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Edição 1 715 - 29 de agosto de 2001
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Eles estão aprendendo
cedo demais?

Alfabetização precoce: mais
um sintoma do desespero dos
pais em criar um superfilho

Lia Abbud

 
Ed Viggiani

Curso de inglês, em São Paulo: turmas a partir de 3 anos

O mercado editorial nunca produziu tantos livros para crianças em idade pré-escolar. Os anúncios das escolas de idiomas enfatizam a utilidade de matricular os filhos quanto antes. Por que não aos 4 ou aos 3 anos de idade? Segundo reza a cartilha tradicional de alfabetização, as crianças deveriam estar concentradas em aprender a ler e escrever somente a partir dos 7 anos de idade. Mas, como se vê, há um bombardeio pesado no sentido de acelerar os ponteiros do relógio pedagógico.

A alfabetização precoce tem rendido um grande bate-boca entre os pesquisadores. Gente gabaritada chama a atenção para certo exagero na dose e começa a suspeitar que toda essa precocidade no aprendizado pode desajustar o relógio biológico do desenvolvimento infantil. Desde o começo do século XX, convencionou-se que os alunos devem aprender a ler e escrever a partir dos 7 anos. Nessa fase, o cérebro da criança já desenvolveu habilidades como o poder de concentração e a coordenação visual e motora, entre outras. Está preparado, portanto, para absorver uma carga maior de ensinamento dentro da sala de aula. As escolas que subverteram essa regra argumentam que, hoje, o mundo e as crianças são muito diferentes. "Os alunos não são mais inteligentes que os de antigamente, mas chegam à escola mais cedo e estão expostos a uma quantidade maior de informações, o que aguça numa idade mais precoce sua curiosidade pelas letras", afirma Elisa Pereira, diretora pedagógica do Pueri Domus, uma das melhores escolas de São Paulo. Segundo o raciocínio da diretora, não faria sentido "congelar" o desenvolvimento da criança durante dois anos se ela demonstra interesse pelos livros.

 

Claudio Rossi

Aula no colégio Pueri Domus: a maioria dos alunos aprende a ler antes dos 7 anos

O novo sistema, de ler cada vez mais cedo, já é adotado em escolas da Argentina, da Espanha e, numa escala mais reduzida, da Inglaterra. Pedagogos dos Estados Unidos e de outros países do Primeiro Mundo ainda não chegaram a um consenso sobre a conveniência da mudança. No Brasil, há uma divisão. A rede pública continua seguindo a regra antiga, ou seja, alfabetização somente aos 7 anos – idade obrigatória para o ingresso dos alunos no 1º ano do ensino fundamental. Já a maioria dos estabelecimentos particulares resolveu antecipar o aprendizado do bê-á-bá. As crianças de 5 ou 6 anos não recebem cartilhas, muito menos são obrigadas a fazer provas para comprovar seus avanços lingüísticos. O contato com o mundo das letras ocorre na forma de brincadeiras na sala de aula, como escrever com a ajuda da professora os ingredientes da receita de um bolo ou colar numa cartolina as letras iniciais do nome do papai e da mamãe. "Adoro gibis e já li cinqüenta livrinhos", conta Mateus Kuhn Chedid, que acabou de completar 6 anos. Sua colega de classe Maíra Prado Campos, da mesma idade, segue num ritmo menos avançado: até agora, devorou dez obras infantis.

Segundo os especialistas, existe uma hora certa para a criança desenvolver cada habilidade. Esses períodos foram batizados de "janelas de oportunidades". Na área da alfabetização, os pesquisadores ainda não chegaram a um acordo. Os que defendem a manutenção do sistema tradicional, ou seja, aos 7 anos, lembram que ainda não há estudos comprovando possíveis benefícios da iniciação precoce. Além disso, o colega da escola pública que tomou contato com as letras aos 7 anos vai se desenvolver mais rapidamente nesse campo, anulando rapidamente a suposta vantagem da criança educada aos 5. "Nessa fase, é importante deixar algum espaço livre na agenda da criança para que ela não faça absolutamente nada. E muito espaço para ela brincar", afirma Abram Topczewski, neuropediatra do Hospital Albert Einstein.

Os menos radicais não vêem grandes problemas no processo de alfabetização precoce, desde que seja guiado pelo bom senso. Em primeiro lugar, é preciso que os pais reduzam suas expectativas em relação a esse aprendizado. "Não há motivos para achar que uma criança é problemática só porque um colega está mais adiantado", afirma o neuropediatra Mauro Muzkat, da Universidade Federal de São Paulo. Em segundo, não é preciso aparecer com um livro de gramática quando a criança surge com alguma dúvida. As questões devem ser respondidas na medida certa, assim como o estímulo à leitura – nada de comprar livros que tragam dificuldades maiores que aquelas com que a criança está familiarizada. Por fim, é importante discutir o assunto com a escola. Se os benefícios da leitura precoce são duvidosos, os problemas provocados por uma iniciação malconduzida já começam a aparecer nos consultórios pediátricos. Nesses locais, são cada vez mais comuns os casos de crianças que se queixam de dor de cabeça ou têm dificuldade para se expressar. Segundo os especialistas, são sintomas clássicos de stress causado pelo maior problema do processo de formação dos pequenos. É a superagenda, que contém escola, natação, inglês, computação e a exagerada cobrança dos pais em tentar garantir, desde cedo, um futuro melhor para os filhos.

 

A hora certa

Segundo a teoria das "janelas de oportunidade", existem momentos em que o cérebro da criança está pronto para adquirir com mais facilidade certos conhecimentos e habilidades. Observe no quadro o que dizem as pesquisas mais recentes sobre o assunto

ALFABETIZAÇÃO
Iniciava-se tradicionalmente aos 7 anos, mas algumas escolas acreditam que aos 5 os alunos já estão prontos para aprender a ler e escrever

LÍNGUA ESTRANGEIRA
Sabe-se hoje que até os 12 anos de idade a criança é capaz de aprender com grande facilidade um idioma estrangeiro

MATEMÁTICA
Conceitos lógico-matemáticos, como muito/pouco, pequeno/grande, leve/pesado, mais/menos, devem ser desenvolvidos até os 4 anos

MÚSICA
Especialistas acreditam que a fase entre os 3 e os 10 anos de idade é a mais indicada para começar a tocar um instrumento

 

   
 
   
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