Roberto Pompeu de Toledo
Mártires
da glória
"Havia algo de melancólico
na figura dos astronautas
a participar, com o presidente Barack Obama, da cerimônia
comemorativa dos quarenta anos do desembarque na Lua"
O tema do romance O Deserto dos Tártaros, do italiano Dino Buzzati, publicado em 1940, é a esperança. Giovanni
Drogo, o personagem central da história, é um militar que ganha
seu primeiro posto no remoto e isolado forte Bastiani, situado na fronteira norte
de um país indefinido, e ali permanecerá até o fim da carreira.
As tarefas são repetitivas e inúteis. Nada acontecia por ali fazia
anos, e continua não acontecendo. Drogo tem chances de mudar de posto em
busca de uma vida com mais ação e mais propósito, mas deixa
escapá-las todas. Move-o a esperança de que um dia o inimigo atacará
por aquele flanco e enfim se revelará que a vigília não foi
vã. Melhor ainda, nesse dia ele poderá se sagrar herói, aspiração
máxima de quem escolhe a carreira militar.
Drogo
envelhece esperando o que nunca acontece. Passaram-se os anos, mas ele "não
pensa que o futuro se reduziu terrivelmente, não é mais como antes,
quando o tempo vindouro podia parecer-lhe um período imenso, uma riqueza
inexaurível que ele não corria nenhum risco em esbanjar". Ele
persistia "na ilusão de que o importante ainda está para começar".
Este é o grande momento do livro. Nele o autor ultrapassa os limites de
sua história e de seu personagem para apontar lapidarmente um dos mais
fortes motivos, se não o mais forte, pelos quais, em qualquer circunstância
e qualquer tempo, continua-se a viver e a manter a flama: a persistente esperança
de que o melhor ainda está por vir.
A trajetória
do trio de astronautas da Apollo 11 não poderia, à primeira vista,
oferecer contraste maior com a de Giovanni Drogo. Na vida de Drogo não
aconteceu nada. Na deles aconteceu de serem os primeiros a empreender uma viagem
de desembarque na Lua. Drogo esperou em vão pela glória. Os astronautas
conheceram a glória de uma empreitada que por milênios pareceu impossível.
No entanto, havia na semana passada algo de melancólico na figura daqueles
três senhores, a participar, com o presidente Barack Obama, da cerimônia
comemorativa dos quarenta anos da proeza. A cerimônia soava a desfile de
veteranos de guerra. Desfiles de veteranos de guerra são patéticos.
Mostram senhores não só distantes do antigo garbo e do momento que
os alçou acima do comum dos homens e da existência comum, como os
põem na desconfortável posição de reclamar o reconhecimento
a uma geração que guarda memória apenas vaga de seus feitos.
Do
trio de astronautas, os dois que pisaram na Lua (o outro permaneceu em órbita)
experimentaram momentos dolorosos, nestes quarenta anos. Edwin Aldrin mergulhou
no alcoolismo e na depressão. Neil Armstrong impôs-se um alerta neurótico
contra a exploração não autorizada de sua fama. Deixou de
dar autógrafos quando descobriu que eram comercializados. Moveu processo
contra uma empresa que usou sua (tola) frase do "pequeno passo para um homem,
grande salto para a humanidade". Moveu outro, campeão de exotismo,
contra o barbeiro que ousou vender um chumaço de seus cabelos. Trancou-se,
como ermitão, na pequena cidade em que mora.
Os heróis
da Lua nada têm a ver com Giovanni Drogo, mas lhes ocorreu algo tão
incômodo quanto. Conheceram cedo, antes dos 40 anos, o ponto mais alto de
sua vida. Como escreveu Aldrin: "Que pode fazer um homem, depois de ter andado
na Lua?". A eles foi roubado o princípio basilar da esperança,
aquele segundo o qual, na fórmula de Dino Buzzati, "o importante ainda
está por começar". É o que ocorre igualmente com outros
profissionais de glória precoce, como os jogadores de futebol e as crianças-prodígio
que ao crescerem não confirmam seus talentos. Os astronautas da Apollo
11 nos parecem, e talvez pareçam também a si mesmos, personagens
que, cedo, foram condenados a virar sombras de si mesmos.
***
Quanto
a Giovanni Drogo, para quem quer saber o fim da história a guerra
acaba estourando, sim, na fronteira norte, mas bem no momento em que, velho e
doente, ele é retirado do forte para dar lugar a alguém apto ao
combate. Morre pouco depois, no solitário quarto de uma estalagem, e, no
último momento, embora ninguém o contemple, sorri. Segundo escreveu
o crítico Antonio Candido, num bonito ensaio, Drogo sorri porque enfim
compreende que "a Morte era a grande aventura esperada" e que enfrentá-la
"com firmeza e tranquilidade" é "o momento supremo da vida
de todo homem". Pode ser. Mas pode ser também, mais prosaicamente,
um sorriso de rendição. A morte, no cumprimento de seu papel, acabara
de revelar-lhe a vacuidade do sonho, da glória e da esperança.
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