teme-se que eles consolidem um recorde desmoralizador. O Rio de Janeiro, em 1995, teve 108 seqüestros. Desde então, por uma combinação de fatores em que o mais importante foi a ação contra quadrilhas especializadas nesse tipo de crime, o total diminuiu muito, enquanto as estatísticas de São Paulo disparavam. Patrícia se preparava para ir à faculdade quando dois bandidos vestidos de carteiro se apresentaram à porta da mansão de Silvio Santos, num bairro luxuoso da capital paulista. Na guarita diante da casa, pediram ao único segurança de serviço que recebesse um pacote. Ao sair do posto, ele foi rendido. O grupo ganhou a adesão de mais quatro homens. Acionaram o botão que abria a porta da garagem e entraram. Não se sabe ainda se foi por coincidência ou não que Patrícia estava justamente chegando a seu carro para sair. Ela foi rendida e levada pelos bandidos. O circuito interno de TV gravou várias dessas cenas e se tornou um dos trunfos que a polícia pode usar para identificar os seqüestradores. Silvio, que estava na casa naquele momento, disse a amigos que o verdadeiro alvo do seqüestro era sua caçula, Renata, de 16 anos. Ele próprio, segundo essa interpretação, seria mais útil livre do que seqüestrado, porque pode comandar as negociações e arranjar o dinheiro do resgate. Esse é mais um indício de que a ação foi planejada por profissionais. Há vários outros. Demonstraram firmeza diante da família, sem violência física, e deixaram para trás um celular pré-pago, através do qual podem telefonar para a casa de Silvio Santos, com menor risco de identificação da origem do telefonema.
A primeira ligação aconteceu no mesmo dia. Pediram resgate de 2 milhões de dólares. Solicitaram ainda que a imprensa fosse afastada do caso. Silvio não divulgou o valor pedido e fez o apelo exigido. A imprensa dividiu-se em dois grupos. Um, menor, formado por veículos paulistanos, deixou de noticiar o seqüestro. Outro grupo, majoritário, publicou as notícias referentes ao caso, que foi descrito em jornais do sul ao norte do Brasil. As Organizações Globo optaram por noticiá-lo com a explicação de que a omissão favoreceria os criminosos. A tese só se sustentaria se os veículos da Globo noticiassem todos os outros seqüestros ocorridos no país, para prestar um serviço público, e não se restringissem aos casos envolvendo gente rica ou famosa, como acontece de fato. Em decorrência do modo como os seqüestradores agiram, os especialistas acreditam tratar-se de um grupo equipado para adiar uma decisão até o ponto da vitória, mesmo que isso demore. "Gente que age tão friamente, contra um alvo tão evidente, quer minar a resistência da família e está disposta a esperar muito para receber o resgate", diz um delegado que já elucidou dezenas de seqüestros. Ele e toda a polícia foram proibidos de dar declarações sobre o caso. Os bandidos demonstraram intimidade com os hábitos da casa. A polícia centrou seus interrogatórios em dez ex-empregados domésticos.
