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Edição 1 715 - 29 de agosto de 2001
Entrevista: SEVERINO ANTINORI

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"Eu não sou Hitler"

Médico que pretende clonar seres humanos diz que a clonagem se tornará uma prática corriqueira e segura

Daniel Hessel Teich

O ginecologista italiano Severino Antinori tornou-se uma celebridade internacional há nove anos, quando usou técnicas de inseminação artificial para engravidar uma mulher de 62 anos. Ele nunca parou de surpreender com a ousadia de suas experiências de reprodução humana. Há três semanas, passou a ser o pivô de uma controvérsia universal com o anúncio de que irá clonar seres humanos. Antinori também previu para 2003 o nascimento do primeiro bebê clonado. A repercussão foi tão intensa que, na última semana, França e Alemanha propuseram um tratado internacional para banir experiências desse tipo. Dono de uma clínica no centro de Roma, o Centro Internazionale di Ricercatori Associati per la Riproduzione Umana, Antinori, 56 anos, calcula ter ajudado na gestação de 10.000 bebês nos últimos vinte anos. Casado, com duas filhas, Monica, 26 anos, e Stella, 19, o médico acha natural que seu trabalho cause tanta celeuma. "Eu sou um pioneiro carismático", diz. Antinori compara-se a grandes cientistas italianos e gosta de lembrar que foi professor na Universidade de Pisa, a mesma em que Galileu Galilei começou a elaborar a teoria de que a Terra gira em torno do Sol, há 400 anos. Ele falou a VEJA de sua casa de veraneio na Praia de Sabaudia, a 100 quilômetros de Roma.

Veja – Desde que o senhor anunciou a intenção de criar um clone humano em dois anos, não falta quem o chame de Frankenstein moderno. Como reage às críticas?
Antinori – Depois da reunião em Washington, quando foi anunciada a clonagem, muita gente tentou destruir a todo custo minha reputação. Vejo nos jornais as pessoas se referindo a mim como um tolo, um criminoso. Durante quinze anos eu provei que as técnicas de fertilização que desenvolvo funcionam. Agora, vêm aí dizendo que esse Antinori é um louco. Sou uma pessoa livre, quero defender os interesses da Itália no uso da clonagem terapêutica em doenças do cérebro, do coração, do mal de Parkinson, do mal de Alzheimer. Eu sou um cientista italiano como Enrico Fermi, um dos pais do átomo, como Marconi, inventor do telégrafo. Lecionei na mesma universidade em que Galileu Galilei deu aula. Não quero prejudicar a humanidade, destruir a individualidade humana produzindo cópias das pessoas. Isso não vai acontecer nunca. Não existem duas pessoas iguais e jamais existirão. É tolice a imprensa apregoar que eu sou um novo Hitler. Não sou nada disso.

Veja – Foi exatamente essa a comparação feita pelo cardeal Ratzinger, presidente da Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano. Como o senhor vê a posição da Santa Sé?
Antinori – Para mim é hipocrisia. Quem teve vínculos com os nazistas foi o papa Pio XII, assim como muitos amigos do cardeal Ratzinger na Alemanha, na época da II Guerra. Penso que a Igreja está sendo hipócrita em me julgar dessa forma. Meu objetivo é ajudar os outros a gerar novas vidas. Acho que eles estão acusando a pessoa errada. Eu sei o que estou fazendo, não sou um ignorante. Não vou produzir fotocópias nem bebês deformados.

Veja – Como o senhor vê a iniciativa dos governos da França e da Alemanha de terem ido à ONU, na semana passada, tentar proibir suas pesquisas?
Antinori – De certa forma é natural que o povo alemão atualmente se incomode com pesquisas genéticas e sinta repulsa por elas. A Alemanha cometeu uma série de erros gravíssimos na II Guerra com cientistas como Josef Mengele. Na verdade, não passavam de criminosos conduzindo pesquisas infames. No início dos anos 90 eles quase proibiram a técnica de injeção de espermatozóide diretamente no óvulo, alegando que traria deformações para os bebês. Hoje é uma rotina nas clínicas. A França é outro país estranho. Os franceses são extremamente chauvinistas quando se trata de assuntos em que não estejam envolvidos. O que não aceitam é que seja uma iniciativa de um pesquisador italiano. Estão me atacando gratuitamente e o pior é que isso tem sido uma postura de governos. Isso é totalitarismo, é criminoso, é contra os direitos humanos.

