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Montagem com foto de Pedro
Rubens
Não
existe conspiração dos países
ricos para penalizar as nações
em desenvolvimento mas poucas
conseguiram colher os frutos
da globalização
Denise Ramiro
e Lucila Soares

Veja também |
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Do ponto
de vista de quem está abaixo da linha do Equador, a globalização
é um fenômeno complexo. Dez anos depois de sua disparada
como modelo quase único de organização das sociedades
e da economia, a sensação é que se frustraram as
promessas de crescimento rápido e indolor dos países em
desenvolvimento. Claramente, os vitoriosos da globalização
foram os desenvolvidos cuja poupança e cujo preparo tecnológico
fizeram deles privilegiados destinatários da riqueza produzida
no mundo. Para os demais países, a lição aprendida
é que, sem muita briga, sua parte no bolo da prosperidade mundial
não será conquistada. "Nossa credencial mais legítima
no cenário mundial é a estabilidade econômica, mas
ela não nos garante muito mais que uma boa acolhida", diz Mario
Marconini, diretor executivo do Centro Brasileiro de Relações
Internacionais. Para conquistar essa credencial, a sociedade brasileira
submeteu-se nos últimos anos a duro regime de austeridade. O resultado
foi que em uma década a taxa de desemprego mais que dobrou. Estava
em 7,6% na semana passada, segundo o IBGE. É o pior índice
dos últimos dois anos. A riqueza nacional, medida pelo PIB, cresceu
8% na década, um desempenho pífio. É ingênuo
afirmar que resultados tão pobres devem ser imputados à
submissão do Brasil aos ditames da globalização.
Caso o país tivesse simplesmente virado as costas ou tivesse sido
esquecido pelo mundo, os números poderiam ser ainda piores.
O preço
pago para participar da globalização foi mesmo, como notou
Marconini, estabilizar a economia. Para chegar a essa situação,
o Brasil se viu obrigado a fazer uma opção que também
não saiu de graça. "Fizemos tudo certo. Nossa infelicidade
foi usar a âncora cambial como fator de estabilização
da inflação de 80% ao mês que nos devorava. Essa opção
acabou penalizando demais as exportações e aumentando nossa
vulnerabilidade externa", diz Edmar Bacha, um dos pais do Plano Real.
Durante vários anos, o real foi mantido artificialmente valorizado
em relação ao dólar. Num cenário assim, todos
os lucros com a exportação têm de sair do aumento
da produtividade. Poucos setores da economia nacional conseguiram dar
o salto produtivo na velocidade exigida pelas mudanças de cenário.
A indústria foi a que mais sofreu com o tranco. Até o ano
passado, 2 milhões de empregos industriais tinham desaparecido
no país. Sempre se pode dizer que esses postos de trabalho foram
eliminados para garantir a sobrevivência dos outros 6 milhões
de empregos oferecidos hoje pela indústria brasileira. Em parte,
essa é a pura verdade. Mas isso não alivia a amargura dos
que tiveram sua vida virada de cabeça para baixo, sejam metalúrgicos,
sejam donos de empresas. A globalização será sempre
lembrada como o período em que as pessoas que produziam seu sustento
com as próprias mãos foram penalizadas. A automação
e a concorrência internacional desenfreada destruíram no
mundo centenas de milhões de empregos industriais.
Não
por acaso, um dos países que mais bem aproveitaram a onda globalizada
foi o Chile, cujo PIB simplesmente dobrou entre 1990 e 2001. Sem nenhuma
vocação industrial, a economia chilena, baseada na exportação
de frutas, vinhos e peixes, deu-se bem no novo modelo mundial. Em menor
escala, a agricultura brasileira também se beneficiou. A produtividade
no campo do Brasil dobrou na década passada. As exportações
tiveram saltos ainda mais formidáveis sem exigir importações
em igual escala. Dessa forma, no ano passado, o agronegócio brasileiro
gerou um superávit de exportação de 19 bilhões
de dólares. "O papel da globalização nesse sucesso
foi a atração de alta tecnologia e de capitais. Mas, por
outro lado, os países do Primeiro Mundo se esforçaram em
barrar nossas exportações", diz Roberto Gianetti da Fonseca,
presidente da Câmara de Comércio Exterior. O episódio
é muito didático para entender o jogo de oportunidades e
riscos envolvido na aventura da globalização. Sem uma abertura
para o mundo, dificilmente o agronegócio brasileiro se teria modernizado
a ponto de competir no exterior. Mas, assim que começamos a competir
para valer, o protecionismo bilionário com que os países
ricos adubam sua agricultura se tornou uma barreira à expansão
de nosso comércio exterior.
Dez anos
depois, a experiência globalizada sinaliza aos países que
não existe uma receita simples de sucesso na nova ordem. Graças
à aceitação das regras da economia de mercado, ao
menos na parte moderna de sua produção, a China cresceu
199% no decorrer da última década. A Argentina seguiu a
mesma receita e encontrou o caos no fim da linha. Seu PIB quase dobrou
no mesmo período, mas o desemprego triplicou, chegando a quase
30% da população só na capital. A Argentina se tornou
um pária da comunidade financeira internacional mesmo tendo seguido
quase todo o receituário neoliberal. Durante anos, a economia dos
pampas privatizou ferozmente e recebeu das agências de avaliação
de riscos notas muito melhores que o Brasil. Atraiu mais capital, a um
custo menor que o pago pelas empresas e pelo governo brasileiros. Quando
o país desabou, em dezembro do ano passado, a explicação
mais ouvida foi que a Argentina fez as reformas pregadas pelos órgãos
financeiros internacionais e, ainda assim, naufragou. A verdade é
que a Argentina se esqueceu de um detalhe. Não fez talvez a reforma
mais decisiva de todas. O país tem províncias deficitárias
que agem como Estados soberanos boicotando todas as tentativas do governo
central de fazer uma política econômica coerente. Além
disso, algumas províncias possuem tantos funcionários públicos
em proporção à população quanto Cuba,
uma nação socialista. A paridade do peso com o dólar
foi um fator agravante num país cujo setor público tinha
rombos fiscais que nunca foram saneados. "A globalização
é como um clube. Cheio de regras e exigências. Os sócios
rebeldes são expulsos com frieza", dizia nos anos 80, com orgulho
de sócio, Domingo Cavallo, ex-ministro da Economia da Argentina.
Seria cruel concluir que Cavallo caiu num engodo. Mas essa é a
dura verdade.
|
O
Brasil precisa buscar novas alianças
Dida Sampaio/AE

