"Eu
não sou Hitler"
Médico que pretende clonar
seres humanos diz
que a clonagem se
tornará uma prática corriqueira
e segura
Daniel
Hessel Teich
O ginecologista italiano Severino Antinori tornou-se uma celebridade internacional
há nove anos, quando usou técnicas de inseminação
artificial para engravidar uma mulher de 62 anos. Ele nunca parou de surpreender
com a ousadia de suas experiências de reprodução humana.
Há três semanas, passou a ser o pivô de uma controvérsia
universal com o anúncio de que irá clonar seres humanos.
Antinori também previu para 2003 o nascimento do primeiro bebê
clonado. A repercussão foi tão intensa que, na última
semana, França e Alemanha propuseram um tratado internacional para
banir experiências desse tipo. Dono de uma clínica no centro
de Roma, o Centro Internazionale di Ricercatori Associati per la Riproduzione
Umana, Antinori, 56 anos, calcula ter ajudado na gestação
de 10.000 bebês nos últimos vinte anos. Casado, com duas
filhas, Monica, 26 anos, e Stella, 19, o médico acha natural que
seu trabalho cause tanta celeuma. "Eu sou um pioneiro carismático",
diz. Antinori compara-se a grandes cientistas italianos e gosta de lembrar
que foi professor na Universidade de Pisa, a mesma em que Galileu Galilei
começou a elaborar a teoria de que a Terra gira em torno do Sol,
há 400 anos. Ele falou a VEJA de sua casa de veraneio na Praia
de Sabaudia, a 100 quilômetros de Roma.
Veja Desde que o senhor anunciou a intenção
de criar um clone humano em dois anos, não falta quem o chame de
Frankenstein moderno. Como reage às críticas?
Antinori
Depois
da reunião em Washington, quando foi anunciada a clonagem, muita
gente tentou destruir a todo custo minha reputação. Vejo
nos jornais as pessoas se referindo a mim como um tolo, um criminoso.
Durante quinze anos eu provei que as técnicas de fertilização
que desenvolvo funcionam. Agora, vêm aí dizendo que esse
Antinori é um louco. Sou uma pessoa livre, quero defender os interesses
da Itália no uso da clonagem terapêutica em doenças
do cérebro, do coração, do mal de Parkinson, do mal
de Alzheimer. Eu sou um cientista italiano como Enrico Fermi, um dos pais
do átomo, como Marconi, inventor do telégrafo. Lecionei
na mesma universidade em que Galileu Galilei deu aula. Não quero
prejudicar a humanidade, destruir a individualidade humana produzindo
cópias das pessoas. Isso não vai acontecer nunca. Não
existem duas pessoas iguais e jamais existirão. É tolice
a imprensa apregoar que eu sou um novo Hitler. Não sou nada disso.
Veja Foi exatamente essa a comparação feita
pelo cardeal Ratzinger, presidente da Congregação para a
Doutrina da Fé do Vaticano. Como o senhor vê a posição
da Santa Sé?
Antinori
Para mim é hipocrisia. Quem teve vínculos com os
nazistas foi o papa Pio XII, assim como muitos amigos do cardeal Ratzinger
na Alemanha, na época da II Guerra. Penso que a Igreja está
sendo hipócrita em me julgar dessa forma. Meu objetivo é
ajudar os outros a gerar novas vidas. Acho que eles estão acusando
a pessoa errada. Eu sei o que estou fazendo, não sou um ignorante.
Não vou produzir fotocópias nem bebês deformados.
Veja Como o senhor vê a iniciativa dos governos da
França e da Alemanha de terem ido à ONU, na semana passada,
tentar proibir suas pesquisas?
Antinori
De certa forma é natural que o povo alemão atualmente se
incomode com pesquisas genéticas e sinta repulsa por elas. A Alemanha
cometeu uma série de erros gravíssimos na II Guerra com
cientistas como Josef Mengele. Na verdade, não passavam de criminosos
conduzindo pesquisas infames. No início dos anos 90 eles quase
proibiram a técnica de injeção de espermatozóide
diretamente no óvulo, alegando que traria deformações
para os bebês. Hoje é uma rotina nas clínicas. A França
é outro país estranho. Os franceses são extremamente
chauvinistas quando se trata de assuntos em que não estejam envolvidos.
O que não aceitam é que seja uma iniciativa de um pesquisador
italiano. Estão me atacando gratuitamente e o pior é que
isso tem sido uma postura de governos. Isso é totalitarismo, é
criminoso, é contra os direitos humanos.
Veja O senhor não parece acreditar na sinceridade
de quem levanta objeções éticas à clonagem.
