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Chegou a hora
fatal
Enfim,
Jader terá de falar sobre
o rombo no Banpará e sob a
ameaça de ser cassado
Nesta quarta-feira, salvo algum golpe de última hora, Jader Barbalho
enfrentará sua prova de fogo. Será o dia de seu depoimento
ao Conselho de Ética do Senado, durante o qual será bombardeado
com perguntas sobre o desfalque milionário aplicado no Banpará,
na década de 80. O senador já falou várias vezes
sobre o assunto da tribuna do Senado, mas jamais foi questionado e nunca
teve de responder a indagações diretas. Na quarta-feira,
os senadores pretendem formular uma questão simples: "Vossa excelência
se beneficiou dos recursos do Banpará?" Se responder que não,
Jader mentirá, e os senadores poderão abrir processo de
cassação, com base na volumosa documentação
oficial que comprova que ele embolsou dinheiro do Banpará. Se responder
que se beneficiou dos recursos, Jader confessará um crime. Neste
caso, surgirá uma firula técnica: o senador admitirá
um crime, sim, mas um crime ocorrido antes de seu atual mandato. E há
quem entenda que um processo de cassação contra um senador
só pode ser aberto em razão de crimes cometidos no decorrer
de seu atual mandato.
É
uma história surrealista. Pensar que no Senado da República
esse tipo de questão técnica seja discutido seriamente é
quase um deboche. Todo mundo foi largamente informado de que Jader meteu
a mão em dinheiro público no caso Banpará por farto
material documental com carimbo do Banco Central. É impensável
que ele confesse publicamente o desfalque. "Se isso acontecesse, teríamos
de ir pensando na esdrúxula situação de conviver
com um ladrão de banco confesso", ironiza o senador Saturnino Braga,
do PSB do Rio de Janeiro. Mas fica, apenas para efeito de raciocínio,
a pergunta técnica: e se ele admitir? Não acontece nada?
Na semana passada, o Conselho de Ética ouviu o ex-presidente do
Banco Central Francisco Gros e o procurador do BC José Coelho Ferreira,
que estavam no banco na época das investigações do
caso Jader. Foram depoimentos desfavoráveis ao senador. Mas a situação
do paraense complicou-se mesmo depois que os senadores ouviram o depoimento
de Abrahão Patruni Junior, o técnico do BC que, em 1990,
apurou o caso Banpará. Ele foi minucioso, detalhista e convincente,
segundo relato dos próprios senadores. Patruni explicou que a fraude
começou com desvio de onze cheques do Banpará, que foram
usados para comprar títulos ao portador no banco Itaú, no
Rio de Janeiro. Os títulos venciam a cada três meses e eram
trocados por títulos novos. Foram 59 operações, de
1984 a 1986. Em seis delas, a conta 96650-4 integralizou as cotas de aplicação
ou recebeu as sobras que as excediam. A conta 96650-4 era de Jader. Patruni
ainda entregou papéis provando que saques das aplicações
foram feitos por cheques assinados pelo senador.
Os senadores receberam, na terça-feira passada, todos os volumes
do processo do Banpará, que chegou a bordo de um carregador de
mala. São extratos de contas bancárias, listas de beneficiários
e depoimentos de funcionários do BC que atestam o golpe e apontam
Jader como o principal favorecido. No depoimento de Patruni, os senadores
obtiveram clareza sobre o que os documentos dizem. Mas nem todos. Um dos
presentes, o senador João Alberto Souza, do PMDB do Maranhão,
achou estranho que Jader esteja sendo acusado de roubar "apenas" alguns
milhões, considerando que o orçamento do Pará chega
à casa do bilhão de reais. "Já fui governador e sei
que, se houver um governador desonesto, ele tira uma fortuna", ensinou
João Alberto. O senador governou o Maranhão de abril de
1990 a março de 1991. Devido a essa experiência, João
Alberto não se convenceu da culpa de Jader depois de ouvir Patruni.
Em outras palavras, a lógica do senador João Alberto é
a seguinte: ninguém rouba apenas 2, 3 ou 4 milhões de reais
se pode roubar muito mais. Com integrantes desse tipo, não é
de estranhar as coisas que andam acontecendo no Senado da República.
A situação de Jader é tão difícil que
o tirou do prumo. Vem dedicando parte de seu tempo a espalhar, por meio
de aliados caninos, que tem em mãos dossiês capazes de implodir
a biografia de vários colegas. Não se sabe exatamente o
que Jader tem, se é que tem alguma coisa, mas os recados circulam.
Em tom de fofoca, um de seus asseclas, o deputado Geddel Vieira Lima,
aquele que os colegas chamam de "agatunado", abordou o deputado Robson
Tuma no cafezinho da Câmara com uma conversa marota. Insinuou que
o senador cassado Luiz Estevão poderia desenterrar o escândalo
do TRT paulista, com o propósito de envolver o pai do deputado,
senador Romeu Tuma, que está à frente das investigações
sobre o escândalo Jader. "Pode sobrar até para você",
disse Geddel. Com o senador Jefferson Péres não houve intermediários.
O próprio Jader telefonou para Jefferson Péres e desmentiu
que tivesse um dossiê contra ele. "Não tenho nada contra
o senhor e, mesmo que tivesse, não usaria." É comportamento
típico dos acuados.
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