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Gustavo
Franco
A
novidade do patacão
"Ainda
é cedo para afirmar, mas a
Argentina introduziu uma
inovação que,
somada ao antes improvável pacote com
o FMI, pode mudar a direção
do vento"
Algo de novo está se passando na Argentina em matéria monetária
e atende pelo nome de "patacão". É cedo para dizer, mas
a conjectura é legítima: essa inovação, somada
ao antes improvável pacote com o FMI, pode mudar a direção
do vento.
Como funciona essa nova mágica?
Ilustração Ale Setti

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Simples: o governo federal reconheceu recentemente que deve certa quantidade
de dinheiro às províncias, mas, em vez de pagar em pesos,
pretende emitir títulos, as Letras de Cancelación de Obligaciones
Provinciales (Lecops). Diante desse crédito contra o governo federal,
a Província de Buenos Aires emitiu um título seu, o patacão,
que rende juros de 7% anuais, mas foi emitido em pequenas denominações
e ao portador. Parte dos salários dos funcionários da província
foi paga em patacões, os quais, com espantosa rapidez, já
estavam disponíveis em caixas eletrônicos e circulando como
se fossem dinheiro.
Simultaneamente, o governo federal deu aos patacões poder liberatório,
ou seja, declarou que os aceita para pagamentos de impostos a valor de
face. Em razão disso, o comércio aceitou os patacões
com entusiasmo, a começar pelas lanchonetes McDonald's, que tomaram
a iniciativa de aceitar os patacões como pesos numa de suas promoções.
Buenos Aires está autorizada a emitir patacões até
o limite de seus créditos em Lecops, que atingem 400 milhões
de dólares, e as outras províncias podem emitir até
600 milhões. No futuro, nada impede que o governo federal estipule
limites maiores, ou que permita que as províncias, ou mesmo as
empresas, que são detentoras de outros títulos da dívida
pública, emitam patacões com esse "lastro". Note-se que,
em tese, a dívida pública não é aumentada
com a emissão de patacões "lastreados" em títulos
federais já existentes, havendo apenas "monetização",
ou seja, algo semelhante a uma operação de "mercado aberto".
O FMI não teria muito que dizer contra isso, especialmente num
contexto de severa contração monetária.
Com efeito, uma vantagem imediata desse arranjo é justamente reverter
a contração e reativar a economia, o que, todavia, pode
assustar os puristas em matéria de conversibilidade. Na verdade,
é como se tivéssemos um regime de padrão-ouro, mas
com um mecanismo monetário anticíclico, ou seja, uma "conversibilidade
keynesiana". É claro que há um truque, aliás muito
simples: os patacões não podem ser usados para comprar dólares,
de tal sorte que a emissão desses instrumentos teoricamente não
aumenta a pressão sobre as reservas. Ou seja, os patacões
são moeda inconversível lastreada sobre dívida pública
doméstica, como eram os mil-réis emitidos pelo Banco dos
Estados Unidos do Brasil, criado por Rui Barbosa em 1890, ou como os dólares
emitidos nos EUA em 1863, no sistema dos chamados bancos nacionais. Portanto,
o que se tem é um sistema monetário em que a conversibilidade
será, na prática, diminuída ou "alavancada", e nesse
terreno conceitual podem sim aparecer objeções sérias
por parte do FMI.
A conversibilidade em nada se altera para os poucos pesos em circulação,
mas continua uma miragem não apenas para o estoque total de moeda,
agora aumentado pelos patacões, e ainda mais para os chamados "argendólares",
vale dizer, os depósitos em dólares em bancos argentinos,
que andam em cerca de 50 bilhões. As reservas internacionais do
país estão na faixa de 15 bilhões. Tudo muito parecido
com a Grã-Bretanha de 1914, para a qual a relação
entre as reservas em ouro e a moeda em circulação era perto
de um para dez.
É
claro que nada muda no tocante ao regime cambial, mas é forçoso
reconhecer que uma janela foi aberta: se o poder liberatório dos
patacões for restrito, eles flutuarão com relação
ao peso. Desnecessário dizer que esse movimento requereria gigantescas
cautelas, pois, ao contrário do que aqui ocorreu com a URV, a nova
moeda, o patacão, ficaria pior que a velha, o peso, o que não
ajudaria em sua adoção. De um modo ou de outro, há
um fato novo sobre a mesa, e novas alternativas a explorar.
Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente
do Banco Central (e-mail: gfranco@palavra.com
home
page: www.gfranco.com.br)
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