Veja – O senhor não parece acreditar na sinceridade de quem levanta objeções éticas à clonagem. Por quê?
Antinori – Para mim, ter um filho é um direito humano dos mais importantes. Há hoje 100 milhões de homens no mundo que não podem ter filhos de forma alguma. Muita gente está do meu lado. Quando eu estava nos Estados Unidos, a CNN fez uma pesquisa em seu site na internet. Sessenta por cento das pessoas que participaram se mostraram a favor da clonagem para resolver problemas de fertilidade. Houve quem me chamasse de gênio por ousar ir em frente.

Veja – O que o senhor tem a dizer sobre a química Brigitte Boisselier, que pertence à seita dos raelianos e está tentando clonar um ser humano por razões esotéricas?
Antinori – Eu trabalho em colaboração com cerca de vinte pesquisadores de todo o mundo, mas não com essa senhora Boisselier. Os americanos tentaram vincular nossa pesquisa à dela para destruir minha reputação. É uma forma de manipulação para que a opinião pública nos tratasse como charlatães. Eu recuso completamente comparações com o trabalho de Boisselier, seja ele qual for. Costumo ser extremamente cuidadoso na questão científica. Sou completamente contrário à idéia de usar a clonagem para fins religiosos, como pretendem fazer os raelianos. Isso é uma bobagem, uma pesquisa ridícula.

Veja – O senhor já pensou em produzir um clone seu?
Antinori – A pesquisa tem finalidade exclusivamente terapêutica. Eu já tenho minha família, portanto isso está fora de questão. Se não tivesse, talvez pensasse no assunto.

Veja – A doutora Boisselier arrolou a própria filha como voluntária nas pesquisas dos raelianos. O senhor pensou em usar suas filhas como voluntárias?
Antinori – Isso é estupidez. Eu reitero que a clonagem é apenas para ser usada com critérios rigorosos, somente para casais que não podem ter filhos. Nesse caso, nas pesquisas que estamos fazendo, o foco está voltado para o homem que não consegue ser pai. Como, por exemplo, um soldado americano que perdeu os testículos numa explosão durante a Guerra do Golfo

Veja – O senhor já decidiu em que país vai nascer o primeiro bebê clonado?
Antinori – A idéia é realizar estudos em vários países simultaneamente. Nós vamos discutir e decidir isso em um congresso sobre clonagem em Montecarlo, em outubro.

Veja – O Brasil estaria entre eles?
Antinori – Se pesquisadores brasileiros quiserem conduzir essa pesquisa, não vejo motivo para que não esteja. É um país que detém tecnologia tanto em genética quanto em reprodução artificial. Para mim não está longe o dia em que o Brasil verá nascer seu primeiro bebê clonado. Há clínicas equipadas e técnicos extremamente competentes para produzir o primeiro clone humano brasileiro.

Veja – A maioria dos cientistas acha que o senhor está sendo precipitado ao iniciar a clonagem de seres humanos. O senhor não acha que está indo muito rápido?
Antinori – Muitos especialistas respeitados já concordam que a clonagem é um caminho natural para as pesquisas na área de reprodução humana. Eu insisto que fazer clonagem não é criar fotocópias de uma pessoa. Duas pessoas nunca serão idênticas. No máximo, serão tão parecidas quanto são os gêmeos. Quanto ao receio que os pesquisadores têm dos riscos de que essas pesquisas gerem bebês deformados, nós estamos fazendo inúmeros estudos para reduzi-los ao mínimo. Muitas pessoas dizem que é prematuro, mas acho que já temos condições de começar.

Veja – Muita gente argumenta que o anúncio de clonagem é apenas um golpe de marketing para promover sua clínica.
Antinori – Bobagem. Eu não preciso de nada disso para promover minha clínica, e minha história demonstra isso muito bem.

Veja – Quais são os cuidados que o senhor está tomando com relação às voluntárias do seu programa de clonagem?
Antinori – Nós temos dois psicólogos em Roma e outros dois nos Estados Unidos para ajudar na seleção e orientação das voluntárias. Os casais são informados de todos os riscos e de como a técnica funciona. Eles são os primeiros e isso não é coisa simples, por mais que tentemos minimizar os perigos da pesquisa. Você corre riscos se se candidatar para um novo tipo de transplante cardíaco. E não adianta ficarmos receosos, porque se tivermos medo não teremos nada no futuro. A ciência e a medicina se estagnariam se não houvesse quem aceitasse essas condições.