Por quê?
Antinori
Para mim, ter um filho é um direito humano dos mais importantes.
Há hoje 100 milhões de homens no mundo que não podem
ter filhos de forma alguma. Muita gente está do meu lado. Quando
eu estava nos Estados Unidos, a CNN fez uma pesquisa em seu site na internet.
Sessenta por cento das pessoas que participaram se mostraram a favor da
clonagem para resolver problemas de fertilidade. Houve quem me chamasse
de gênio por ousar ir em frente.
Veja O que o senhor tem a dizer sobre a química Brigitte
Boisselier, que pertence à seita dos raelianos e está tentando
clonar um ser humano por razões esotéricas?
Antinori
Eu trabalho em colaboração com cerca de vinte pesquisadores
de todo o mundo, mas não com essa senhora Boisselier. Os americanos
tentaram vincular nossa pesquisa à dela para destruir minha reputação.
É uma forma de manipulação para que a opinião
pública nos tratasse como charlatães. Eu recuso completamente
comparações com o trabalho de Boisselier, seja ele qual
for. Costumo ser extremamente cuidadoso na questão científica.
Sou completamente contrário à idéia de usar a clonagem
para fins religiosos, como pretendem fazer os raelianos. Isso é
uma bobagem, uma pesquisa ridícula.
Veja O senhor já pensou em produzir um clone seu?
Antinori
A
pesquisa tem finalidade exclusivamente terapêutica. Eu já
tenho minha família, portanto isso está fora de questão.
Se não tivesse, talvez pensasse no assunto.
Veja A doutora Boisselier arrolou a própria filha
como voluntária nas pesquisas dos raelianos. O senhor pensou em
usar suas filhas como voluntárias?
Antinori
Isso é estupidez. Eu reitero que a clonagem é apenas para
ser usada com critérios rigorosos, somente para casais que não
podem ter filhos. Nesse caso, nas pesquisas que estamos fazendo, o foco
está voltado para o homem que não consegue ser pai. Como,
por exemplo, um soldado americano que perdeu os testículos numa
explosão durante a Guerra do Golfo
Veja O senhor já decidiu em que país vai nascer
o primeiro bebê clonado?
Antinori
A idéia é realizar estudos em vários países
simultaneamente. Nós vamos discutir e decidir isso em um congresso
sobre clonagem em Montecarlo, em outubro.
Veja O Brasil estaria entre eles?
Antinori
Se pesquisadores brasileiros quiserem conduzir essa pesquisa, não
vejo motivo para que não esteja. É um país que detém
tecnologia tanto em genética quanto em reprodução
artificial. Para mim não está longe o dia em que o Brasil
verá nascer seu primeiro bebê clonado. Há clínicas
equipadas e técnicos extremamente competentes para produzir o primeiro
clone humano brasileiro.
Veja A maioria dos cientistas acha que o senhor está
sendo precipitado ao iniciar a clonagem de seres humanos. O senhor não
acha que está indo muito rápido?
Antinori
Muitos especialistas respeitados já concordam que a clonagem é
um caminho natural para as pesquisas na área de reprodução
humana. Eu insisto que fazer clonagem não é criar fotocópias
de uma pessoa. Duas pessoas nunca serão idênticas. No máximo,
serão tão parecidas quanto são os gêmeos. Quanto
ao receio que os pesquisadores têm dos riscos de que essas pesquisas
gerem bebês deformados, nós estamos fazendo inúmeros
estudos para reduzi-los ao mínimo. Muitas pessoas dizem que é
prematuro, mas acho que já temos condições de começar.
Veja Muita gente argumenta que o anúncio de clonagem
é apenas um golpe de marketing para promover sua clínica.
Antinori
Bobagem. Eu não preciso de nada disso para promover minha clínica,
e minha história demonstra isso muito bem.
Veja Quais são os cuidados que o senhor está
tomando com relação às voluntárias do seu
programa de clonagem?
Antinori
Nós temos dois psicólogos em Roma e outros dois nos Estados
Unidos para ajudar na seleção e orientação
das voluntárias. Os casais são informados de todos os riscos
e de como a técnica funciona. Eles são os primeiros e isso
não é coisa simples, por mais que tentemos minimizar os
perigos da pesquisa. Você corre riscos se se candidatar para um
novo tipo de transplante cardíaco. E não adianta ficarmos
receosos, porque se tivermos medo não teremos nada no futuro. A
ciência e a medicina se estagnariam se não houvesse quem
aceitasse essas condições.
