| Fale conosco |
| Ajuda |
| Mapa do site |
![]() |
|
|
| (conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
O Prêmio
Nobel de Economia
Joseph Stiglitz diz que a
globalização é irreversível,
mas vai ter de se reformar
para fazer chegar seus
benefícios aos países pobres
Tania Menai,
de Nova York
|
O americano Joseph Stiglitz, 59 anos, ganhador do Prêmio Nobel de Economia no ano passado, é autor do recém-lançado Globalization and Its Discontents (Globalização e seus Descontentes), que receberá uma versão brasileira em breve. Stiglitz foi um dos principais assessores econômicos do governo Bill Clinton. Como economista-chefe do Banco Mundial, ele desenvolveu uma visão crítica da atuação nos países em desenvolvimento das grandes instituições financeiras mundiais, como o próprio Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI). Stiglitz falou a VEJA em sua sala na Universidade Colúmbia, em Nova York:
Veja
Os Estados Unidos foram os grandes promotores da globalização.
Eles ainda atuam no mundo com esse objetivo?
Stiglitz
O
unilateralismo americano tornou-se inconsistente com a proposta de globalização.
Os Estados Unidos ainda não se convenceram do papel nocivo que
exercem. Por isso, os demais países devem alertar os americanos
de que o poder deles acaba onde começa a soberania dos outros.
Como líderes do mundo livre, deveriam estar dando um exemplo de
conduta. A verdade é que, se todas as nações estivessem
agindo como os Estados Unidos, a situação mundial seria
insustentável.
Veja
Depois de décadas de livre comércio, trânsito desimpedido
de idéias e pessoas, o mundo se fechou em 1914. Isso pode estar
ocorrendo de novo?
Stiglitz
As
forças em favor da globalização são muito
fortes. Nem toda a ação protecionista americana será
suficiente para fazer o processo todo retroceder. Quando trabalhei na
administração Clinton, procurei alertar diversos setores
para o absurdo da idéia dominante então de que deveríamos
ser a favor do livre comércio mas contra mais importações.
É preciso sempre administrar internamente o processo de globalização.
Os Estados Unidos erram em adotar medidas protecionistas. Nada justifica
a admissão de salvaguardas para defender trabalhadores do setor
de aço numa economia em que há apenas 6%, ou até
menos, de desemprego. Ainda mais quando se sabe que as salvaguardas são
praticadas em prejuízo da economia de países onde o desemprego
é de 15% ou 20% e seu sistema social não oferece nenhum
amparo a quem perde o posto de trabalho. A justificativa moral para os
países prejudicados pelas medidas americanas lançarem mão
de salvaguardas é muito maior. Mesmo assim, eles não as
adotam. É preciso deixar claro que, se esses países seguissem
o exemplo americano, simplesmente o comércio global entraria em
colapso.
Veja
O senhor escreveu que "a dor sentida pelos países em
desenvolvimento no processo de globalização, da forma que
ela tem sido conduzida pelo FMI e por outras organizações
internacionais, tem sido bem mais forte que o necessário". Como
a dor poderia ser menor?
Stiglitz
Vou dar um exemplo que acho muito didático. Durante um bom tempo,
o FMI dizia que a Etiópia estava gastando mais do que sua renda
permitia. Mesmo informado de que o gasto era produto de ajuda direta internacional,
o FMI insistiu em cortes. Os etíopes ficaram espantados e perguntaram
o que deveriam fazer com a ajuda recebida da Suécia e da Inglaterra
se não podiam gastá-la construindo escolas e hospitais.
O FMI respondeu que eles deveriam colocar o dinheiro recebido nas reservas,
e não gastá-lo. Certamente não havia razão
para a Etiópia fazer o que o FMI exigia. Gosto do exemplo da Etiópia,
porque naquele país nem sequer havia inflação. Na
verdade, a economia enfrentava deflação. Com certeza, o
problema não era de macroeconomia, e a receita do FMI só
atrapalharia se fosse adotada.
