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A pau, pedra e bala
Seis portugueses
viajaram para
uma temporada no Brasil atraídos
pelo amigo de um deles.
Desapareceram em Fortaleza.
Na sexta-feira, a polícia os encontrou.
Todos mortos

Adriana Negreiros
e Nahara Bauchwitz
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| VÍTOR
MANUEL MARTINS, 53 anos, construtor na cidade de Montijo |
MANUEL
JOAQUIM BARROS, 55 anos, comerciante em Pombal |
JOAQUIM
FERNANDES MARTINS, 47 anos, de Ourém, construtor |
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| JOAQUIM
MANUEL PESTANA DA COSTA, 49 anos, aposentado de Seixal |
ANTÔNIO
CORREIA RODRIGUES, 43 anos, construtor em Seixal |
JOAQUIM
SILVA MENDES,
52 anos, empreiteiro em Pombal |
Foi a primeira
vez que a maioria deles saiu de sua cidade no interior de Portugal para
uma viagem ao exterior. Foi também a última. Na sexta-feira
à tarde, seus corpos foram encontrados enterrados dentro de um
bar abandonado da Praia do Futuro, em Fortaleza. Os seis portugueses foram
mortos a pauladas, pedradas, facadas e tiros por quatro homens. O grupo
chegou ao Brasil na madrugada do domingo 12 e embarcou direto para a morte.
Eles achavam que iam para uma boate onde haveria álcool e mulheres,
conforme contaram à polícia seus acompanhantes naquela noite.
Não era nada disso. No aeroporto, foram recepcionados pelo compatriota
Luís Miguel Militão Nunes Guerreiro, que vivia fazia menos
de um ano no Brasil e tinha insistentemente estimulado um deles a juntar
um grupo de amigos e viajar para conhecer o paraíso que é
o Nordeste brasileiro. Ele os esperava no saguão do aeroporto.
Tinha alugado uma perua Kombi para conduzir a turma pela noite da capital
cearense. Eles estavam bastante animados com as promessas de diversão
feitas por Militão. A temperatura era de mais de 20 graus. A noitada
prometia. O anfitrião pegou o celular e disse que ia ligar e confirmar
os detalhes com uma prostituta. "Pode ir servindo o uísque que
já estamos a caminho", avisou ao telefone. Antes de partir, dispensaram
a van que a companhia de turismo enviara para levá-los ao hotel.
O descanso da viagem ficaria para depois. No caminho, podem ter dado uma
parada para deixar perto de casa um cunhado de Militão, Manoel
Leandro Cavalcante, testemunha desse trecho do percurso.
Meia hora
depois, chegavam ao bar Vela Latina, um barracão abandonado. Fica
na Praia do Futuro, ao leste de Fortaleza, no meio do que é considerado
um dos mais belos cartões-postais do Nordeste. Durante alguns meses,
Militão manteve naquele lugar um misto de quiosque de praia e boate,
mas a freqüência de turistas era baixa, as prostitutas pouco
apareciam, e ele acabou falindo. Ficou com 12.000
reais em dívidas. Na noite do crime como ele contaria depois
à polícia , reabriu a casa só para receber
os portugueses. Acompanhados de três ex-seguranças do local,
convocados pelo antigo dono, eles beberam muito, esperando por outras
companhias, que nunca chegavam. Quando estavam embriagados, o patrício
anunciou um assalto. Houve reação, pancadaria, pauladas,
pedradas e tiros. Os seguranças e o dono do bar só pararam
ao ter certeza de que eles estavam mortos. Concluído o serviço,
os assassinos fizeram a partilha da bagagem e dos cartões de crédito
do grupo, limparam a cena do crime, fecharam a casa, pegaram a perua e
fugiram. Há suspeita de que o cunhado do chefe da quadrilha tenha
mentido à polícia sobre a parada da Kombi entre o aeroporto
e a boate.
