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Sem
nenhum caráter
"O questionamento
sobre a
identidade nacional parte do
princípio de que o Brasil teria
alguma peculiaridade. O problema
é justamente o contrário: não
temos peculiaridade nenhuma"
Pegue uma
lista dos livros brasileiros mais importantes de todos os tempos. Invariavelmente,
tratam do mesmo tema: a identidade nacional. Alguns o fazem de maneira
direta, como Os Sertões, Casa-Grande & Senzala,
Raízes do Brasil, Triste Fim de Policarpo Quaresma ou
Macunaíma. Outros, de maneira indireta, como Memórias
Póstumas de Brás Cubas, Grande Sertão: Veredas
ou Morte e Vida Severina. Nossa literatura é monotemática.
Procura mostrar, sempre, qual é o nosso caráter, de que
forma se deu a mistura de raças, como incorporamos as diferentes
culturas presentes em nosso território. Enquanto as outras literaturas
exploram o indivíduo, a nossa explora as problemáticas da
pátria, do grupo, do coletivo. Só estamos interessados em
ouvir análises a respeito da nossa brasilidade. O pior é
que nem conseguimos entender direito essas análises. Se entendêssemos,
já teríamos passado para outro assunto.
O questionamento
sobre a identidade nacional parte do princípio de que o Brasil
e os brasileiros teriam alguma peculiaridade em relação
ao resto do mundo. O problema é justamente o contrário:
não temos peculiaridade nenhuma. A escravidão, por exemplo,
costuma ser vista como um fenômeno constitutivo brasileiro. Até
o século XIX, porém, a escravidão era a norma no
Ocidente. Um fator econômico comum a todos os povos. Praticada com
a mesma crueldade e os mesmos abusos sexuais verificados no Brasil. Diferentes
foram os Estados Unidos, que fizeram uma guerra civil em torno do argumento.
De fato, eles tiveram escravidão e se tornaram o país mais
rico da História. Nós também tivemos escravidão
e, até hoje, a usamos como álibi para justificar o atraso,
a pobreza, a criminalidade, num vitimismo histórico sem paralelo.
A idéia
ilusória de que somos uma nação particular, com características
próprias, precisa ser combatida. No dia em que percebermos que
somos um país amorfo, desinteressante, sem graça, talvez
comecemos a buscar alternativas reais para nossa miséria social
e cultural. Algum tempo atrás, escrevi um romance satírico
sobre a busca da identidade nacional. Minha tentativa era debochar de
todos os mitos formativos do Brasil. No final do romance, meu protagonista
propunha que o único modo de dar sentido à nossa inútil
existência seria transformar o país num gigantesco laboratório
da humanidade. Concordo com ele. As multinacionais farmacêuticas
precisam testar um novo remédio? Ofereçamo-nos como cobaias.
Os ecologistas querem avaliar as potencialidades da energia eólica?
Aproveitemos a crise para substituir as hidrelétricas com moinhos
de vento. Os cientistas se interrogam sobre os danos provocados pelo efeito
estufa? Taquemos fogo em meia Amazônia e vejamos o que acontece.
O subcomandante Marcos, em Porto Alegre, será eleito líder
do partido antiglobalização? Entreguemos-lhe o Rio Grande
do Sul para suas experiências de governo. Admito que nada disso
irá melhorar consideravelmente nossa condição. Mas
o país, finalmente, ganhará uma cara, uma função,
uma característica única. E nunca mais seremos obrigados
a fingir que somos mais do que somos, inventando-nos uma identidade nacional.
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