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Deus salve a galinha

Numa obra intrigante, J.M. Coetzee
passa em revista o debate sobre
os direitos dos animais

Jerônimo Teixeira

Vai ser um problema para os bibliotecários: em que estante colocar A Vida dos Animais (tradução de José Rubens Siqueira; Companhia das Letras; 148 páginas; 19,50 reais)? Esse livrinho incômodo faz por merecer seu lugar na prateleira de ficção, mas também entra com desenvoltura na seção de ensaios, de filosofia, de bioética e até na de crítica literária. Mas, enquanto nosso bibliotecário hipotético revisa classificações, você, leitor, já terá descoberto o lugar ideal para a obra do sul-africano J.M. Coetzee: a mesa-de-cabeceira.

Coetzee, 62 anos, é conhecido no Brasil por romances como Desonra, que recebeu o prestigioso Booker Prize em 1999 e narra os tormentos sofridos por um professor universitário demitido depois de se envolver sexualmente com uma aluna. Já A Vida dos Animais foi fruto de um convite para proferir uma série de conferências na Universidade Princeton. No lugar de uma palestra convencional, Coetzee criou a história de Elizabeth Costello, escritora australiana também convidada a falar numa universidade americana. Temos assim uma conferência dentro de uma conferência, o que dá ao autor a oportunidade de apresentar as teses mais radicais sem referendá-las.

Tal como seu criador, Elizabeth quebra as expectativas da platéia que vem ouvir uma escritora consagrada falar de seu ofício. Ela cita Swift, Rilke, Kafka, mas seu assunto central são os direitos dos bichos. Vegetariana radical, ela considera o abate de animais uma monstruosidade comparável ao holocausto judeu. Essa analogia polêmica provoca a indignação de Abraham Stern, poeta judeu que se recusa a comparecer a um jantar em homenagem à conferencista. A escritora ainda enfrenta oposição na própria família. Para sua nora – Norma, professora de filosofia desempregada –, a defesa dos animais é uma baboseira irracional.

O livro traz um apêndice com textos de quatro acadêmicos (reais, não ficcionais) de diferentes áreas que discutem as teses de Coetzee/Elizabeth. Professora de literatura, Marjorie Garber procura mostrar que a analogia entre o holocausto e a indústria da carne não é inédita. Wendy Doniger, professora de história das religiões, revisa as interdições ao consumo de carne em diferentes culturas. A primatologista Barbara Smuts nota uma ausência na argumentação: no esforço de denunciar um crime, a possibilidade de afeto entre homens e animais ficou esquecida. Aproveita a deixa para falar de suas experiências entre os babuínos, na África.

Mas a resposta mais interessante é a do filósofo Peter Singer, especialista em bioética. Singer criou um diálogo fictício com uma filha adolescente para apresentar sua refutação às teses de Elizabeth. Sim, refutação: mesmo esse grande paladino da bicharada acredita que dona Costello vai longe demais. Você ainda pode apreciar seu bife com fritas sem se sentir o Eichmann das vacas. Apesar da pregação doidivanas da protagonista, A Vida dos Animais não é um panfleto ecologista. O autor nem sequer dá uma palavra final sobre os dilemas que levanta. Coetzee limita-se a colocar idéias em choque. Idéias extremas, que não cabem em uma camiseta do Greenpeace.

 

Prisioneiros de guerra

"As pessoas reclamam que tratamos os animais como objetos, mas na verdade tratamos os animais como prisioneiros de guerra. Você sabia que quando foram abertos os primeiros zoológicos, os tratadores tinham de proteger os animais dos ataques dos espectadores? Os espectadores sentiam que os animais estavam ali para serem insultados e humilhados, como prisioneiros em uma marcha triunfal. Já promovemos uma guerra contra os animais, que chamamos de caça. Essa guerra foi travada ao longo de milhões de anos. Só a vencemos definitivamente quando inventamos as armas de fogo. Só quando a vitória foi absoluta é que pudemos nos permitir cultivar a compaixão. Mas a nossa compaixão é muito rarefeita."

Trecho de A Vida dos Animais

 

   
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