Veja
Que críticas o senhor faz ao FMI?
Stiglitz
As
decisões do FMI são tomadas por um conselho em que os mercados
financeiros são fortemente representados. No FMI, apenas um país,
os Estados Unidos, tem poder de veto. Nas Nações Unidas,
cinco países têm esse poder. Dito isso, não é
surpreendente que a instituição tome decisões mais
de acordo com os interesses de quem manda e menos com base numa sólida
análise intelectual das questões.
Veja
Há uma sensação em certos setores de que a globalização
só favoreceu os países ricos. Isso efetivamente ocorreu?
Stiglitz
Não. A China e a Índia eram países pobres e em uma
década diminuíram o abismo que as separava do pelotão
intermediário das nações em desenvolvimento. O crescimento
médio anual da Índia tem sido de 6%, uma taxa espetacular.
O problema é que há um punhado de países que têm
sido deixados de lado. A promessa de prosperidade global não acabou,
mas será preciso adequar muitos processos aos interesses dos países
que não se beneficiaram ainda do progresso.
Veja
Que ganho a globalização trouxe em medida igual para
todos os países?
Stiglitz
A
transparência. Com a globalização, passou a haver
um sistema mundial de pressão. Hoje, os Estados Unidos estão
envergonhados diante do mundo por causa do escândalo da Enron e
da Arthur Andersen. Esse é um aspecto bastante positivo da globalização,
pois força as corporações e as instituições
a ser mais abertas. Muita gente subestima esse aspecto da globalização,
mas ele é fundamental. Efetivamente, a aceitação
ampla da democracia e a condenação da opinião pública
à corrupção são até agora os grandes
serviços prestados pela globalização dos mercados.
São justamente essas as forças que compensarão as
desvantagens da globalização.
Veja
Os países que hoje sofrem com o protecionismo dos ricos têm
alguma chance de reverter o quadro desfavorável? Como?
Stiglitz Acredito
que a posição que o Brasil tem assumido é muito importante.
O país está sendo bastante franco e claro quando critica
os Estados Unidos e a Europa. Os líderes das nações
ricas têm de reconhecer que, se eles querem manter a agenda do livre
comércio, precisam estar abertos para a questão da reciprocidade.
Eles só vão entender isso se os outros países levantarem
a voz. Uma das coisas que tentei fazer quando estava na Casa Branca foi
colocar-me no lugar dos outros países. Como será que eu
me sentiria se fosse um líder coreano ao saber que teria de fazer
a liberalização do mercado de capitais não nos seis
anos que estava planejando mas dentro de um ano? Como eu me sentiria se
fosse um fazendeiro mexicano competindo com o milho subsidiado dos Estados
Unidos? Como será que eu me sentiria se fosse um doente de Aids
na África ao saber que não teria acesso a medicamentos por
causa da propriedade intelectual? Quem tem poder global efetivo, como
os Estados Unidos, tem de pensar nas conseqüências de quem
sofre a ação.
Veja
Essa geração do Primeiro Mundo que hoje protesta nas
ruas contra a globalização um dia chegará ao poder.
É possível prever como ela atuará?
Stiglitz Os
jovens são menos paroquiais que seus pais. Da tela de seu computador
eles enxergam o mundo, e não apenas seu círculo próximo.
Certamente, os estudantes com quem converso são bem mais sensíveis
às injustiças globais. Então há esperança.
Pouco mais de quarenta anos atrás, minha geração
era insensível ao sofrimento infligido aos negros americanos pela
discriminação legal nos Estados do sul do país. De
repente isso se tornou inaceitável. O sul era para nós uma
outra nação. À medida que as informações
começaram a circular nacionalmente pela imprensa e pela televisão,
o país ficou chocado com a situação injusta imposta
aos negros. A mesma coisa está começando a acontecer num
nível global, e a internet tem sido a ferramenta de informação
fundamental nesse processo, que interessa tanto aos países subdesenvolvidos
quanto aos desenvolvidos.
|
|