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| LIBERTÁRIOS SÓ NA VIOLÊNCIA Andreas Baader e seus companheiros em uma de suas ações: sociopatia travestida em "causa" |
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Entre as décadas de 50 e 70, uma corrente vital se enraizou no cinema europeu e dele se irradiou para o restante do mundo: a dos filmes feitos no espírito da denúncia política e ideológica. Obras como A Batalha de Argel, de Gillo Pontecorvo, ou Z, de Costa-Gavras, se tornaram referência não apenas por sua qualidade artística, mas sobretudo pela contundência com que desmontavam a versão "oficial" para alguns dos eventos turbulentos do período. É supérfluo dizer que esse cinema vinha alinhado com o pensamento de esquerda: o continente europeu convivia com governos francamente fascistas, como no caso de Portugal e Espanha, ou que ainda não haviam erradicado por completo a herança fascista da II Guerra; a África se encontrava sob regimes coloniais; os Estados Unidos travavam uma guerra ilegítima no Vietnã; Israel e seus vizinhos árabes lutavam com ferocidade; e a América Latina estava tomada por ditaduras. A "história oficial" do Ocidente, portanto, pertencia grosso modo à direita. A esquerda pretendia escrever uma história "alternativa", supostamente mais verdadeira (mas maculada pelo silêncio ou, pior, pela leniência, em relação aos horrores em curso no bloco comunista). E esse é o dado mais estimulante em O Grupo Baader Meinhof (Der Baader Meinhof Komplex, Alemanha/França/República Checa, 2008), desde sexta-feira em cartaz no país: a história "oficial" que o filme desmantela é, desta vez, aquela propalada pela esquerda, que durante décadas mitificou o bando terrorista do título, erguendo seus integrantes de criminosos a mártires libertários.
Em prol da clareza e da boa argumentação, o diretor Uli Edel começa do começo: mostra como uma conjuntura global tão volátil quanto a já descrita calou fundo na primeira geração de alemães após Adolf Hitler, predestinada a enxergar fantasmas fascistas em todo canto. Algumas dessas assombrações eram reais, já que a Alemanha Ocidental não raro se conduzia como um estado policial mais do que como uma democracia. Outros dos fantasmas, como a conspiração imperialista americana, eram imaginação mas bastaram para radicalizar certos segmentos. Como a Facção do Exército Vermelho, que em seu surgimento, no fim dos anos 60, tinha como líderes Andreas Baader (no filme, o ótimo Moritz Bleibtreu) e sua namorada, a filha de pastor protestante Gudrun Ensslin (Johanna Wokalek). Baader, um sociopata que encontrou na causa marxista-leninista um pretexto para o descontrole, incendiou junto com Gudrun uma loja de departamentos e pôs uma bomba numa grande empresa jornalística, em ações contra o "capital" e os "reacionários" que enfeitiçaram a juventude alemã. Levados a julgamento, conheceram o elemento que transformaria sua agremiação no violentíssimo e notório Baader Meinhof: a jornalista Ulrike Meinhof, uma mulher de classe média bem-sucedida, mãe de duas meninas e que, até o dia em que colaborou para o assassinato de um guarda desarmado e pulou uma janela para correr atrás de Baader, era só mais uma liberal romântica.
Fotos AFP e AP![]() |
Ulrike Meinhof, Andreas Baader e Gudrun Ensslin, o núcleo inicial do grupo: um ideário virulento que resultou em 34 assassinatos |
Na interpretação excelente de Martina Gedeck, Ulrike é a personagem central dessa história. Não apenas por ter virado a ideóloga de fato do Baader Mein-hof, com seus manifestos cada vez mais virulentos, mas por encarnar o apelo desses grupos: a ideia de que, "enquanto os outros falam, nós fazemos". O que na teoria era ação, na prática era crime puro e simples. O Baader Meinhof tem em sua conta 34 assassinatos, alguns cometidos com selvageria. Roubou bancos, jogou bombas e sequestrou. E, sempre que um de seus integrantes perecia numa operação ou era preso, a cúpula do grupo divulgava uma versão dos fatos em que o terrorista aparecia como vítima. Encarcerados no presídio de Stammheim a partir de 1972, com acesso a televisão, rádio e jornais, além de circulação livre entre suas respectivas celas, Baader, Gudrun e Ulrike continuaram a comandar as ações de seus sucessores e a divulgar seu ideário. Ulrike, cada vez mais perturbada, se suicidou em 1976, e os terroristas afirmaram que ela havia sido executada. Baader e Gudrun se mataram no ano seguinte, quando o sequestro de um avião da Lufthansa, planejado junto com terroristas palestinos, não reverteu em sua libertação mas cuidaram para que também sua morte fosse retratada como assassinato.
Da mesma forma que o diretor Marco Bellocchio se dedicou a revelar as verdadeiras cores das Brigadas Vermelhas em Bom Dia, Noite, o diretor Uli Edel e o produtor Bernd Eichinger (de A Queda Os Últimos Dias de Hitler) realizam aqui um meticuloso trabalho de desmistificação, apoiado no livro-reportagem publicado em 1985 por Stefan Aust, ex-diretor de redação da revista jornalística Der Spiegel, e em autos de investigações. Detalhar como cada ação foi executada proporciona cenas eletrizantes; e, bem mais ao ponto, esclarece como o grupo agia de maneira bárbara e então manipulava os fatos em seu favor como é praxe em qualquer regime fascista. Ainda mais surpreendente, contudo, é constatar a pobreza, frivolidade, histeria e egomania da retórica de Ulrike Meinhof e seus companheiros, que a condensação para duas horas e pouco de narrativa torna indisfarçáveis. O Grupo Baader Meinhof não é um filme brilhante como, por exemplo, A Batalha de Argel mas, pela determinação em trocar a história oficial pela história real, pode ser considerado igualmente indispensável.
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