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Temporada de
caça ao surfista
A
explosão do turismo na Flórida atrai
um cardume de tubarões vorazes
Cláudia
Granadeiro
Fotos AP
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Fotos AP
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Tubarões e surfistas
dividem a mesma praia, na Flórida: uma ameaça perigosa,
que levou um naco da mão de Jaison Valentin, de 19 anos (à
dir.) |
Nas
últimas semanas, anda dura a vida de surfista nas praias da Flórida,
Estados Unidos, onde estão localizados alguns dos balneários
mais concorridos do planeta na temporada de verão. Com barbatanas
elegantes e mandíbulas assustadoras, grupos de tubarões
passaram a ser vistos com mais freqüência nas imediações,
e os ataques aos banhistas aumentaram. Somente no último fim de
semana, seis pessoas sofreram a investida violenta dos bichos, na região
de Volusia County, pólo turístico inserido no circuito mundial
do surfe, como Daytona, Ormond e New Smyrna. Uma das vítimas, Jaison
Valentin, de 19 anos, apaixonado pelas pranchas, foi atingido na mão
esquerda. Teve de passar por uma cirurgia para reparar os tendões
e ligamentos dilacerados. "O animal arrancou um naco da minha mão.
Foi um inferno para conseguir sair da água", contou Jaison. Outro
rapaz, Jeff White, de 20 anos, participava de uma competição
de surfe quando recebeu o golpe. A adolescente Becky Chapman, de 17 anos,
sentiu a mordida na perna esquerda, revidou com pancadas e afastou o agressor,
cujos dentes afiados costumam rasgar o corpo da vítima e arrancar
pedaços, mediante bruscos movimentos laterais com a cabeça.
Em 2001, já foram registrados 23 ataques na Flórida, região
que responde por quase metade das ocorrências no mundo nos últimos
anos. O mais comovente se deu com o garoto Jessie Arbogast, de 8 anos,
nas águas de Langdon Beach, em julho, também naquela península
do sudeste americano. Jessie teve o braço arrancado pelo animal
na cidade litorânea de Pensacola, numa cena dramática que
fez lembrar o famoso filme Tubarão. O tio do menino, que
estava a seu lado, atracou-se com a fera e conseguiu arrastá-la
para a areia, onde foi morta a tiro. Sem a reação do tubarão,
o tio arrancou o braço da criança da boca do bicho. Com
isso, pôde-se fazer um reimplante. Jessie ganhou seu braço
de volta. Há dez dias, na região de Tampa, banhada pelas
águas quentes do Golfo do México, colônias inteiras
de tubarões chegaram a ser filmadas, em imagens que mostravam a
variedade de espécies que haviam sido rastreadas via satélite
por pesquisadores.
Com essas ocorrências, a Flórida pode estar pagando um preço
alto pela explosão do turismo em seu tórrido litoral, que
atrai anualmente mais de 70 milhões de veranistas. De acordo com
o biólogo George Burgess, diretor do Arquivo Internacional de Ataques
de Tubarão (Isaf), a principal entidade que acompanha o fenômeno,
a região é um habitat desses predadores, que aproveitam
a temperatura do verão para se aproximar da praia e dar à
luz os filhotes. Perto da costa, a quantidade de alimentos, como sardinhas
e outros peixes, é grande, o que também contribui para a
atração sobretudo das fêmeas. Com a maior concentração
de banhistas, surfistas e mergulhadores verificada ao longo da década
de 90 cresceu a possibilidade de encontros entre o animal e o homem, refletida
diretamente nas estatísticas de registros de ataques (veja
quadro).
De acordo com Burgess, em outras partes do mundo está ocorrendo
um fenômeno semelhante, isto é, de maior afluência
de veranistas a áreas habitadas tradicionalmente por tubarões.
"A rigor, não se trata de um ataque, mas de um incidente, tendo
em vista que os homens passaram a dividir o mesmo espaço com os
tubarões, na hora errada", defende outro biólogo americano,
Robert Lea. No Brasil, segundo o pesquisador Otto Bismarck Gadig, nosso
maior especialista no assunto, as ocorrências se concentram no Recife,
onde, desde 1992, foram anotados 33 casos.
Entre as 400 espécies conhecidas de tubarão, a maioria é
inofensiva, como o tubarão-anão, de apenas 25 centímetros
quando adulto, ou o tubarão-baleia, que pode medir mais de 15 metros,
mas só tem tamanho. Não chega a uma dúzia o número
de espécies desses predadores passíveis de ser consideradas
arriscadas para o homem, das quais três gravemente perigosas: o
tubarão-branco, o tubarão-tigre e o cabeça-chata.
O tubarão-branco pode atingir até 6 metros e pesar 2,5 toneladas.
Come golfinhos, leões-marinhos, focas e encara até uma baleia
na refeição. Acredita-se que os responsáveis pelos
últimos ataques na Flórida sejam das espécies salteador
e galha-preta, que chegam a medir 3 metros e pesar até 100 quilos.
Cada um deles possui dieta, padrão de comportamento e de ataque
diferentes. Com um pouco de exagero, passar as férias perto demais
dessa turma é como descer do jipe durante um safári na África.
Para os biólogos não há muito que fazer, a não
ser evitar cutucar o tubarão com vara curta.
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