Veja – Não é uma opção muito dura para uma mulher que, em última instância, vai dar à luz um clone de seu marido, um bebê que não tem nenhuma característica sua?
Antinori – Isso não vai acontecer. Vamos usar uma técnica da Universidade do Havaí que consiste em colocar um pequeno pedaço da célula da mãe no clone, a mitocôndria. Com isso, o bebê terá 80% de carga genética do pai e 20% da mãe. Não geraremos uma fotocópia.

Veja – Como o senhor pode estar tão confiante de que não irá criar bebês deformados?
Antinori – Nossa idéia é adotar uma nova tecnologia para reduzir os riscos já na fase de clonagem. É a chamada reclonagem, em que clonaríamos um embrião e depois o clonaríamos novamente. Isso se repetiria três ou quatro vezes. Após vinte dias, transfere-se o último dos embriões para o útero da mãe. Eu já realizei essa experiência com camundongos, e outro grupo de pesquisadores da China fez com cabras. As chances de sucesso são maiores e a gravidez é mais segura.

Veja – Muitos especialistas em clonagem argumentam que as deformidades são provocadas por problemas nas primeiras etapas de cultivo do embrião. Como o senhor encara essas argumentações?
Antinori – Eles dizem isso baseados na experiência deles com animais. Com seres humanos é diferente. O cultivo de embriões nas clínicas de fertilização funciona bem, não temos problemas nessas clínicas. Não podemos esquecer que quando se desenvolveu a técnica para injetar o espermatozóide direto no óvulo, há quase dez anos, todo mundo dizia que essa tecnologia iria gerar uma profusão de bebês deformados. Não aconteceu absolutamente nada até agora.

Veja – A experiência com animais mostra que a clonagem é uma operação complicada, com taxa baixíssima de sucesso e alto índice de deformidades. Vale a pena correr tais riscos com um ser humano?
Antinori – Na reunião em que expus minha proposta de clonagem, em Washington, perguntei abertamente a Ian Wilmut (o criador da ovelha Dolly) quantas vezes ele havia testado os embriões antes de implantá-los no útero das ovelhas. Ele me respondeu que não havia testado nenhuma vez, que não tinha feito diagnóstico algum de embrião e que tinha implantado todos, indiscriminadamente. Ele não checou nada, e é obvio que as transferências não funcionaram direito. Essas pessoas que me criticam o fazem com base nas experiências veterinárias e não na experiência clínica e científica com seres humanos. Elas não sabem como são os mecanismos de reprodução humana. Eu tenho uma estratégia inteligente e consistente.

Veja – Qual é essa estratégia?
Antinori – A redução máxima de risco antes da implantação. Depois de colocados no útero materno, os embriões serão checados de modo intenso. Vamos conferir cada detalhe da evolução da gravidez e do desenvolvimento do feto. Isso será feito a cada semana, a cada dia. Com essa estratégia, teremos 99% de probabilidade de sucesso.

Veja – O que acontecerá se for detectado um problema no feto?
Antinori – Vamos fazer um aborto. Em situações normais, numa gravidez natural, há 5% de riscos de má-formação. São casos em que quase sempre se opta por um aborto. Isso é perfeitamente legal em inúmeros países do mundo. Nos últimos vinte anos foram realizados cerca de 4 milhões de abortos na Itália.

Veja – E se o bebê nascer e só depois forem constatados problemas?
Antinori – Nossa estratégia é reduzir os riscos ao mínimo. Temos muitos estudos que mostram como monitorar o crescimento do bebê, a formação do sistema nervoso e a evolução do sistema cardíaco. Possuímos muitas técnicas e equipamentos para acompanhar o processo. Isso não tem nada a ver com os animais em que os embriões são colocados diretamente no útero das fêmeas. Não adianta alguns cientistas extrapolarem para o catastrofismo, porque as grandes deformidades são detectáveis e não vão acontecer. Eu tenho vinte anos de experiência com reprodução humana. Quando consegui a primeira gravidez em uma mulher idosa, cheguei a ter medo. Tive medo das conseqüências. O que me deu tranqüilidade foi a consciência de que estava fazendo todo o possível para evitar completamente qualquer deformidade do bebê ou problema de saúde da mãe.

Veja – O senhor não está com medo agora?
Antinori – Eu estou 99% seguro a respeito do resultado do meu trabalho. Não tenho medo por causa dos resultados obtidos, da minha experiência em evitar problemas biológicos e clínicos. Não há ninguém como eu, com a minha experiência.

 
 
   
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