Edição 1911 . 29 de junho de 2005

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Televisão
Fórmula de vanguarda

Tarantino dirige episódio especial
de C.S.I. e prova que a telinha
passou a perna no cinema


Isabela Boscov


CBS/Landov
Divulgação
C.S.I. (à esq.) e o cineasta Tarantino (à dir.): exercício de inovação e de marketing

DA INTERNET
Vídeos das séries
Deadwood
24 Horas

É um caso inédito: Quentin Tarantino, o diretor mais influente da era atual do cinema, lança um novo trabalho não no circuito exibidor, mas na televisão. Grave Danger (trocadilho que joga com "perigo grave" e a palavra "sepultura"), o episódio que encerra a quinta temporada do seriado C.S.I. e vai ao ar nesta quarta-feira, às 20 horas, pelo canal Sony, tem duas horas de duração e não é uma brincadeira de "diretor convidado". Ele traz a assinatura de Tarantino estampada em todos os cantos, da concepção à produção – e em especial no argumento. Com seu humor perverso, o cineasta transforma em vítima não um anônimo, como é hábito no seriado, mas um de seus atores principais. O investigador Nick Stokes (George Eads) está analisando uma cena de crime, durante a noite, quando desaparece – para logo reaparecer numa tela de vídeo, na qual seus colegas podem vê-lo enterrado vivo, em local ignorado, sem que tenham nenhuma pista sobre o autor ou o motivo do seqüestro.

C.S.I. estreou alguns anos atrás como azarão: ninguém acreditava que temas tão mórbidos quanto autópsias e testes laboratoriais de provas criminais pudessem atrair audiência. Hoje o programa é o mais visto da grade americana, com picos que beiram os 30 milhões de espectadores. O resultado desse casamento entre um diretor tão personalista quanto Tarantino e uma série de fórmula tão familiar ao público serve como exercício de inovação (e ótimo golpe publicitário) para ambos. O mais significativo, porém, são as tendências que ele traduz. A primeira é que desde o início da década a televisão americana vem avançando sobre o cinema a passos rápidos. É nela que atualmente se encontram a melhor dramaturgia e os experimentos narrativos mais audaciosos. A segunda tendência decorre dessa primeira. Trabalhar na televisão deixou de ser sintoma de uma carreira abortada ou em estado terminal. Pelo contrário: tornou-se um luxo capaz de seduzir talentos de primeira linha.

Hoje, mais do que nunca, compensa apostar na televisão. Em quase todo o mundo, a preferência do público pelo entretenimento doméstico é um dado sólido e, segundo a maioria dos analistas, irreversível. Nos Estados Unidos, a venda de ingressos de cinema caiu em 2005 pelo terceiro ano consecutivo. Enquanto isso, o dinheiro obtido com o segmento de DVDs não pára de crescer, e já passou os 15 bilhões de dólares – quase duas vezes mais do que a renda angariada na bilheteria. A televisão, claro, é a maior beneficiária desse comportamento. Mas, afora os reality shows, andava sem muitas idéias sobre como tirar partido dele até ganhar uma mãozinha da Máfia. Mais especificamente da Família Soprano. Seu chefe, Tony Soprano, é um gângster que mata sem titubear, mas somatiza seus crimes em acessos de pânico e depende de análise para continuar funcionando. Não só o argumento é original. Com Família Soprano, a rede HBO demonstrou que televisão não é sinônimo de diluição: cada um dos episódios das cinco temporadas já exibidas é de um realismo e uma qualidade que poucas vezes o cinema atinge hoje. Família Soprano permanece o padrão-ouro da teledramaturgia, mas rendeu vários frutos de excelência comparável – como A Sete Palmos, que trata das neuroses de uma família de agentes funerários, e Deadwood, que retrabalha com virulência um gênero já meio morto no cinema – o western.

Repletos de profanidades e cenas de sexo e violência, seriados como esses só podem existir no universo da televisão por assinatura. Mas seus efeitos benéficos já chegaram à TV aberta, sempre mais sovina nas doses de realismo e complexidade que oferece a seu público. O grande sucesso deste ano, por exemplo, é Desperate Housewives. Para todos os efeitos, trata-se de um melodrama ambientado num subúrbio rico. Na prática, está mais próximo de uma dissecção da hipocrisia, da covardia e do materialismo que imperam nesses lares aparentemente tão bem ajustados. Esse cinismo se repete em 24 Horas. Um thriller que gira em torno das atividades da Unidade Antiterrorismo de Los Angeles, ele exala uma paranóia bem contemporânea: mais do que se preocupar com potenciais terroristas, os agentes federais desconfiam uns dos outros, e quase sempre com razão. Da mesma forma que 24 Horas, a grande surpresa de 2005, Lost, pede do espectador aquilo que a TV sempre julgou impossível – atenção. A série acompanha o dia-a-dia de um punhado de pessoas que sobreviveram a um desastre de avião e se encontram isoladas numa ilha insólita, onde enfrentam ameaças que podem ou não ser imaginárias. Assim como o finado Arquivo X, Lost enseja todo tipo de teoria conspiratória, que os fãs trocam sem descanso na internet. E, como aconteceu com Arquivo X, provavelmente perderia muitas de suas virtudes numa eventual transição para a tela grande. Essa é a ironia da atual efervescência da televisão: hoje não é ela que dilui o cinema. É o cinema que a dilui.

 

Aposto e dobro

Como a televisão vem ganhando a dianteira sobre o cinema


Fotos divulgação
Western – Deadwood
Venalidade, violência e vício são as leis nessa cidade, flagrada em 1876 – e com muito mais crueza do que se vê nos faroestes do cinema


Mistério – Lost
Os sobreviventes de um desastre buscam descobrir se estão mortos, extraviados noutra dimensão ou... sabe-se lá. Por causa desse sucesso, o criador J.J. Abrams vai dirigir Missão: Impossível 3


Drama – Família Soprano
As agruras dessa família mafiosa são hoje o padrão-ouro da dramaturgia. Com seis anos de existência, a série tem uma densidade que não se compara à de nenhum filme americano atual


Thriller – 24 Horas
Os policiais da tela grande ficam a dever a essa série, em que a real ameaça não são os terroristas, mas as traições entre os agentes que os combatem

 

 
 
 
 
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