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Um
papo-cabeça
Formados em filosofia se
estabelecem como terapeutas
e provocam a ira dos analistas
Adriana
Negreiros
Igor Camara
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Rose Pedrosa e sua cliente Nise Brasil: consulta
ao ar livre |
Numa
anedota que dá a medida do pragmatismo da vida atual, um menino
desconcerta outro ao saber que o pai do coleguinha é filósofo.
"E para que serve esse serviço dele?", pergunta o garoto. Cerca
de 1.000 filósofos em todo o Brasil encontraram uma resposta prática
para essa questão, mas tem gente achando que eles estão
ultrapassando os limites de uma reserva de mercado. "A pessoa formada
em filosofia serve para atuar como terapeuta", defende o filósofo
gaúcho Lúcio Packter, inventor de uma nova modalidade de
terapia e alvo de psicanalistas e psicólogos ressabiados com a
invasão de seu quintal profissional. Packter criou há sete
anos a chamada "filosofia clínica", cuja proposta é apoiar
por meio de consultas pessoais quem esteja necessitando discutir seus
dramas existenciais, problemas de relacionamento, auto-imagem ou outras
questões típicas da psicoterapia. Nessas consultas, o profissional
usa seus conhecimentos filosóficos para consolar, acalmar ou orientar
o cliente. Em alguns casos, pode também fazer uma massagem nos
pés ou acompanhar o paciente numa rodada de chope. Trata-se, portanto,
de uma espécie de análise heterodoxa. "Isso não tem
nenhum valor terapêutico", reage o diretor superintendente da Associação
Brasileira de Psicanálise, Pedro Gomes. "O grave é que terapias
malconduzidas podem provocar um surto psicótico."
Luciano Souza Costa
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Lúcio Packter: franquia
terapêutica |
A despeito das críticas, a filosofia clínica tem crescido.
Já há terapeutas estabelecidos em dezenove cidades de doze
Estados. Só em São Paulo, são mais de 200. Cada um
deles atende, em média, dez partilhantes, como são chamados
os clientes. As consultas custam em torno de 50 reais e, como no caso
dos analistas tradicionais, duram cinqüenta minutos. Mas não
há divã. Boa parte dos encontros não acontece em
consultórios fechados, e sim em ambientes abertos e públicos,
como praias ou praças. Na essência, tudo se resume a uma
boa conversa. A clientela aparentemente fica satisfeita. Tereza Santos,
terapeuta ocupacional de Fortaleza, freqüenta há um ano as
sessões com a filósofa Rose Pedrosa. "Achei o máximo
quando ela chorou junto comigo depois que contei um caso triste", relata
a cliente.
Duas outras razões explicam a proliferação de filósofos
clínicos. Uma é que não há um grande mercado
de trabalho para os 1.700 estudantes que se formam em filosofia por ano
no Brasil. A outra tem relação com a facilidade para ingressar
no ramo. O filósofo diplomado só precisa freqüentar
um curso de dois anos com aulas apenas nos fins de semana , pagando
mensalidade entre 100 e 180 reais. O diploma de graduação
precisa ser reconhecido pelo Ministério da Educação,
mas o certificado de filósofo clínico não exige esse
tipo de formalidade. Packter diz ter criado a modalidade inspirado em
assessorias filosóficas que conheceu na Europa e que, além
da faculdade, fez outros cursos para desenvolver seu método. Quais
cursos, ele não conta.
No site que mantém na internet, ele apresenta a formação
de novos terapeutas como uma espécie de franquia na qual "tudo
que é arrecadado pelo professor em seu centro é unicamente
dele". Exibe também parecer jurídico para defender seu negócio.
Uma medida preventiva, diante do vigor dos ataques que recebe. "Isso tudo
é uma caricatura oportunista, um arremedo de assessoria pessoal,
uma seita vulgar", diz, por exemplo, o presidente do Conselho Federal
de Psicologia, Marcus Vinícius de Oliveira.
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