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| LUÍS
MIGUEL MILITÃO NUNES GUERREIRO, de 31 anos, português
que havia menos de um ano vivia no Brasil: depois da falência
nos negócios, uma cilada para roubar dinheiro e cartões
de crédito do grupo de turistas com a ajuda de ex-empregados
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"Eu também
tinha sido convidado para a viagem", conta o advogado português
Abel Fernandes, da aldeia de Alvaiázere, a 150 quilômetros
de Lisboa, onde é grande a fama das praias nordestinas e da beleza
das mulheres brasileiras. "Eles fizeram muitos planos para se divertir
e pretendiam também ver se havia negócios que pudessem iniciar
no Brasil." Todos os anos, Fortaleza recebe mais de 200.000
europeus, e muitos dos homens vêm conferir de perto as promessas
de delícias embutidas em anúncios de agências de turismo.
A especialização no atendimento a estrangeiros é
visível em vários bares e avenidas.
O grupo
começou os planos da viagem no início do mês. Foi
o bem-sucedido construtor Antônio Rodrigues, da cidade de Seixal,
que decidiu juntar os amigos para a aventura. Sugeriu a idéia a
Joaquim Pestana e Vítor Martins, seus colegas no ramo da construção,
e já no dia seguinte estavam na agência de viagens Pestana
Tur, em Setúbal, informando-se sobre pacotes turísticos
para o Brasil. Depois, Antônio convidou também o comerciante
Manuel Barros, de Pombal, e este acabou chamando seu cunhado Joaquim Mendes,
português radicado na França que estava passando férias
com os parentes. Finalmente, Manuel ligou para outro amigo, o empresário
da construção civil Joaquim Martins, da cidade vizinha Ourém,
completando o time.
Mario Vinagre
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| O
aeroporto da capital cearense: os portugueses nem foram para o hotel.
Dispensaram o transporte oferecido pela agência de turismo e
seguiram com o amigo numa Kombi para a boate em que seriam mortos
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Quase todos
os integrantes do grupo tinham casamento estável, de longos anos,
com filhos, alguns já com netos, e boa situação financeira.
Não eram ricos, mas tinham acumulado o suficiente para viver em
casa própria em bons bairros de cidades tranqüilas, com carros
de primeira linha na garagem. Gostavam principalmente de Mercedes-Benz
e BMWs. Joaquim Pestana estava havia algum tempo sem trabalhar, tratando-se
de um câncer na bexiga. Fazia muitos anos que eles falavam em viajar
para o Brasil. Antônio, Manuel Barros e Vítor tinham filhos
para deixar à frente dos negócios. Joaquim Martins esperava
o início de algumas obras e estava desocupado quando apareceu a
oportunidade de viajar. Alguns familiares sabiam que de vez em quando
uma parte deles dava escapadas para cidades próximas, para se divertir,
contam os amigos, mas as esposas nunca demonstraram importar-se profundamente
com isso. Nas pequenas cidades de Portugal essa não é uma
situação incomum. Nenhum deles tinha também preocupações
que impedissem aceitar o último convite de Militão, que
era conhecido do empresário Antônio Rodrigues.
O assassino
tem 31 anos. Ele chegou ao Brasil em fevereiro deste ano. Em Portugal,
filho de família muito pobre, foi casado com Alexandra Nunes. Foi
nessa época que fez amizade com o homem que viria a matar. A mulher
era filha de seu ex-patrão e herdou do pai uma casa de materiais
de construção. Alexandra não gosta de falar desse
casamento. "Não tenho nada a ver com ele há muito tempo
e prefiro ficar fora disso", diz. Na partilha de bens, Luís ficou
com 9.000 dólares, e foi essa quantia
que o ajudou a recomeçar a vida em Fortaleza. Quando tinha 18 anos
e fazia o serviço militar em seu país, o rapaz roubou um
carro de sua guarnição para dar umas voltas pelas imediações.
Descoberto, acabou julgado por um tribunal militar e sentenciado a um
ano de cadeia. Cumpriu toda a pena e, desde então, não há
notícia de que se tivesse metido em outras confusões. Quando
se separou, foi morar com a família de Antônio Rodrigues.
Chegou a morar na casa de uma irmã do amigo, segundo o advogado
da família Rodrigues.
