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Edição 1 715 - 29 de agosto de 2001
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Chegou a hora fatal

Enfim, Jader terá de falar sobre
o rombo no Banpará ­ e sob a
ameaça de ser cassado

Nesta quarta-feira, salvo algum golpe de última hora, Jader Barbalho enfrentará sua prova de fogo. Será o dia de seu depoimento ao Conselho de Ética do Senado, durante o qual será bombardeado com perguntas sobre o desfalque milionário aplicado no Banpará, na década de 80. O senador já falou várias vezes sobre o assunto da tribuna do Senado, mas jamais foi questionado e nunca teve de responder a indagações diretas. Na quarta-feira, os senadores pretendem formular uma questão simples: "Vossa excelência se beneficiou dos recursos do Banpará?" Se responder que não, Jader mentirá, e os senadores poderão abrir processo de cassação, com base na volumosa documentação oficial que comprova que ele embolsou dinheiro do Banpará. Se responder que se beneficiou dos recursos, Jader confessará um crime. Neste caso, surgirá uma firula técnica: o senador admitirá um crime, sim, mas um crime ocorrido antes de seu atual mandato. E há quem entenda que um processo de cassação contra um senador só pode ser aberto em razão de crimes cometidos no decorrer de seu atual mandato.

É uma história surrealista. Pensar que no Senado da República esse tipo de questão técnica seja discutido seriamente é quase um deboche. Todo mundo foi largamente informado de que Jader meteu a mão em dinheiro público no caso Banpará por farto material documental com carimbo do Banco Central. É impensável que ele confesse publicamente o desfalque. "Se isso acontecesse, teríamos de ir pensando na esdrúxula situação de conviver com um ladrão de banco confesso", ironiza o senador Saturnino Braga, do PSB do Rio de Janeiro. Mas fica, apenas para efeito de raciocínio, a pergunta técnica: e se ele admitir? Não acontece nada?

Na semana passada, o Conselho de Ética ouviu o ex-presidente do Banco Central Francisco Gros e o procurador do BC José Coelho Ferreira, que estavam no banco na época das investigações do caso Jader. Foram depoimentos desfavoráveis ao senador. Mas a situação do paraense complicou-se mesmo depois que os senadores ouviram o depoimento de Abrahão Patruni Junior, o técnico do BC que, em 1990, apurou o caso Banpará. Ele foi minucioso, detalhista e convincente, segundo relato dos próprios senadores. Patruni explicou que a fraude começou com desvio de onze cheques do Banpará, que foram usados para comprar títulos ao portador no banco Itaú, no Rio de Janeiro. Os títulos venciam a cada três meses e eram trocados por títulos novos. Foram 59 operações, de 1984 a 1986. Em seis delas, a conta 96650-4 integralizou as cotas de aplicação ou recebeu as sobras que as excediam. A conta 96650-4 era de Jader. Patruni ainda entregou papéis provando que saques das aplicações foram feitos por cheques assinados pelo senador.

Os senadores receberam, na terça-feira passada, todos os volumes do processo do Banpará, que chegou a bordo de um carregador de mala. São extratos de contas bancárias, listas de beneficiários e depoimentos de funcionários do BC que atestam o golpe e apontam Jader como o principal favorecido. No depoimento de Patruni, os senadores obtiveram clareza sobre o que os documentos dizem. Mas nem todos. Um dos presentes, o senador João Alberto Souza, do PMDB do Maranhão, achou estranho que Jader esteja sendo acusado de roubar "apenas" alguns milhões, considerando que o orçamento do Pará chega à casa do bilhão de reais. "Já fui governador e sei que, se houver um governador desonesto, ele tira uma fortuna", ensinou João Alberto. O senador governou o Maranhão de abril de 1990 a março de 1991. Devido a essa experiência, João Alberto não se convenceu da culpa de Jader depois de ouvir Patruni. Em outras palavras, a lógica do senador João Alberto é a seguinte: ninguém rouba apenas 2, 3 ou 4 milhões de reais se pode roubar muito mais. Com integrantes desse tipo, não é de estranhar as coisas que andam acontecendo no Senado da República.

A situação de Jader é tão difícil que o tirou do prumo. Vem dedicando parte de seu tempo a espalhar, por meio de aliados caninos, que tem em mãos dossiês capazes de implodir a biografia de vários colegas. Não se sabe exatamente o que Jader tem, se é que tem alguma coisa, mas os recados circulam. Em tom de fofoca, um de seus asseclas, o deputado Geddel Vieira Lima, aquele que os colegas chamam de "agatunado", abordou o deputado Robson Tuma no cafezinho da Câmara com uma conversa marota. Insinuou que o senador cassado Luiz Estevão poderia desenterrar o escândalo do TRT paulista, com o propósito de envolver o pai do deputado, senador Romeu Tuma, que está à frente das investigações sobre o escândalo Jader. "Pode sobrar até para você", disse Geddel. Com o senador Jefferson Péres não houve intermediários. O próprio Jader telefonou para Jefferson Péres e desmentiu que tivesse um dossiê contra ele. "Não tenho nada contra o senhor e, mesmo que tivesse, não usaria." É comportamento típico dos acuados.

 
 
   
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