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Claudio
de Moura Castro
Naufrágio
curricular
"Queremos
continuar com uma
população que ouviu falar de todas as
teorias mas não sabe usar nenhuma?"
Ilustração Ale Setti
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O rei Gustavo Adolfo da Suécia, para defender-se de seus inimigos,
decidiu criar o mais poderoso navio de guerra. Importou os melhores construtores
navais, e os cofres públicos foram sangrados para produzir um barco
invencível. Mas o rei o queria ainda mais invencível e mandou
instalar mais um deque superior, com mais peças de artilharia.
O navio, com o nome de Vasa, enfunou as velas em 1628 e, sob um
vento suave, singrou a baía de Estocolmo. Mas, subitamente, apenas
deixando o porto, vira e afunda. Era instável, pelo excesso de
canhões e pela falta de lastro.
Nossos doutos
educadores e autores de livros didáticos criam currículos
invencíveis. Tudo que pode ser importante é nele anexado.
E, como há cada vez mais coisas importantes, o currículo
vai ficando mais pesado e mais invencível. Como o Vasa,
os alunos afundam sob o peso de tantos conhecimentos e de tantas informações
preciosas. E, nas profundezas ignotas dos oceanos intelectuais, naufraga
sua educação.
Os japoneses,
contados dentre os campeões mundiais em educação,
fazem seus currículos para que todos os alunos normais entendam
tudo. O MEC até que enxugou os nossos, mas, no trajeto até
a sala de aula, o terreno é minado. Para autores e professores,
é um desdouro que até mesmo os alunos geniais possam entender
tudo que se ensina. Ainda não foi enterrado o último professor
que se vangloria de só dar 10 quem sabe mais que ele.
O preço
de um currículo entulhado de informações que
isoladamente podem ser úteis e até interessantes
é que não sobra tempo para ser educado. É preciso
pisar no acelerador para conseguir ouvir falar de tudo. Como não
há tempo para aprender, decora-se. Entre reis de França,
afluentes do Amazonas e derivados de carbono, acumulam-se inutilidades
memorizadas. E têm a mesma sina as leis, as teorias e os princípios
científicos, que ajudariam a entender o mundo, se fossem entendidos.
Richard
Feynman, Prêmio Nobel de Física, veio ao Brasil em 1950 para
dar um curso para professores. Ficou estarrecido e anotou em seu livro
de memórias: "Os estudantes tinham decorado tudo, mas não
sabiam o significado de nada. (...) Nada tinha sido traduzido para palavras
com significado. (...) Eles podiam passar nos exames e 'aprender' todas
aquelas coisas, e não saber nada". Após meio século,
continuamos na mesma, sabendo as fórmulas e incapazes de usá-las.
David Perkins
(no livro Smart Schools) nos diz claramente que, se não
entendermos o aprendido, ele não servirá para nada. Aprendemos
ao pensar com e pensar sobre o que estamos estudando. Aprender
é uma conseqüência de refletir a respeito do que está
sendo apresentado na aula. A visão convencional é que adquirimos
um conhecimento e depois aprendemos a usá-lo. Trágico engano.
Aprendemos somente pelo ato de pensar no que estamos aprendendo. E o conhecimento
só é realmente adquirido quando podemos pensar usando o
que foi aprendido. Mas o nosso Vasa curricular não deixa
tempo para que isso aconteça. Resta aos alunos a lembrança
de haver ouvido falar de muitos fatos e muitas teorias. O preço
da sobrecarga de informações é a falta de profundidade,
é a incapacidade de usar o que parecia ter sido aprendido, mas
que era um conhecimento inerte, inútil e que não pode ser
mobilizado para entender o mundo e resolver problemas.
É
preciso coragem para dizer não à avalanche curricular. E
muitas vezes um professor individualmente não pode fazê-lo,
pois há provas e maratonas curriculares a ser cumpridas a ferro
e fogo. Mas é aqui que se define o futuro de um país. Queremos
continuar com uma população que ouviu falar de todas as
teorias mas não sabe usar nenhuma? Que recite os ossos do pé
e centenas de nomes da taxionomia de Lineu? Ou queremos que entendam um
manual de instrução? Tudo está na internet. Mas decidir
o que buscar e usar bem o que encontrou é para aqueles que aprenderam
a articular seu raciocínio. Nossos alunos continuarão tendo
o mesmo destino do Vasa, com currículos invencíveis
e tendo sua educação afundada pelo excesso de peso?
Claudio
de Moura Castro é economista (claudiomc@attglobal.net)
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