"Seu Manuel
falou muito da felicidade de conhecer uma terra maravilhosa como o Brasil
quando veio buscar as passagens", recorda Stela Gomes, agente de turismo
que vendeu três das passagens. A turma liderada por Antônio
fez reservas nos mesmos vôos, até Recife e de lá para
Fortaleza, e no mesmo hotel. Marcaram dois apartamentos triplos no Holliday
Inn, de frente para o mar, na Praia de Iracema. Cada pacote custou em
torno de 2.150 reais. Joaquim Pestana, Antônio
Rodrigues, Manuel Barros e Vítor Martins foram juntos tirar o passaporte,
para sua primeira viagem internacional. Receberam documentos com números
em seqüência. De G113931 a G113934. No dia da viagem, os três
que saíram de Seixal viajaram até o aeroporto no transporte
oferecido pela agência. As famílias foram atrás, de
carro, formando um cortejo. Os outros fizeram uma viagem de trem até
Lisboa. Na hora do embarque, a filha de Joaquim Pestana, Elizabeth, de
25 anos, chorou muito. "Eu ligo quando chegar", ele prometeu para acalmá-la.
No Recife, houve um pequeno atraso na conexão para Fortaleza. Eles
chegaram à cidade pouco depois da meia-noite.
Ao contrário
do que tinham prometido, não ligaram para casa. Nem à noite
nem na manhã seguinte. Foi por isso que os familiares começaram
a achar que algo tinha saído errado. "Meu marido sempre me ligava
de onde estivesse, mesmo quando fazia viagens curtas de trabalho", conta
Odete Alves Cardoso Martins, 50 anos, casada com Vítor Martins.
Desconfiada, ela ligou para Militão. "Pode ficar tranqüila",
ele respondeu. "Eles estão descansando e vão ligar depois."
Após as mortes, o assassino havia voltado para casa e passou três
dias preparando sua fuga. Mandou o sogro e a sogra na quarta-feira e partiu
dois dias depois com a mulher, Maria Leandra Cavalcante, mais três
enteados. Foram todos para a cidade de Tuntum, a mais de 300 quilômetros
de São Luís, onde vivem alguns parentes da mulher.
Quando as
mulheres dos portugueses começaram a telefonar novamente, na segunda,
já tinham ligado para o hotel e descoberto que os maridos não
haviam passado por lá. "Eles foram para uma praia distante", mentiu
Militão. Cada vez mais intranqüilos, os familiares dos desaparecidos
notaram também que altas somas começavam a sumir das contas
dos viajantes. "Quando voltamos a ligar para Luís Miguel Militão,
na quarta-feira, só atendia uma secretária eletrônica",
lembra o filho de Antônio Rodrigues, Jorge. Só então
eles procuraram a polícia, em Portugal. Àquela altura, as
polícias dos dois países, o cônsul de Portugal em
Fortaleza, Carlos Pimentel, e os parentes das vítimas imaginavam
que eles estavam seqüestrados.
Das contas
bancárias dos portugueses foram sacados mais de 25.000
reais. Eles traziam também muito dinheiro vivo para as despesas
da viagem. Militão tinha 15.000 reais
no bolso quando os policiais federais o localizaram em Barra do Corda,
perto de Tuntum. Além dos saques em dinheiro, nos caixas eletrônicos,
ele fez compras usando os cartões de crédito das vítimas.
Numa loja de jóias comprou um cordão com pingente por 3.000
reais. Ao ser preso, ele contou ter seqüestrado os compatriotas e
disse que foi ajudado pelos ex-seguranças de seu quiosque. Um deles,
Leonardo, achado logo depois, levou a polícia ao local. À
noite, os outros dois criminosos já estavam presos. Os portugueses
tinham sido enterrados dentro da barraca, num buraco na areia fofa. Empilhados.
Na mesma noite, os assassinos fizeram um piso de areia e cimento sobre
a cova. A ligação para a prostituta foi provavelmente um
sinal dele aos comparsas informando sobre o andamento do plano.
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