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200
milhões de
dólares lá fora? Eu?
Movimentação
financeira de
Paulo Maluf em paraíso fiscal
é própria das multinacionais e
de quem tem patrimônio superior
a 1 bilhão de dólares
Juca Varella/Folha Imagem
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| O
ex-prefeito Paulo Maluf: adoção da tática de Bill Clinton para não
mentir |
Zunzum
sobre político com dinheiro no exterior ocorre a toda hora, mas
a história brasileira jamais havia registrado um episódio
como este que envolve Paulo Maluf e uma megaaplicação de
200 milhões de dólares. Primeiro, porque o caso não
é apenas mais um zunzum. Ele veio à tona após uma
troca de informações entre autoridades de um paraíso
fiscal localizado numa ilhota do Canal da Mancha, Jersey, e autoridades
brasileiras. Ao contrário do que acontece na maioria das vezes,
o nome de Maluf não surgiu, portanto, de um boato. Depois, porque
não é todo dia que se escuta falar de uma aplicação
de recursos tão volumosa. Especialistas brasileiros familiarizados
com operações em paraísos fiscais contaram a VEJA
que dois tipos de cliente podem fazer movimentações de 200
milhões de dólares. O primeiro é formado por empresas
multinacionais envolvidas em grandes negócios. O segundo é
integrado por pessoas que possuem patrimônio superior a 1 bilhão
de dólares. De acordo com a declaração de bens apresentada
por Maluf à Receita Federal, sua fortuna pessoal é de 30
milhões de dólares. Detalhe: a lista de bens oficialmente
declarada não menciona aplicações no exterior.
É
a segunda vez que o ex-governador e ex-prefeito de São Paulo surge
no noticiário associado a denúncias envolvendo paraíso
fiscal. Na primeira, Maluf foi citado como uma das pessoas que teriam
espalhado o famoso Dossiê Cayman, aquele papelório divulgado
em 1998 às vésperas das eleições presidenciais.
O Dossiê Cayman, conjunto de documentos apócrifos, alguns
deles grosseiramente falsificados, sugere que o presidente Fernando Henrique
Cardoso, o ministro da Saúde, José Serra, e outros dois
políticos tucanos já falecidos, Sergio Motta e Mário
Covas, possuíam uma empresa no exterior, dona de uma conta multimilionária.
As investigações concluíram que o dossiê não
passava de armação. No caso da nova denúncia, ocorre
algo bem diferente. A correspondência que deu origem à informação
sobre o dinheiro de Maluf, travada via e-mail, não envolve apenas
autoridades fiscais de Jersey e do Brasil. Há um comunicado feito
por outro ponto do planeta conhecido pelas contas milionárias que
sedia, a Suíça, por onde o dinheiro de Maluf também
teria passeado.
L.C. Leite/AE
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| O
Túnel Ayrton Senna, construído por Maluf: orçado em 150 milhões de
reais, saiu por 500 milhões |
A
investigação começou quando uma quantia expressiva
atribuída a Maluf deixou a Suíça rumo a Jersey, num
padrão muito acima do normal. Quando notaram a movimentação
incomum, as autoridades de Jersey contataram o Conselho de Controle de
Atividades Financeiras (Coaf), órgão do governo brasileiro.
O Coaf troca informações sobre operações financeiras
suspeitas no Brasil e em outros países para ajudar a combater a
lavagem de dinheiro. Os inspetores de Jersey perguntaram por escrito quem
era Paulo Maluf e se havia contra ele investigações ligadas
a crimes de lavagem de dinheiro. A presidente do Coaf, Adrienne Senna,
informou que Maluf respondia a quatro processos nos quais se investiga
sua participação em desvio de dinheiro público. Em
uma das ações, os promotores examinam o superfaturamento
do Túnel Ayrton Senna, construído quando Maluf era prefeito
de São Paulo. A obra, orçada inicialmente em 150 milhões
de reais, saiu por 500 milhões. O Ministério Público
paulista remeteu a Jersey cópia de um dossiê relatando outras
investigações que realizava contra Maluf e seus familiares.
Com base nessas informações, o dinheiro de Maluf em Jersey
acabou bloqueado temporariamente.
Criou-se no Brasil certo clima de "pegaram o Maluf", mas o caso pode ter
entrado num daqueles impasses jurídicos em que pode permanecer
por um longo tempo. Os promotores brasileiros querem receber informações
detalhadas sobre as aplicações lá fora, mas as autoridades
de Jersey e da Suíça não mandam. Só vão
enviá-las caso fique comprovado que a origem do dinheiro atribuído
a Maluf e lá depositado é fruto de um esquema de corrupção
ocorrido no Brasil. E isso os promotores tentam provar há anos,
sem sucesso. Maluf é alvo de dezenas de ações na
Justiça. Na última vez em que seus advogados fizeram um
levantamento detalhado, dois anos atrás, apurou-se que ele respondia
a uma centena de processos. Mais da metade das ações estão
encerradas e Maluf foi absolvido na maioria. Ou seja, não existe
uma única prova que relacione Maluf a um ato de corrupção,
muito menos ao envio de dinheiro irregular ao exterior. Na semana passada,
os promotores conseguiram a quebra dos sigilos bancário e telefônico
de Maluf. Esperam com isso obter alguma novidade.
