Edição 1911 . 29 de junho de 2005

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Em busca da
mágica redentora

Tanto Jefferson quanto Dirceu
adotaram a tática de tentar
transformar a derrota em vitória

Tentar transformar derrota em vitória é tática tão antiga quanto a presença do mais remoto hominídeo na face do planeta. Não é absurdo imaginar que o primeiro a despencar de uma árvore, escorraçado pelo mais forte, por divergências na hora de dividir as fêmeas, tenha simulado saltos de triunfo, ao tocar no solo, como se dissesse: "Bem-feito! Ele que fique com aquelas jararacas!"

A história do século XX registra um caso espetacular de conversão de derrota em vitória – o da França na II Guerra Mundial. A França desabou militarmente, logo no início da guerra, a um simples piparote da Alemanha nazista. À derrota nas armas se somou, em seguida, a derrota moral de ter metade do país submetida à ocupação direta dos nazistas, sob o silêncio de boa parte da população, e a outra metade submetida a um governo títere, chefiado pelo marechal Pétain, tão prestimoso agora para com os chefes de além-Reno quanto, na guerra anterior, a de 1914-1918, tinha sido seu valente opositor. E, no entanto, ao término da guerra, a França foi declarada vencedora! Tão vencedora que mereceu um assento permanente nesse objeto do desejo do ministro Celso Amorim que é o Conselho de Segurança da ONU.

A transubstanciação da derrota em vitória, tão mágica quanto a da água em vinho, se deu por artes do personagem magno dessa história, o general Charles de Gaulle. De Gaulle, um resistente de primeira hora, que nunca aceitou a rendição da França, muito menos a submissão ao invasor, conseguiu, graças a sua determinação, seu gênio político e o domínio do papel que inventou para si, transferir sua biografia pessoal para o país. Não foi a primeira vez que um governante francês se arvorou em encarnação da nação. Antes, o rei Luís XIV dizia que o Estado era ele. De Gaulle, sem precisar dizer algo semelhante, fez-se a França. A verdadeira França, a profunda, a histórica, não só estava com ele, mas era ele – limpa, incapaz de se entregar, incorruptível, heróica. Colou.

O Brasil não é a França, nossas tropelias domésticas não se comparam à epopéia da II Guerra e os personagens chinfrins de nossa vidinha política estão longe de possuir o gênio de um De Gaulle, mas aqui também se observa a tentativa de transformar a derrota em vitória. E o curioso é que isso acontece tanto da parte de um como de outro dos dois supremos contendores da crise atual, o deputado Roberto Jefferson e o ex-ministro José Dirceu. Jefferson, já se sabe, saltou, tão lépido quanto lhe permite o corpinho afinado pela operação do estômago, e com tanto barulho quanto lhe proporciona o vozeirão afeiçoado aos desafios de Cuore Ingrato, da condição de Ali Babá para a de Catão, de acusado de chefiar a quadrilha de assaltantes dos Correios e de outras estatais para a de denunciante dos desmandos da República. Dirceu transitou do papel de Rasputin que perdeu o emprego, de forma tão mais humilhante quanto sob a imposição do inimigo ("Zé, sai logo senão vai fazer réu um homem inocente"), para o de cavaleiro vingador que, na aridez da planície, promete fazer-se paladino da justiça.

Ressalvada a coincidência de que ambos buscam o milagre, entre todos prodigioso, em política, da transubstanciação da derrota em vitória, as diferenças de estilo saltam à vista. Jefferson é um virtuose da performance-solo. A presença em cena é sua arma principal. Dirceu, menos favorecido em matéria de veia artística, precisa de claque. Foi assim no discurso de despedida do Palácio, quando se fez amparar de uma couraça de ministros e correligionários. E foi assim na reestréia na Câmara, onde, para simular uma volta triunfal, precisou de uma brigada de petistas e de bandeiras vermelhas a fazer-lhe companhia. Roberto Jefferson tem a exibir, como talento supremo, mais valioso do que as aulas de canto da professora Denise Tavares, o sangue-frio. Dirceu, logo ele, que no passado teve o sangue-frio de, enquanto viveu clandestinamente no Paraná, esconder a verdadeira identidade da própria mulher e mãe de seu primeiro filho, nesse quesito perde de longe. Jefferson desfere ataques diretos a Dirceu, "o chefe do maior esquema de corrupção que já vi". Dirceu prefere investir contra a conspiração das elites e os sabotadores da democracia, como se fosse difícil para ele dizer que o inimigo certo e encarnado é Roberto Jefferson.

Vai dar certo, para um ou para o outro, o ardil de transmutar a derrota em vitória? É difícil prever, com a ópera em andamento. A única coisa segura é que, se sucesso houver, não será no nível de grandeza de um De Gaulle. O espetáculo em cartaz entre nós está menos para os acentos épicos da II Guerra Mundial e mais para a farsa de picadeiro. Se é para arriscar algo, no entanto, a impressão é a de que Jefferson está na frente. Ele circula em shopping e lhe pedem autógrafo. Já houve caso de motorista de táxi que o dispensou de pagar a corrida. Pode ser imerecido, e é, para quem conhece sua biografia, mas aqui não se trata de merecimento, e sim de maior ou menor sucesso nas artes da manipulação e do transformismo. Dirceu, se deixado ao relento, fora do círculo de ferro da claque, dificilmente colheria gentilezas semelhantes na rua.

 
 
 
 
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