Edição 1911 . 29 de junho de 2005

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Comportamento
Beleza russa, tipo exportação

Modelos, tenistas, misses e, sobretudo,
esposas – a Rússia tornou-se um celeiro que
abastece o Ocidente com mulheres bonitas


Ruth Costas


Saeed Khan/AFP
Natalie Glebova, miss Universo 2005, nasceu na Rússia.

A beleza elegante das russas está na moda. Altas e de traços delicados, elas estão nas capas das revistas de moda, nas passarelas, nos filmes de Hollywood e nos concursos de beleza. A canadense Natalie Glebova, vencedora do concurso Miss Universo deste ano, é uma imigrante russa. Nas pistas de tênis, brilha a loiríssima siberiana Maria Sharapova, a desportista mais bem paga do momento. Além de bonitas, as russas são bem-educadas e estão desesperadas por um marido estrangeiro. Com esses predicados, são as preferidas dos americanos e europeus que tentam encontrar uma noiva por intermédio de sites e agências especializadas em casamentos internacionais. Eles pagam 100 dólares para consultar o cadastro de jovens disponíveis e outros 3.500 dólares para viajar a Moscou ou São Petersburgo e conhecer as pretendentes reunidas pelas agências. "Os americanos e os europeus preferem as russas porque acham que elas são menos exigentes que suas conterrâneas", disse a VEJA a historiadora Barbara Engel, professora da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos, especialista em história das mulheres na Rússia.

Elas tendem realmente ao tipo Amélia. Em geral, estão dispostas a fazer todo o trabalho doméstico, tomar conta do marido e, muitas vezes, ainda trabalhar fora. Tudo isso sem reclamar. Para completar o quadro, faltam homens na Rússia, onde se estima existir um excedente de 10 milhões de mulheres. A maior parte das russas que procuram estrangeiros para casar tem entre 18 e 35 anos e grau universitário. São engenheiras, contadoras e professoras que recebem salários baixíssimos e têm de suar para pagar as contas. Frustradas com a falta de empregos e oportunidades numa Rússia ainda trôpega na economia de mercado, essas jovens sonham em tentar a sorte no exterior e vêem na união com estrangeiros uma chance de melhorar de vida.

Oferta de noivas russas na internet: 1 milhão de páginas especializadas

Outro fator que contribui para que uma em cada três russas de 17 a 25 anos sonhe em casar com um estrangeiro são os maus hábitos de seus conterrâneos. Um adulto na Rússia bebe em média o equivalente a 14 litros de álcool por ano, mais do que o dobro do que consome um americano. Os índices de alcoolismo são altíssimos e os casos de violência doméstica, freqüentes. Não é à toa que as taxas de divórcio na Rússia estão entre as mais altas do mundo – e que as divorciadas, muitas vezes com filho, ajudam a engrossar as filas de pretendentes a um príncipe encantado europeu ou americano. A situação atingiu tal intensidade que se converteu em tema de controvérsia política. Um partido de inspiração fascista, o Liberal Democrata, até apresentou ao Parlamento um projeto de lei para deportar as mulheres "pouco patriotas" que resolvem se unir a homens de outras nacionalidades. Os ultranacionalistas referem-se às jovens russas como um "tesouro nacional" e propõem que os bens daquelas que "traem a pátria" sejam distribuídos entre seus parentes ou expropriados pelo Estado.

Com tantas demandas sentimentais a explorar, o negócio das agências de matrimônio e sites que oferecem aos solteiros a oportunidade de conhecer mulheres russas está crescendo num ritmo exponencial. Ao procurar pela expressão "Noivas russas" em inglês no site de buscas Google é possível encontrar mais de 1 milhão de páginas na internet. Misturados a agências sérias, há vigaristas cujo único objetivo é extorquir dinheiro dos incautos e outros que alimentam redes de pornografia e prostituição. Mesmo os casamentos arranjados por empresas sérias envolvem riscos para ambos os lados. Em alguns casos as mulheres estão interessadas apenas no dinheiro de seus pretendentes e eles só descobrem a enrascada em que se meteram quando as esposas já deram no pé, levando o que puderam carregar. "Já as jovens noivas russas correm o risco de encontrar pela frente um parceiro violento", diz a cientista política Norma Noonan, autora do livro As Mulheres Russas na Política e na Sociedade. "Como muitas jovens não conhecem ninguém nem falam a língua do país em que estão, dependem de seus noivos para tudo e ficam muito vulneráveis." É aí que o sonho de uma vida tranqüila e um casamento perfeito pode virar pesadelo.

 
 
 
 
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