O maníaco do parque

Elas eram jovens, tinham uma vida inteira
pela frente
até que caíram na conversa
de um louco, que as assassinou cruelmente

Carlos Graieb

Pereira: motoboy
é o maior suspeito
Fotos: Reprodução  

Enclave da Mata Atlântica numa área industrial de São Paulo, o Parque do Estado tem vegetação densa, com vários trechos selvagens onde ninguém parece ter pisado. Foi num desses lugares que o operário Reginaldo Rodrigues, de 24 anos, entrou no dia 4 de julho, em busca de pipas perdidas por meninos da região. Em vez das pipas, encontrou dois cadáveres. Numa busca acurada, a polícia localizou mais dois corpos e, no curso das investigações, concluiu que outros dois casos anteriores, tidos como crimes isolados no mesmo local, deveriam ser creditados na conta de um único criminoso. Nas últimas três semanas, não foi outro o assunto na capital paulista. Surgiu, então, um assassino em série digno de filme americano, logo apelidado de "maníaco do Parque do Estado". Primeiro em forma de retrato falado. Depois numa foto de verdade. Na semana passada, a polícia divulgou um retrato de seu principal suspeito: o motoboy Francisco de Assis Pereira, de 31 anos. Pereira está foragido, mas a polícia negocia com sua família. Ele diz que se apresenta mediante garantias de segurança. Para confirmar sua culpa, a polícia conta com o auxílio da genética. Foi coletada uma amostra do esperma do assassino encontrada no corpo da última vítima. O enredo é de conto policial, o assassino parece tirado de filme, mas a história é muito mais chocante porque aconteceu na vida real, com moças que se avistam todos os dias nas metrópoles.


Selma: morta de joelhos
  Isadora: desaparecida

Das seis mulheres mortas, quatro foram encontradas de bruços na mata, vestidas apenas de calcinha. Em estado avançado de decomposição, seus corpos não puderam ser identificados. As duas vítimas reconhecidas são Selma Ferreira Queiroz, de 18 anos, e Raquel Mota Rodrigues, de 23. Selma morava em Cotia, município da Grande São Paulo, com os pais e as duas irmãs mais velhas. Tinha cabelos negros, pele morena e estatura mediana. Era balconista de uma rede de farmácias. Seu sonho era juntar dinheiro para freqüentar uma faculdade de ciências contábeis ou de computação. No início do mês, perdeu o emprego. No dia 3 de julho, por volta das 3 da tarde, ela se encontrava no centro da cidade, tratando de formalidades referentes à sua demissão. Nesse horário, ligou para o namorado, dizendo que não conseguiria voltar a tempo de assistir ao jogo Brasil e Dinamarca. Foi a última vez que se teve notícia dela. Selma só seria encontrada no dia seguinte, no Parque do Estado, pelo operário que procurava pipas e deparou com o cadáver. Ela estava nua. Seus joelhos e pés, calçados em sapatos pretos, estavam cravados no chão, em posição de quem pede misericórdia. O assassino estuprador deixou mordidas em seu ombro, seios e interior das pernas. Um horror.

Estelionato — Para chegar do centro ao Parque do Estado é provável que Selma tenha feito um caminho semelhante ao de Raquel. Gaúcha, Raquel vivia em São Paulo havia cerca de um ano. Pouco saía da rotina. Numa noite de janeiro, por volta das 8 horas, ao sair do trabalho numa loja de móveis, telefonou para a prima Lígia Cleni Crescêncio, com quem morava, dizendo que havia sido convidada para participar de uma sessão de fotos no Parque do Estado. Seu corpo foi encontrado cinco dias mais tarde. O que levou a polícia a suspeitar que os crimes haviam sido cometidos pela mesma pessoa foram as semelhanças entre eles. Todas as moças encontradas tinham cabelos longos e negros. É bem provável que a história da sessão de fotos tenha sido usada para atrair todas as vítimas — meninas naturalmente vaidosas por causa da idade e em busca de uma oportunidade para subir na vida. Depois que a história foi divulgada pelos jornais, apareceram outras supostas vítimas do maníaco que teriam conseguido escapar da morte. A uma delas, o assassino disse que seus atos tinham origem numa desilusão amorosa.

O caso começou a ser elucidado quando apareceu uma testemunha que tinha o número de telefone de um homem parecido com o do retrato falado. Por meio desse número, a polícia localizou uma empresa de transportes no Brás, bairro central de São Paulo, e visitou o local pela primeira vez no dia 15 de julho. Um dos empregados era o motoboy Francisco de Assis Pereira, que morava ali mesmo, num pequeno quarto. Ele sumira no domingo anterior, deixando um jornal aberto na página em que aparecia o retrato falado do maníaco do parque e um bilhete onde se lia: "Infelizmente tem de ser assim, preciso ir embora. Deus abençoe a todos". Nascido em Guaraci, no interior paulista, o suspeito morou durante algum tempo nas proximidades do Parque do Estado, logo que se mudou para São Paulo. Graduado como cabo do Exército, habilitado para ações na floresta, ele costumava aventurar-se na mata. Seu hobby é a patinação. Chegou a fazer parte de um grupo de patinadores que percorria a cidade à noite. Coincidência ou não, sua última namorada, uma estudante de 18 anos chamada Isadora Fraenkel, desapareceu em fevereiro sem deixar vestígios. Na época, o motoboy foi indiciado pela polícia, mas apenas por estelionato: havia depositado em sua conta bancária cheques da namorada sumida. Agora está com prisão preventiva decretada, e a polícia cada vez tem mais certeza de que encontrou o "maníaco do Parque do Estado". No capítulo mais recente dessa história assustadora, foram localizados fragmentos da carteira de identidade de Selma Queiroz no quarto antes ocupado por Francisco.

Foto: Claudio Rossi




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