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Edição 1 715 - 29 de agosto de 2001
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Uma casa e tanto

Os artistas e o público ganham no
Recife um endereço que esbanja
conforto e qualidade

Nahara Bauchwitz

 
Ag. B.A.R.

Nahara Bauchwitz

 
Ag. B.A.R.

A estréia da casa, com Roberto Carlos no palco e roupas de gala na platéia

A mais moderna casa de espetáculos do país, com um elevador exclusivo para levar artistas dos camarins ao palco de 1.000 metros quadrados, foi inaugurada no Recife. A Classic Hall põe o Nordeste definitivamente nos roteiros dos bons shows no Brasil e atende a uma velha demanda dos empresários do ramo: quanto mais paradas uma estrela de porte internacional possa fazer no país, mais viável se torna trazê-la da Europa ou dos Estados Unidos para se apresentar por aqui. Poucos artistas, afinal, têm shows do tipo que possa resistir à acústica dos estádios de futebol. A nova casa do Recife tem espaço gigantesco e equipamento adequado a mega-shows. "O Brasil precisa disso", diz Toy Lima, produtor musical de grandes eventos, como o Heineken Concerts, que passou por diversas casas noturnas brasileiras. "É muito melhor que esses grandes nomes façam um circuito de cinco ou seis shows de qualidade pelo país do que apenas duas apresentações tumultuadas em locais impróprios."

Os três donos do Classic Hall são empresários tradicionais da noite no Nordeste. Luiz Augusto Nobrega, o líder do grupo, é representante na região de estrelas nacionais, como o cantor Leonardo, a banda KLB e a dupla Zezé Di Camargo e Luciano. Eles dizem ter investido 10 milhões de reais na construção da obra. São 18.000 metros quadrados de área construída, que inclui uma passagem subterrânea pela qual se abastecem os eventos de alimentos e se transportam os equipamentos para os shows. Parte do investimento – uma soma que os proprietários preferem omitir – foi financiada naquele esquema camarada de sempre do BNDES. "O importante é realçar que construímos uma casa de espetáculos na qual se enxerga o que está acontecendo no palco de qualquer ponto da platéia", diz Nobrega.

De fato, quanto aos aspectos técnicos, as mais de 20.000 pessoas que compareceram aos dois shows de inauguração do espaço não registraram nenhuma queixa. Mulheres de longo e laquê e homens de terno, figurinos raros de ver na noite do Recife, lotaram as apresentações de Roberto Carlos. A apresentadora Hebe Camargo voou de São Paulo para assistir a uma delas. Para a elite local, a festa foi uma daquelas oportunidades para celebrar num setor em que a capital pernambucana pode orgulhar-se de um recorde nacional. Em conforto e infra-estrutura, o Classic Hall bate até mesmo as casas mais modernas inauguradas nos últimos anos em São Paulo e no Rio de Janeiro (veja quadro). Entre outros itens, a casa ostenta 100 camarotes, 26 a mais que o paulistano Credicard Hall. O palco é mais que o dobro do ATL Hall, ponto de parada dos maiores shows no Rio de Janeiro. O Classic Hall tem até heliporto. O trajeto desde o aeroporto leva dez minutos e custa 200 reais por pessoa. Antes de embarcar, o cliente aguarda o aparelho abrigado numa sala vip, que oferece drinques e petiscos.

Os ambientes das chamadas casas de espetáculos, que mesclam comodidades para o público com qualidade tecnológica para os artistas, expandem-se rapidamente no país. Por décadas, espaços como o do pioneiro Canecão, inaugurado no Rio em 1967, resistiram quase solitariamente em algumas cidades, enquanto celebridades musicais batiam seus recordes de público em eventos tão grandes quanto desconfortáveis. Frank Sinatra e Paul McCartney, por exemplo, cantaram no Brasil – mas não se pode dizer grande coisa da qualidade do som ouvido por quem foi a um desses shows. Sinatra e McCartney foram duas estrelas que fizeram seus mega-shows no Estádio do Maracanã. Uma novidade que está permitindo ampliar esse circuito de boas casas é a transformação dos investimentos num negócio de peso. As paulistanas Credicard e DirecTV Music Hall, mais a ATL, do Rio, são dirigidas pela Corporación Interamericana de Entretenimiento (CIE), a maior empresa de entretenimento ao vivo da América Latina, com atuação em oito países. O grupo investiu nos três locais cerca de 40 milhões de dólares, boa parte disso em cuidados com a acústica. Cada metro do espaço interno das grandes casas noturnas foi desenhado em detalhes, projetando-se tetos com inclinação em vários níveis, paredes feitas de tijolos cerâmicos recheados de ar e revestimentos especiais nos pisos e nas colunas – tudo contra a reverberação e o eco fora de controle.

Em outra ponta, esse negócio não se mantém apenas com os shows. Marcas conhecidas dão nome aos estabelecimentos, e pagam um bom dinheiro para ter esse privilégio. "Em 1997, visitei 46 casas de shows nos Estados Unidos e tomei contato com esse modelo de marketing cultural", lembra Fernando Alterio, presidente da CIE no Brasil e introdutor do sistema no país. Quem aluga o nome da casa também tem o direito de usá-la com exclusividade durante alguns dias do ano e dispõe de uma suíte privativa para seus convidados. Para o produtor Manuel Poladian, que atua no ramo desde os tempos heróicos e já trouxe ao Brasil os cantores Sting, Tina Turner, James Taylor e David Bowie, esse casamento de interesses só pode ser saudado de uma maneira. "Viva a iniciativa privada", ele diz. Financiada, lembre-se, com o dinheiro público disponível no BNDES. Mas isso são outros quinhentos.

 

Campeões de público

Gente que fez história com shows no Brasil

Rod Stewart foi para o Guinness Book depois de cantar para 3,5 milhões de pessoas em Copacabana, no réveillon de 1994

James Taylor, em 1985, e o grupo Silverchair, em 2001, apresentaram-se para públicos de 250 000 pagantes no Rock in Rio

Paul McCartney teve seu maior público pagante – 184 000 pessoas – no Estádio do Maracanã, em 1990

Frank Sinatra cantou para 140 000 pessoas em janeiro de 1980. "Foi o maior momento de minha vida profissional", disse depois

 

   
 

Elas são um espetáculo

Compare as principais características de três supercasas noturnas

 
Capacidade
Área (metros
quadrados)
Palco (metros
quadrados)
Nos camarins
CLASSIC HALL
(Recife)
16 000 pessoas/
100 camarotes
18 000
1 000
Sauna, hidromassagem, aparelhos de musculação
CREDICARD HALL
(São Paulo)
7 500 pessoas/
74 camarotes
15 000
720
Hidromassagem, paredes revestidas de mármore de Carrara
ATL HALL
(Rio de Janeiro)
10 500 pessoas/
53 camarotes
14 000
450
Hidromassagem, salão de ensaio

 
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CLASSIC HALL
(Recife)
Heliporto, túnel para abastecimento, elevadores para camarotes e camarins Roberto Carlos Ray Conniff, Caetano Veloso
CREDICARD HALL
(São Paulo)
Quatro escadas rolantes, circuito interno de TV, ar-condicionado inteligente Lou Reed, Simply Red, Alanis Morissette, Carmina Burana, Gal Costa Judas Priest, Sepultura, Ray Conniff, Laura Pausini
ATL HALL
(Rio de Janeiro)
Fica num shopping e tem salão de festas nos fundos B.B. King, James Brown, Hanson, Lou Reed Judas Priest, Sepultura, Ray Conniff e Laura Pausini

 

   
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