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Edição 1 715 - 29 de agosto de 2001
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Para evitar o naufrágio

Pela primeira vez, oposição faz gesto
concreto pela unidade, mas a ação
mostra mais fraqueza que força

Malu Gaspar

 
Fabio Motta/AE
Ciro e Itamar, em encontro patrocinado por Brizola: tentativa de unir candidaturas que começam a balançar

A foto acima parece retratar a primeira imagem de que, finalmente, candidatos de oposição estão deixando suas diferenças de lado e selando a unidade para chegar ao Palácio do Planalto. Na segunda-feira passada, sob o patrocínio de Leonel Brizola, comandante do PDT, Ciro Gomes e Itamar Franco encontraram-se no hotel Othon, no Rio. Falaram por duas horas. Ao final da reunião, trocaram juras de que estarão juntos na disputa eleitoral de 2002. Ciro e Itamar fizeram questão de excluir do leque de oposição a candidatura do governador do Rio, Anthony Garotinho. Argumentam que Garotinho não se opõe ao atual modelo econômico. O curioso é que Itamar é o pai do Plano Real, viga mestra da política econômica em vigor, e até se irrita quando lhe negam essa paternidade. Por coerência, poderia ter reparos a fazer, mas fica difícil entender como rejeita em bloco tudo o que sua própria gestão fez. Ciro foi ministro da Fazenda de setembro de 1994 a janeiro de 1995. Nesse período, não deu a mínima para os empresários preocupados com a valorização do câmbio, jogou os juros na estratosfera e abriu o país às mercadorias estrangeiras ao reduzir as tarifas de importação. Tal como Itamar, faz pouco sentido que Ciro rejeite de forma liminar e taxativa a atual política econômica – que, de seu tempo para cá, sofreu correções, mas mantém sua essência inalterada.

A conclusão que se pode tirar é que as posições do mineiro e do cearense são produto de marketing eleitoral ou de ódio pessoal ao presidente Fernando Henrique – ou de ambas as coisas. No capítulo do marketing, criticar o governo hoje em dia rende votos porque o brasileiro não está feliz com o apagão, o desemprego e a instabilidade do mercado, retratada pela explosão do dólar e pelo esfriamento da economia. Quanto à raiva que ambos têm de FHC, essa já foi suficientemente sublinhada por eles. Brizola os acompanha tanto no primeiro como no segundo item. No encontro do hotel Othon, os dois candidatos trataram de explicar sua intenção de casamento. "Não tenho mais a compulsão de ser presidente e posso tentar somar as forças de oposição", declarou Itamar. "Queremos afirmar nossa intenção clara e inequívoca de tentar a unidade", completou Ciro.

A cena, em si, é uma raridade. Nos três últimos pleitos presidenciais, candidatos de oposição sempre pregaram a unidade, mas a idéia nunca avançou. Agora, a cena ao menos se materializou. Só que a foto, no fundo, é o retrato de uma dificuldade crescente. A candidatura de oposição que caminha de vento em popa é a de Luís Inácio Lula da Silva, do PT, enquanto Itamar e Ciro começam a tremer. Em seu melhor momento, Ciro chegou a 18% nas pesquisas do Ibope, e Itamar bateu em 12%. Nas pesquisas mais recentes, houve variações quase inexpressivas, embora sempre negativas. Ciro aparece com 14% e Itamar, com 11%. Como estão empacados, a unidade que ambos começaram a discutir está mais para uma tentativa de salvamento mútuo que para a construção de uma fortaleza. Além disso, na matemática eleitoral, a soma dos 14% de Ciro com os 11% de Itamar não dá 25%. Pesquisa recente do Instituto GPP, feita com 1.600 eleitores em todo o país por encomenda do PFL, indica que um quarto dos que apóiam Itamar se dispõe a votar em Ciro. Mas os eleitores de Ciro não correriam para Itamar. A maior fatia se dividiria entre Lula e José Serra, que luta para ser o candidato oficial.

A paralisia de Itamar e a de Ciro nas pesquisas têm motivos distintos. Itamar tem força em seu Estado – o que não é pouco, já que Minas é o segundo maior eleitorado do país. Mas não conseguiu ampliar-se para outras regiões. Além disso, embora filiado ao PMDB, Itamar está encontrando enormes dificuldades para ser ungido candidato do partido – numa reedição do que aconteceu em 1998. Suas conversas com Brizola são sinal de que pretende migrar para o PDT. Se trocar o PMDB pelo PDT, uma legenda raquítica perto da pujança peemedebista, é mais certo que concorra ao Senado ou à reeleição em Minas, e não ao Planalto. A candidatura de Ciro é carregada por uma legenda nanica, o PPS. Por isso, Ciro vive querendo atrair partidos mais potentes. Até agora, o único que conseguiu seduzir foi o PTB, que é uma sigla excessivamente volúvel e se mantém fiel ao hábito de debruçar-se sobre o balcão para, na hora H, aceitar a melhor oferta – venha de onde vier.

 
 

 

 

   
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