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Edição 1 715 - 29 de agosto de 2001
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Milionários reconquistam Maiorca

Agora, celebridades e ricaços
querem expulsar da bela ilha
espanhola no Mediterrâneo a
horda de turistas pobretões



Ibiza, a pequena ilha espanhola do arquipélago das Baleares, é famosa por suas raves, discotecas e pelo nudismo liberado nas praias. Até pouco tempo atrás, sua vizinha Maiorca, bem mais comportada, era apenas um Guarujá europeu. Durante julho e agosto, no auge do verão do Hemisfério Norte, a ilha de 600.000 habitantes recebe 2,5 milhões de turistas. São na maioria ingleses e alemães, que compram pacotes baratos e se apinham em minúsculos apartamentos em condomínios ao redor da capital, Palma. No bucólico interior da ilha, a turma é outra. Maiorca tornou-se, nos últimos anos, um endereço badalado para tomar sol em iates e encontrar milionários e celebridades em festas grã-finas – e tudo isso ao alcance das lentes dos papparazzi, os fotógrafos bisbilhoteiros que todos fingem evitar.

Em Valldemosa, cidadezinha nas colinas onde o compositor Fréderic Chopin morou no século XIX, formou-se uma vizinhança cinco-estrelas. O ator americano Michael Douglas passa o verão lá com a bela Catherine Zeta-Jones. Claudia Schiffer comprou um terreno de 200.000 metros quadrados e gastou 7 .milhões de reais para construir sua mansão no local. O piloto Michael Schumacher contratou o mesmo arquiteto de Schiffer para fazer sua casa ao lado da da modelo. A lista de proprietários ainda inclui o ex-tenista Boris Becker, a família venezuelana Cisneros, uma das mais ricas da América Latina, o empresário inglês Richard Branson, dono do grupo Virgin, Liliane Bettencourt, a maior acionista da L'Oréal. O estilista Valentino hospeda-se no próprio iate, o Blue One. A atriz Gwyneth Paltrow pagou a bagatela de 167 000 reais para passar um mês na região conhecida como Tramontana.


AP
Michael Schumacher: piloto contratou o mesmo arquiteto da vizinha Claudia Schiffer


Para o pessoal endinheirado, só falta uma coisa: livrar-se da incômoda vizinhança do turismo pobretão. Um projeto em trâmite no Legislativo das Ilhas Baleares pode resolver o problema. A ser votado até o fim do ano, ele pretende reduzir drasticamente o número de novas construções. Pela lei atual, a ilha – que é oito vezes maior que a de Santa Catarina, onde está Florianópolis – comportaria 188.000 novas casas. Se aprovado o projeto, o número cairá para 44.000. O governo também pretende impor, a partir do início do ano que vem, uma "ecotaxa", que será cobrada de acordo com o tempo de permanência do turista. O objetivo é devastar o minúsculo orçamento dos adolescentes ingleses que voam para a ilha com pacotes de 200 dólares a semana e gastam tudo o que têm em bebidas, drogas e viagens à vizinha Ibiza. A idéia é lucrar mais com o turismo endinheirado e diminuir a confusão no aeroporto de Palma, que chegou a receber 150.000 viajantes em um único dia no mês passado.

O lobby contra a horda turística é poderoso. Michael Douglas até cozinhou e serviu uma paella em sua residência para políticos locais – com fotógrafos convidados, obviamente. O ator americano, hoje um dos personagens mais queridos da ilha, já foi visto como vilão. Isso porque resolveu fazer melhorias no casarão, que comprou em 1989 por 5,5 milhões de reais. Os quatro quartos originais eram insuficientes para receber hóspedes como Tom Cruise e Jack Nicholson. Acabou enfurecendo os habitantes nativos, que consideram o imóvel, construído em meados do século XIX, patrimônio histórico. Por coincidência ou não, Douglas incorporou o papel de um verdadeiro mecenas da ilha. Tirou 13 milhões de reais do próprio bolso para fundar um centro cultural, o Costa Nord, e não perde uma oportunidade de agradar à comunidade. No começo deste mês, contratou o cantor Van Morrison para fazer um show, prestigiado pelo príncipe herdeiro Felipe e por sua irmã, a princesa Cristina. Embora o público tenha pago a entrada e outros patrocinadores tenham contribuído, Douglas bancou um prejuízo de 70.000 reais apenas pelo show de Van Morrison. Estima-se que esteja gastando 1 milhão de reais por ano a fundo perdido. Tudo isso para ficar de bem com a vizinhança. Detalhe: as modificações na casa foram concluídas, e todo mundo esqueceu o assunto.

   
 
   
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