Veja Não é uma opção muito dura
para uma mulher que, em última instância, vai dar à
luz um clone de seu marido, um bebê que não tem nenhuma característica
sua?
Antinori
Isso não vai acontecer. Vamos usar uma técnica da Universidade
do Havaí que consiste em colocar um pequeno pedaço da célula
da mãe no clone, a mitocôndria. Com isso, o bebê terá
80% de carga genética do pai e 20% da mãe. Não geraremos
uma fotocópia.
Veja Como o senhor pode estar tão confiante de que
não irá criar bebês deformados?
Antinori
Nossa idéia é adotar uma nova tecnologia para reduzir os
riscos já na fase de clonagem. É a chamada reclonagem, em
que clonaríamos um embrião e depois o clonaríamos
novamente. Isso se repetiria três ou quatro vezes. Após
vinte dias, transfere-se o último dos embriões para o útero
da mãe. Eu já realizei essa experiência com camundongos,
e outro grupo de pesquisadores da China fez com cabras. As chances de
sucesso são maiores e a gravidez é mais segura.
Veja Muitos especialistas em clonagem argumentam que as deformidades
são provocadas por problemas nas primeiras etapas de cultivo do
embrião. Como o senhor encara essas argumentações?
Antinori
Eles dizem isso baseados na experiência deles com animais. Com seres
humanos é diferente. O cultivo de embriões nas clínicas
de fertilização funciona bem, não temos problemas
nessas clínicas. Não podemos esquecer que quando se desenvolveu
a técnica para injetar o espermatozóide direto no óvulo,
há quase dez anos, todo mundo dizia que essa tecnologia iria gerar
uma profusão de bebês deformados. Não aconteceu absolutamente
nada até agora.
Veja A experiência com animais mostra que a clonagem
é uma operação complicada, com taxa baixíssima
de sucesso e alto índice de deformidades. Vale a pena correr tais
riscos com um ser humano?
Antinori
Na reunião em que expus minha proposta de clonagem, em Washington,
perguntei abertamente a Ian Wilmut (o criador da ovelha Dolly)
quantas vezes ele havia testado os embriões antes de implantá-los
no útero das ovelhas. Ele me respondeu que não havia testado
nenhuma vez, que não tinha feito diagnóstico algum de embrião
e que tinha implantado todos, indiscriminadamente. Ele não checou
nada, e é obvio que as transferências não funcionaram
direito. Essas pessoas que me criticam o fazem com base nas experiências
veterinárias e não na experiência clínica e
científica com seres humanos. Elas não sabem como são
os mecanismos de reprodução humana. Eu tenho uma estratégia
inteligente e consistente.
Veja Qual é essa estratégia?
Antinori
A
redução máxima de risco antes da implantação.
Depois de colocados no útero materno, os embriões serão
checados de modo intenso. Vamos conferir cada detalhe da evolução
da gravidez e do desenvolvimento do feto. Isso será feito a cada
semana, a cada dia. Com essa estratégia, teremos 99% de probabilidade
de sucesso.
Veja O que acontecerá se for detectado um problema
no feto?
Antinori
Vamos fazer um aborto. Em situações normais, numa gravidez
natural, há 5% de riscos de má-formação. São
casos em que quase sempre se opta por um aborto. Isso é perfeitamente
legal em inúmeros países do mundo. Nos últimos vinte
anos foram realizados cerca de 4 milhões de abortos na Itália.
Veja E se o bebê nascer e só depois forem constatados
problemas?
Antinori
Nossa estratégia é reduzir os riscos ao mínimo. Temos
muitos estudos que mostram como monitorar o crescimento do bebê,
a formação do sistema nervoso e a evolução
do sistema cardíaco. Possuímos muitas técnicas e
equipamentos para acompanhar o processo. Isso não tem nada a ver
com os animais em que os embriões são colocados diretamente
no útero das fêmeas. Não adianta alguns cientistas
extrapolarem para o catastrofismo, porque as grandes deformidades são
detectáveis e não vão acontecer. Eu tenho vinte anos
de experiência com reprodução humana. Quando consegui
a primeira gravidez em uma mulher idosa, cheguei a ter medo. Tive medo
das conseqüências. O que me deu tranqüilidade foi a consciência
de que estava fazendo todo o possível para evitar completamente
qualquer deformidade do bebê ou problema de saúde da mãe.
Veja O senhor não está com medo agora?
Antinori
Eu estou 99% seguro a respeito do resultado do meu trabalho. Não
tenho medo por causa dos resultados obtidos, da minha experiência
em evitar problemas biológicos e clínicos. Não há
ninguém como eu, com a minha experiência.
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