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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo Em
busca da mágica redentora
Tanto
Jefferson quanto Dirceu
adotaram a tática de tentar
transformar a derrota em vitória
Tentar transformar derrota em vitória é
tática tão antiga quanto a presença do mais remoto hominídeo
na face do planeta. Não é absurdo imaginar que o primeiro a despencar
de uma árvore, escorraçado pelo mais forte, por divergências
na hora de dividir as fêmeas, tenha simulado saltos de triunfo, ao tocar
no solo, como se dissesse: "Bem-feito! Ele que fique com aquelas jararacas!"
A história do século XX registra um caso espetacular de conversão
de derrota em vitória o da França na II Guerra Mundial. A
França desabou militarmente, logo no início da guerra, a um simples
piparote da Alemanha nazista. À derrota nas armas se somou, em seguida,
a derrota moral de ter metade do país submetida à ocupação
direta dos nazistas, sob o silêncio de boa parte da população,
e a outra metade submetida a um governo títere, chefiado pelo marechal
Pétain, tão prestimoso agora para com os chefes de além-Reno
quanto, na guerra anterior, a de 1914-1918, tinha sido seu valente opositor. E,
no entanto, ao término da guerra, a França foi declarada vencedora!
Tão vencedora que mereceu um assento permanente nesse objeto do desejo
do ministro Celso Amorim que é o Conselho de Segurança da ONU.
A transubstanciação da derrota em vitória, tão mágica
quanto a da água em vinho, se deu por artes do personagem magno dessa história,
o general Charles de Gaulle. De Gaulle, um resistente de primeira hora, que nunca
aceitou a rendição da França, muito menos a submissão
ao invasor, conseguiu, graças a sua determinação, seu gênio
político e o domínio do papel que inventou para si, transferir sua
biografia pessoal para o país. Não foi a primeira vez que um governante
francês se arvorou em encarnação da nação. Antes,
o rei Luís XIV dizia que o Estado era ele. De Gaulle, sem precisar dizer
algo semelhante, fez-se a França. A verdadeira França, a profunda,
a histórica, não só estava com ele, mas era ele limpa,
incapaz de se entregar, incorruptível, heróica. Colou.
O Brasil não é a França, nossas tropelias domésticas
não se comparam à epopéia da II Guerra e os personagens chinfrins
de nossa vidinha política estão longe de possuir o gênio de
um De Gaulle, mas aqui também se observa a tentativa de transformar a derrota
em vitória. E o curioso é que isso acontece tanto da parte de um
como de outro dos dois supremos contendores da crise atual, o deputado Roberto
Jefferson e o ex-ministro José Dirceu. Jefferson, já se sabe, saltou,
tão lépido quanto lhe permite o corpinho afinado pela operação
do estômago, e com tanto barulho quanto lhe proporciona o vozeirão
afeiçoado aos desafios de Cuore Ingrato, da condição
de Ali Babá para a de Catão, de acusado de chefiar a quadrilha de
assaltantes dos Correios e de outras estatais para a de denunciante dos desmandos
da República. Dirceu transitou do papel de Rasputin que perdeu o emprego,
de forma tão mais humilhante quanto sob a imposição do inimigo
("Zé, sai logo senão vai fazer réu um homem inocente"), para
o de cavaleiro vingador que, na aridez da planície, promete fazer-se paladino
da justiça. Ressalvada a coincidência
de que ambos buscam o milagre, entre todos prodigioso, em política, da
transubstanciação da derrota em vitória, as diferenças
de estilo saltam à vista. Jefferson é um virtuose da performance-solo.
A presença em cena é sua arma principal. Dirceu, menos favorecido
em matéria de veia artística, precisa de claque. Foi assim no discurso
de despedida do Palácio, quando se fez amparar de uma couraça de
ministros e correligionários. E foi assim na reestréia na Câmara,
onde, para simular uma volta triunfal, precisou de uma brigada de petistas e de
bandeiras vermelhas a fazer-lhe companhia. Roberto Jefferson tem a exibir, como
talento supremo, mais valioso do que as aulas de canto da professora Denise Tavares,
o sangue-frio. Dirceu, logo ele, que no passado teve o sangue-frio de, enquanto
viveu clandestinamente no Paraná, esconder a verdadeira identidade da própria
mulher e mãe de seu primeiro filho, nesse quesito perde de longe. Jefferson
desfere ataques diretos a Dirceu, "o chefe do maior esquema de corrupção
que já vi". Dirceu prefere investir contra a conspiração
das elites e os sabotadores da democracia, como se fosse difícil para ele
dizer que o inimigo certo e encarnado é Roberto Jefferson.
Vai dar certo, para um ou para o outro, o ardil de transmutar a derrota em vitória?
É difícil prever, com a ópera em andamento. A única
coisa segura é que, se sucesso houver, não será no nível
de grandeza de um De Gaulle. O espetáculo em cartaz entre nós está
menos para os acentos épicos da II Guerra Mundial e mais para a farsa de
picadeiro. Se é para arriscar algo, no entanto, a impressão é
a de que Jefferson está na frente. Ele circula em shopping e lhe pedem
autógrafo. Já houve caso de motorista de táxi que o dispensou
de pagar a corrida. Pode ser imerecido, e é, para quem conhece sua biografia,
mas aqui não se trata de merecimento, e sim de maior ou menor sucesso nas
artes da manipulação e do transformismo. Dirceu, se deixado ao relento,
fora do círculo de ferro da claque, dificilmente colheria gentilezas semelhantes
na rua. |