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Diogo
Mainardi Dois conselhos ao leitor
"Ouça
atentamente o que tenho a dizer: frutifique e multiplique-se. Faça doze filhos.
Faça treze. No intervalo entre um filho e outro, leia Ulisses. Seu tema é
a paternidade: um filho à procura do pai, um pai à procura do filho. Dois
conselhos num artigo só: aproveite"
Filho é muito bom. Acabo de ter o segundo. Pena que comecei tão
tarde. Fui tolo. Me arrependo. Eu poderia ter tido doze ou treze. Agora não
dá mais tempo. Estou velho.
Quem teve doze filhos foi Jacó. Ele começou bem mais tarde do que
eu. O Velho Testamento diz que ele foi pai pela primeira vez aos 84 anos de idade.
A grande vantagem de Jacó em relação a mim é que ele
morreu com 147 anos. Acho que vou morrer mais cedo. Além disso, Jacó
podia contar com quatro mulheres: duas primas e duas escravas. Deus importuna
um monte de gente no Velho Testamento. Mas faz um favor a Jacó, ordenando-lhe:
"frutifica e multiplica-te". É o melhor conselho que alguém pode
dar. Que eu me lembre, nunca dei um bom conselho a ninguém. Chegou a hora.
Ouça atentamente o que eu tenho a dizer: frutifique e multiplique-se. Faça
doze filhos. Faça treze. O
parto de meu filho aconteceu na quinta-feira, 16 de junho. É o dia em que
se desenrola a ação de Ulisses, de James Joyce: quinta-feira,
16 de junho de 1904. A data ficou conhecida como Bloomsday, devido ao nome do
protagonista do romance, Leopold Bloom. Ivan Lessa comentou: "Bloomsday é
um bom dia, apesar dos irmãos Campos". Apesar de Antonio Houaiss, também.
A velha tradução de Antonio Houaiss, de 1966, arruinou Ulisses.
A nova tradução de Bernardina da Silveira Pinheiro, lançada
em 16 de junho, algumas horas depois do parto de meu filho, é infinitamente
melhor. No intervalo entre um filho e outro, meu conselho é a leitura de
Ulisses. Dois bons conselhos num artigo só: aproveite.
Ulisses tem como contraponto a Odisséia
de Homero. Seu tema é a paternidade: um filho à procura do pai,
um pai à procura do filho. O capítulo catorze de Ulisses,
também chamado de "O gado no sol", gira em torno de um parto. Em cerca
de quarenta páginas, Joyce acompanha toda a evolução da literatura
inglesa, do antigo canto celta até o dialeto popularesco de seu tempo,
macaqueando o estilo de autores como Chaucer, Milton, Defoe e Dickens. A idéia
é traçar um paralelo entre os nove meses de gestação
de uma criança e as nove etapas do desenvolvimento da língua. Em
"O gado no sol", Leopold Bloom relembra seu único filho, Rudy, morto misteriosamente
com apenas onze dias de vida, e relembra também seu pai, Rudolph, que se
matou quando ele ainda era criança: "Não tens junto de ti nenhum
filho de tuas entranhas. Não há ninguém agora que seja para
Leopold o que Leopold foi para Rudolph".
Eu tenho filhos de minhas entranhas. Em Ulisses, Joyce parodiou o Velho
Testamento: "Moisés gerou Noé e Noé gerou Eunuch e Eunuch
gerou O'Halloran". Eu também gerei meus pequenos O'Halloran. Não
há nada melhor. Não há nada mais fácil. Ter um filho
não exige uma aptidão particular. Não exige empenho. Não
exige preparação. Qualquer um pode ter um filho. A paternidade não
é meritocrática. Pelo contrário: é uma daquelas áreas
em que a mediocridade é plenamente recompensada. Ulisses serve para
isso mesmo: para ajudar a aceitar nossa mediocridade. |