O ouro no final do arco-íris

Como o pintor pernambucano Romero Britto
se tornou uma celebridade nos Estados Unidos

Angela Pimenta

Foto: Divulgação  
Romero em seu estúdio,
em Miami: "Não quero
saber de problemas, e
sim de soluções. Pinto
uma explosão de cores
e de otimismo positivo"

Há apenas treze anos, um dos pintores mais badalados nos Estados Unidos vendia, a preço de banana, naturezas-mortas com cajus maduros em feiras do Recife. Hoje, seus quadros alcançam o preço de 70.000 dólares e ele priva da intimidade de celebridades como o ator Arnold Schwarzenegger, o jogador de basquete Michael Jordan e o senador Ted Kennedy. É, ainda, um benemérito de primeira hora das causas filantrópicas abraçadas pela primeira-dama americana Hillary Clinton. Seja no tempo ou no espaço, a trajetória do pernambucano Romero Britto, de 34 anos, é prodigiosa. Por mais que os críticos torçam o nariz para o seu autodenominado estilo "neocubista pop", Mr. Britto segue em frente, captando elogios de gente graúda do mundo das artes, como Eileen Guggenheim, descendente dos fundadores do célebre museu nova-iorquino. "Britto constrói mundos em que o êxtase e a serenidade reinam supremos", diz ela. Quem já viu as criações publicitárias de Romero para a vodca sueca Absolut, ou as latinhas que desenhou para a Pepsi-Cola, sabe de que tipo de êxtase se trata. Com especial habilidade para combinar padrões geométricos, cores vibrantes e figuras chapadas, a obra de Romero deve ser entendida como puro entretenimento, uma criação saída do universo das histórias em quadrinhos e, portanto, a quilômetros de distância das questões da arte contemporânea. Com um português carregado de sotaque, Romero desembarca nesta semana no Rio de Janeiro para um inédito festival de vernissages no Brasil. "Não quero saber de problemas, mas sim de soluções. Minha pintura é uma explosão de cores e otimismo positivo", diz.

Para a mostra que abre na semana que vem no Museu Nacional de Belas Artes do Rio, Romero tomou a liberdade de pedir emprestada uma tela da coleção pessoal de Ted Kennedy. Chama-se Roses View, e é uma paisagem inspirada na casa dos Kennedy na costa do Estado de Massachusetts. Haverá também reproduções da série de quadros que o pintor produziu especialmente para os estúdios Disney, representando o Mickey Mouse. Um dos quadros exibe o ratinho criado por Walt Disney com um globo terrestre no lugar do rosto, mais uma típica sacada da linguagem publicitária. Depois do vernissage no museu carioca, Romero segue para São Paulo, onde abre uma exposição na Galeria São Paulo. Dezenove quadros seus estarão à venda por preços entre 5.000 e 55.000 dólares cada uma. Essa é a primeira vez que ele apresenta uma amostragem significativa de seus trabalhos no Brasil.

À sua maneira, Romero Britto ganhou na loteria em 1990, pouco depois de se mudar para Miami. Foi quando o sueco Curt Nycander, alto executivo da vodca Absolut, viu seus desenhos e o contratou para promover a bebida, com metade do mercado nos Estados Unidos. Foi assim que ele, que ganhava a vida pintando na rua, podando jardins e lavando carros, embolsou 65.000 dólares. Antes do então desconhecido Romero, a Absolut só havia encomendado desenhos para figurões como Andy Warhol e Keith Haring. Da noite para o dia, um boquiaberto Romero Britto viu seu trabalho impresso em milhões de exemplares de 61 diferentes revistas americanas. Até hoje, só no ramo publicitário Mr. Britto já faturou cerca de 1 milhão de dólares. Apenas no contrato que fez com a Pepsi em 1995 embolsou 500.000 dólares, pagamento da criação e dos royalties sobre doze de seus desenhos, que foram estampados em 150 milhões de latinhas nos Estados Unidos, Brasil e países da América Central. No ano que vem, a Pepsi planeja imprimir latinhas com desenhos de Romero também no México.

Em Miami, cidade que ele considera "o Recife dos Estados Unidos", Romero é antes de tudo um próspero empresário. Tem um estúdio-galeria cinematográfico, o Britto Central, numa área de 3.000 metros quadrados no coração turístico da cidade. Nesse empreendimento emprega cerca de vinte ianques. Ali vende seus quadros, sem atravessadores. Quem não pode comprar uma tela pode adquirir cartões-postais ou serigrafias por um punhado de dólares. Além de exposições, o Britto Central é também um concorrido endereço para festas hollywoodianas, como a recentemente oferecida à atriz Marisa Tomei. Mas em Miami, mais do que freqüentar o Britto Central, ter um Romero Britto na parede é que dá status. A cantora Whitney Houston encomendou pessoalmente a Romero um retrato, que já foi entregue. Sylvester Stallone comprou uma tela com um pequeno canguru. Madonna, Michael Jackson e Mike Tyson também têm os seus. E graças a Ted Kennedy, que apresentou o pintor a Hillary e Bill Clinton, os atuais titulares da Casa Branca também têm o deles, um presente do senador. Até hoje Romero estima ter feito cerca de 5.000 trabalhos, entre telas, papéis e serigrafias.

Mesmo com a vida ganha, a maior diversão de Romero continua sendo trabalhar. Ele pinta em sessões que não raro varam a madrugada. A mulher, a nova-iorquina Cheryl, e o filho Brendan, de 12 anos, já se habituaram a suas longas ausências. Diariamente, depois de fazer seu jogging matinal, ele deixa sua mansão de linhas italianas, num condomínio chique ao sul de Miami, e parte para o o Britto Central, a quarenta minutos de carro. Depois da jornada movida a tinta acrílica, o pintor volta para casa, à beira de um lago. Na mansão, além de quadros de Romero Britto, é claro, os Britto colecionam desenhos de Pablo Picasso, Henri Matisse, Andy Warhol e Keith Haring. De artistas brasileiros, têm obras de Cláudio Tozzi, João Câmara e Rubens Gerchman. Para relaxar da lida com as tintas, Romero costuma ouvir os trinados dos Hanson, Mariah Carey e Michael Jackson. Já no tocante à arte da gastronomia, Romero Britto não poderia ser mais frugal. Seu prato preferido é frango com batatas, o mesmo tipo de comida que apreciava no Brasil, quando era apenas o sétimo dos nove filhos de dona Maria de Lurdes.

Desde os tempos de menino de calças curtas no Recife, Romero sempre soube o que queria. Aos 14 anos, depois que o pai, um modesto funcionário público, abandonou a família, ele conseguiu sozinho uma bolsa de estudos no Colégio Marista de Recife, freqüentado apenas pela elite pernambucana. Bom aluno, não só manteve a bolsa de estudos como passou no vestibular de direito da Universidade Católica, curso que abandonou um ano e meio depois. Foi quando começou a ganhar uns trocados com suas pinturas, os cajus. Seu faro para o marketing pessoal já era notável então. Afilhado de batismo do escritor Gilberto Freyre, Romero colheu dele rasgados elogios para os seus cajus. Generoso, o autor de Casa Grande & Senzala observou que o rapaz apresentava "notáveis predisposições para as artes plásticas, revelando especial talento em combinações de cores tropicais". Foi assim que o pintor acabaria encontrando o pote de ouro no final de seu arco-íris pessoal.




Copyright © 1998, Abril S.A.

Abril On-Line