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Para evitar o
naufrágio
Pela
primeira vez, oposição faz gesto
concreto pela unidade, mas a ação
mostra mais fraqueza que força
Malu
Gaspar
Fabio Motta/AE
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Ciro e Itamar, em encontro
patrocinado por Brizola: tentativa de unir candidaturas que começam
a balançar |
A
foto acima parece retratar a primeira imagem de que, finalmente, candidatos
de oposição estão deixando suas diferenças
de lado e selando a unidade para chegar ao Palácio do Planalto.
Na segunda-feira passada, sob o patrocínio de Leonel Brizola, comandante
do PDT, Ciro Gomes e Itamar Franco encontraram-se no hotel Othon, no Rio.
Falaram por duas horas. Ao final da reunião, trocaram juras de
que estarão juntos na disputa eleitoral de 2002. Ciro e Itamar
fizeram questão de excluir do leque de oposição a
candidatura do governador do Rio, Anthony Garotinho. Argumentam que Garotinho
não se opõe ao atual modelo econômico. O curioso é
que Itamar é o pai do Plano Real, viga mestra da política
econômica em vigor, e até se irrita quando lhe negam essa
paternidade. Por coerência, poderia ter reparos a fazer, mas fica
difícil entender como rejeita em bloco tudo o que sua própria
gestão fez. Ciro foi ministro da Fazenda de setembro de 1994 a
janeiro de 1995. Nesse período, não deu a mínima
para os empresários preocupados com a valorização
do câmbio, jogou os juros na estratosfera e abriu o país
às mercadorias estrangeiras ao reduzir as tarifas de importação.
Tal como Itamar, faz pouco sentido que Ciro rejeite de forma liminar e
taxativa a atual política econômica que, de seu tempo
para cá, sofreu correções, mas mantém sua
essência inalterada.
A conclusão que se pode tirar é que as posições
do mineiro e do cearense são produto de marketing eleitoral ou
de ódio pessoal ao presidente Fernando Henrique ou de ambas
as coisas. No capítulo do marketing, criticar o governo hoje em
dia rende votos porque o brasileiro não está feliz com o
apagão, o desemprego e a instabilidade do mercado, retratada pela
explosão do dólar e pelo esfriamento da economia. Quanto
à raiva que ambos têm de FHC, essa já foi suficientemente
sublinhada por eles. Brizola os acompanha tanto no primeiro como no segundo
item. No encontro do hotel Othon, os dois candidatos trataram de explicar
sua intenção de casamento. "Não tenho mais a compulsão
de ser presidente e posso tentar somar as forças de oposição",
declarou Itamar. "Queremos afirmar nossa intenção clara
e inequívoca de tentar a unidade", completou Ciro.
A cena, em si, é uma raridade. Nos três últimos pleitos
presidenciais, candidatos de oposição sempre pregaram a
unidade, mas a idéia nunca avançou. Agora, a cena ao menos
se materializou. Só que a foto, no fundo, é o retrato de
uma dificuldade crescente. A candidatura de oposição que
caminha de vento em popa é a de Luís Inácio Lula
da Silva, do PT, enquanto Itamar e Ciro começam a tremer. Em seu
melhor momento, Ciro chegou a 18% nas pesquisas do Ibope, e Itamar bateu
em 12%. Nas pesquisas mais recentes, houve variações quase
inexpressivas, embora sempre negativas. Ciro aparece com 14% e Itamar,
com 11%. Como estão empacados, a unidade que ambos começaram
a discutir está mais para uma tentativa de salvamento mútuo
que para a construção de uma fortaleza. Além disso,
na matemática eleitoral, a soma dos 14% de Ciro com os 11% de Itamar
não dá 25%. Pesquisa recente do Instituto GPP, feita com
1.600 eleitores em todo o país por encomenda do PFL, indica que
um quarto dos que apóiam Itamar se dispõe a votar em Ciro.
Mas os eleitores de Ciro não correriam para Itamar. A maior fatia
se dividiria entre Lula e José Serra, que luta para ser o candidato
oficial.
A paralisia de Itamar e a de Ciro nas pesquisas têm motivos distintos.
Itamar tem força em seu Estado o que não é pouco,
já que Minas é o segundo maior eleitorado do país.
Mas não conseguiu ampliar-se para outras regiões. Além
disso, embora filiado ao PMDB, Itamar está encontrando enormes
dificuldades para ser ungido candidato do partido numa reedição
do que aconteceu em 1998. Suas conversas com Brizola são sinal
de que pretende migrar para o PDT. Se trocar o PMDB pelo PDT, uma legenda
raquítica perto da pujança peemedebista, é mais certo
que concorra ao Senado ou à reeleição em Minas, e
não ao Planalto. A candidatura de Ciro é carregada por uma
legenda nanica, o PPS. Por isso, Ciro vive querendo atrair partidos mais
potentes. Até agora, o único que conseguiu seduzir foi o
PTB, que é uma sigla excessivamente volúvel e se mantém
fiel ao hábito de debruçar-se sobre o balcão para,
na hora H, aceitar a melhor oferta venha de onde vier.
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