Uma vítima como Patrícia é incomum no cenário dos seqüestros em São Paulo. Na maioria dos casos, os bandidos têm agido contra cidadãos de classe média, gente que está sacando dinheiro num caixa eletrônico ou parada num semáforo, dentro de um carro que nem chama a atenção por ser novo ou caro. "Entre esses seqüestradores há bandidos tão despreparados que nem planejam o que fazer com a vítima, mas existem também aqueles mais frios, que calculam os riscos e sabem que ficar apenas algumas horas com a pessoa é quase uma garantia de impunidade", diz o ex-chefe da delegacia contra seqüestros paulista Joffre Sandin, dono de uma empresa de segurança. Nesses casos, os bandidos se satisfazem arrecadando quantias entre 1.000 e 10.000 reais em vários crimes, em vez de tentar alcançar uma bolada num seqüestro, que exige planejamento, local para cativeiro, organização e paciência na negociação. As histórias repetem a do estudante Michel Nakashima Brito, de 21 anos, seqüestrado na periferia paulistana na quinta-feira e libertado quando a polícia recebeu denúncia anônima sobre o local do cativeiro. O pai do rapaz tem uma pequena metalúrgica. "O pior é que o risco para a vítima diante do descontrole de um amador que não tem um plano alternativo é muito maior", considera Sandin. Há cinco anos, o empresário Antônio Alves Barril foi assassinado porque uma chuva destruiu o barraco que lhe serviria de cativeiro. Os bandidos não tinham um plano B. O recrudescimento dos seqüestros em São Paulo não tem explicação simples. O responsável pela Delegacia Anti-Seqüestro do Rio, delegado Fernando Moraes, acha que no Estado os casos diminuíram porque houve combate sistemático às quadrilhas e incentivou-se a denúncia dos locais de cativeiro por meio de telefonemas anônimos. A Anti-Seqüestro é a mais bem equipada instalação policial do Rio. O cerco pode ter feito algumas quadrilhas migrar para São Paulo, onde há um mercado maior de seqüestráveis. Por outro lado, a imensa periferia da capital paulista é virtualmente invasculhável.
A família Silvio Santos também é uma exceção por causa dos poucos cuidados que tomava com a segurança pessoal. Aos 70 anos, Silvio tem um patrimônio declarado de 900 milhões de reais e dirige o próprio carro, um antigo Lincoln Continental branco. Em 1992, sua irmã Sara passou dezessete horas em mãos de seqüestradores. Apesar disso, seu único cuidado foi dotar de equipamento especial toda a frota usada pelos familiares. Silvio tem seis filhas. O Passat em que Patrícia foi levada pelos seqüestradores é blindado e tem sirene e alto-falantes instalados sob a lataria. Numa emergência, é possível gritar por socorro com um potente amplificador. Mas essa providência o apresentador só tomou depois de ter sido vítima de uma tentativa de assalto, recentemente. Há seis meses, abordado por uma moça ao estacionar, Silvio testou parte da aparelhagem. Ligou os alto-falantes e passou a gritar pelo microfone: "Afaste-se. Afaste-se deste carro". A moça quase morreu de susto.
Houve uma época em que os seqüestradores agiram pesado contra
pessoas muito conhecidas em São Paulo. Assistiu-se, por exemplo,
aos seqüestros de Antônio Beltran Martinez, vice-presidente
do Bradesco, do publicitário Luiz Salles e do empresário
Abilio Diniz, do grupo Pão de Açúcar. Casos assim
fizeram crescer o mercado de segurança pessoal no país.
Em edição da semana passada, a revista inglesa The Economist
registrou que o Brasil ultrapassou a Colômbia, o México
e os Estados Unidos como mercado para carros à prova de bala. A
frota de blindados no país está chegando a 15.000 unidades.
O caso conhecido de maior investimento em proteção é
o do banqueiro Joseph Safra, que já teve um sobrinho seqüestrado
e não sai de casa sem a companhia de pelo menos dez seguranças.
São ex-agentes do serviço secreto israelense, trocados a
cada seis meses. Jorge Paulo Lemann, ex-presidente do Banco Garantia,
sabe que esses cuidados valem a pena. Há dois anos, o Passat blindado
que levava seus três filhos foi cercado por dois carros, também
em São Paulo. O motorista de Lemann não abriu a porta e
os bandidos dispararam quinze tiros contra o carro. Depois fugiram. Ninguém
saiu ferido. Abilio Diniz, que é um dos cinco homens mais ricos
do país, também não se descuida mais. Em 1997, seu
filho João Paulo foi ameaçado por um ladrão armado
ao parar num semáforo dirigindo um jipe Range Rover sem blindagem.
Seus seguranças, no carro de trás, reagiram e mataram o
assaltante. Na mesma semana, ele comprou uma Mercedes blindada.
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