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Edição 1 715 - 29 de agosto de 2001
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Sem nenhum caráter

"O questionamento sobre a
identidade nacional parte do
princípio de que o Brasil teria
alguma
peculiaridade. O problema
é justamente o contrário: não
temos peculiaridade nenhuma"

Pegue uma lista dos livros brasileiros mais importantes de todos os tempos. Invariavelmente, tratam do mesmo tema: a identidade nacional. Alguns o fazem de maneira direta, como Os Sertões, Casa-Grande & Senzala, Raízes do Brasil, Triste Fim de Policarpo Quaresma ou Macunaíma. Outros, de maneira indireta, como Memórias Póstumas de Brás Cubas, Grande Sertão: Veredas ou Morte e Vida Severina. Nossa literatura é monotemática. Procura mostrar, sempre, qual é o nosso caráter, de que forma se deu a mistura de raças, como incorporamos as diferentes culturas presentes em nosso território. Enquanto as outras literaturas exploram o indivíduo, a nossa explora as problemáticas da pátria, do grupo, do coletivo. Só estamos interessados em ouvir análises a respeito da nossa brasilidade. O pior é que nem conseguimos entender direito essas análises. Se entendêssemos, já teríamos passado para outro assunto.

O questionamento sobre a identidade nacional parte do princípio de que o Brasil e os brasileiros teriam alguma peculiaridade em relação ao resto do mundo. O problema é justamente o contrário: não temos peculiaridade nenhuma. A escravidão, por exemplo, costuma ser vista como um fenômeno constitutivo brasileiro. Até o século XIX, porém, a escravidão era a norma no Ocidente. Um fator econômico comum a todos os povos. Praticada com a mesma crueldade e os mesmos abusos sexuais verificados no Brasil. Diferentes foram os Estados Unidos, que fizeram uma guerra civil em torno do argumento. De fato, eles tiveram escravidão e se tornaram o país mais rico da História. Nós também tivemos escravidão e, até hoje, a usamos como álibi para justificar o atraso, a pobreza, a criminalidade, num vitimismo histórico sem paralelo.

A idéia ilusória de que somos uma nação particular, com características próprias, precisa ser combatida. No dia em que percebermos que somos um país amorfo, desinteressante, sem graça, talvez comecemos a buscar alternativas reais para nossa miséria social e cultural. Algum tempo atrás, escrevi um romance satírico sobre a busca da identidade nacional. Minha tentativa era debochar de todos os mitos formativos do Brasil. No final do romance, meu protagonista propunha que o único modo de dar sentido à nossa inútil existência seria transformar o país num gigantesco laboratório da humanidade. Concordo com ele. As multinacionais farmacêuticas precisam testar um novo remédio? Ofereçamo-nos como cobaias. Os ecologistas querem avaliar as potencialidades da energia eólica? Aproveitemos a crise para substituir as hidrelétricas com moinhos de vento. Os cientistas se interrogam sobre os danos provocados pelo efeito estufa? Taquemos fogo em meia Amazônia e vejamos o que acontece. O subcomandante Marcos, em Porto Alegre, será eleito líder do partido antiglobalização? Entreguemos-lhe o Rio Grande do Sul para suas experiências de governo. Admito que nada disso irá melhorar consideravelmente nossa condição. Mas o país, finalmente, ganhará uma cara, uma função, uma característica única. E nunca mais seremos obrigados a fingir que somos mais do que somos, inventando-nos uma identidade nacional.

 
 
   
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