Na
primeira vez em que se pronunciou sobre os recursos, durante seu depoimento
à CPI da Dívida Pública na Câmara de São
Paulo, Maluf negou as acusações. "Não sou proprietário
de nenhum valor, em nenhuma conta, em nenhum banco, naquela ilha ou em
qualquer paraíso fiscal do planeta", afirmou. Atribuiu a denúncia
ao fato de seu nome estar bem colocado na corrida eleitoral. Na última
pesquisa, ele apareceu em primeiro lugar, com 30% das intenções
de voto, para o governo paulista. Maluf chegou a dizer que, se possuísse
tal quantia, doaria à Santa Casa de Misericórdia de São
Paulo. Os mais apressados podem concluir que Maluf está mentindo,
já que a papelada sobre a existência do dinheiro é
inquestionável. Mas seria precipitado afirmar isso. O que pode
estar ocorrendo nesse caso é a adoção da chamada
"verdade-Clinton". Na primeira vez em que depôs sobre seu caso com
Monica Lewinsky, o ex-presidente americano Bill Clinton informou jamais
ter mantido relações com a estagiária da Casa Branca.
Na segunda, admitiu "relações impróprias" com Monica,
sustentando ao mesmo tempo que o primeiro depoimento havia sido "legalmente
correto". Segundo disse, ele não mentiu na versão inicial
porque fez apenas sexo oral na posição de receptor. Não
manteve relações sexuais com Monica no sentido de promover
o contato das genitálias.
Maluf é perguntado a todo instante sobre sua conta num banco no
exterior. Conta, naquele sentido mais conhecido de ir a um banco, efetuar
um depósito e acompanhar os extratos pela internet, ele não
tem mesmo. Ele não mente quando informa não ser proprietário
de "nenhum valor, em nenhuma conta, em nenhum banco, naquela ilha ou em
qualquer paraíso fiscal do planeta". De acordo com a leitura dos
e-mails trocados entre autoridades brasileiras, suíças e
da Ilha de Jersey, Maluf e familiares seus manteriam uma trust
com sede no paraíso fiscal das Ilhas Cayman. Trust não é
conta, não é banco, não é empresa. É
um contrato pelo qual um grupo de pessoas orienta a aplicação
de um volume de dinheiro e normatiza a distribuição dos
rendimentos. A trust também define quem fica com o dinheiro em
caso de falecimento de um dos sócios. Os integrantes de uma trust
são os chamados "beneficiários". Uma vez criada, é
operada por um profissional do ramo e faz aplicações financeiras
como se fosse um fundo de investimento. Uma primeira trust teria sido
montada por Maluf e seus parentes em julho de 1985. Chamava-se Blue Diamond
(Diamante Azul) e durou até 1997. Em janeiro daquele ano, a Blue
Diamond foi renomeada Red Ruby (Rubi Vermelho). Todo o dinheiro da Blue
Diamond, depositado na Suíça, foi transferido para aplicações
da Red Ruby, na Ilha de Jersey. Alertadas para o volume da transferência,
as autoridades fizeram contato com o Brasil. Que resposta Maluf dará
se perguntarem a ele se integra uma trust junto com familiares, ninguém
sabe.
Pelo volume de dinheiro supostamente envolvido nessa operação
e pelas características da manobra já divulgadas por autoridades
brasileiras, ela se parece com outros escândalos financeiros mundialmente
famosos. Em uma investigação conduzida pelo governo americano,
o irmão do ex-presidente do México, Raúl Salinas,
foi apontado como responsável por remessas milionárias para
a Suíça por meio de empresas no paraíso fiscal de
Cayman. As autoridades da Suíça ajudaram o governo do Peru
a investigar as transações financeiras realizadas pelo ex-braço
direito do presidente Alberto Fujimori, Vladimiro Montesinos. Descobriu-se
que ele mantinha milhões de dólares obtidos em esquemas
de corrupção em contas no exterior.
Outro aspecto interessante das aplicações na Ilha de Jersey
é a participação de uma instituição
financeira chamada Citibank. Esse é o banco usado pela trust para
a aplicação dos recursos. Maluf mantinha a primeira trust,
a Blue Diamond, nas Ilhas Cayman e de lá operava as contas que
foram abertas no Citibank, na Suíça. Quando surgiu a Red
Ruby, o Citi zerou as aplicações na Suíça
e transferiu tudo para uma agência sua em Jersey. Em 1998, o Congresso
americano apresentou um relatório revelando como o Citibank, segunda
maior instituição financeira do país, ajudou Raúl
Salinas, irmão do então presidente do México, Carlos
Salinas, a remeter 100 milhões de dólares obtidos ilegalmente
para paraísos fiscais. O dinheiro provinha de negócios que
Raúl mantinha com traficantes de drogas e da cobrança de
propinas de empresários. John Reed, o presidente do banco, era
amigo pessoal do presidente mexicano. Seu irmão, Raúl, conseguia
repassar o dinheiro da corrupção do México para agências
do banco em Nova York sem que os funcionários fizessem perguntas.
De Nova York o dinheiro ia parar em contas do Citi na Suíça
abertas em nome de empresas nas Ilhas Cayman. Na semana passada, o banco
divulgou uma nota assinada por seu vice-presidente de assuntos corporativos,
Richard Howe. Ele disse que o banco estava "familiarizado com o caso Paulo
Maluf" e informou que não comentaria publicamente assuntos relativos
a clientes.
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