Aloizio
Mercadante
Economista e deputado federal pelo PT |
"Se pegarmos indicadores como endividamento, violência,
pobreza, desemprego, veremos que a globalização foi
grande concentradora de riqueza. A liberalização dos
fluxos de capitais provocou uma grande instabilidade para os países
em desenvolvimento. Os Estados Unidos conquistaram uma hegemonia
político-militar sem precedentes, com atitudes que atropelam
todos os acordos multilaterais. E o predomínio dos ricos
nos organismos do mercado global, como Organização
Mundial do Comércio, Banco Mundial e Fundo Monetário
Internacional, prejudicou enormemente as nações em
desenvolvimento. É uma situação francamente
desfavorável, que exige uma mudança de atitude. Temos
de ser mais competitivos, investindo em infra-estrutura, reduzindo
o custo do capital e criando políticas industriais e agrícolas
claras. Na área diplomática, é preciso consolidar
parcerias estratégicas na América do Sul e buscar
alianças com outros países em desenvolvimento, como
China e Índia."
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A
âncora cambial prejudicou as exportações
Claudio Rossi

Edmar
Bacha
Economista, consultor e ex-presidente do BNDES |
"O comportamento dos países do Terceiro Mundo no processo
de globalização é muito disperso. A África
continuou pobre. Índia e China se beneficiaram muito. Na
América Latina, os maiores êxitos são do Chile
e do México, que se inseriram logo no mundo globalizado.
Mas esses países não passaram pelo inferno da hiperinflação,
como o Brasil. Nossas dificuldades têm mais a ver com esse
passado do que com qualquer outra coisa. Além disso, foi
uma infelicidade ter tido de usar uma âncora cambial para
conquistar a estabilidade, porque as exportações foram
muito prejudicadas. Agora enfrentamos fragilidades financeiras decorrentes
de nossa dívida elevada, das dificuldades de fazer reformas
mais amplas no setor público, da necessidade de buscar amparo
no câmbio e nos juros. Quando o cenário pós-eleições
deixar claro que a política econômica terá continuidade,
o país poderá baixar juros, crescer, exportar mais
e inserir-se no mundo globalizado de maneira mais equilibrada."
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Agenda
social tem atraso de dois séculos
Regis Filho

Eduardo
Giannetti
da Fonseca
Economista, sociólogo e professor do Ibmec |
"Quase todos os países melhoraram, mas um pequeno grupo
arrancou na frente, enquanto outro, bem maior, não acompanhou
o processo. Isso aprofundou diferenças. O Brasil não
é um grande sucesso, mas não ficou à margem.
Somos lesados por uma carga de impostos abusiva e um sistema tributário
distorcido, ficamos vulneráveis externamente por causa do
uso prolongado da âncora cambial e perdemos espaço
no comércio mundial graças à sobrevalorização
do início do Plano Real. Mas a questão essencial é
que não resolvemos problemas elementares da vida civilizada,
como o acesso a educação fundamental de qualidade,
saneamento e saúde pública. A defasagem dos indicadores
sociais prejudica o desempenho econômico o capital
humano deficiente reduz as oportunidades do país no mundo
globalizado. O Brasil quer chegar ao século XXI sem enfrentar
a agenda social do século XIX. Sem dar este passo, não
poderemos afirmar nossos valores e ousar nosso próprio caminho."
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Cenário
externo pode ficar ainda pior
Liane Neves

José
Alexandre Scheinkman
Economista e professor da Universidade Princeton |
"Desde o fim do século XIX, a desigualdade entre os
países aumentou. Isso é inegável. Mas é
difícil precisar o papel da globalização. No
caso brasileiro, alguns fatores acentuam o atraso. A globalização
começou logo após a II Guerra Mundial, e nós
só acordamos na década de 90. Continuamos pouco integrados
nosso comércio exterior é proporcionalmente
menor que a metade do chileno. Enfrentamos também uma situação
externa desfavorável devido ao protecionismo das economias
avançadas. Isso pode piorar, porque a administração
americana é sensível aos lobbies protecionistas. Mas
podemos enfrentar questões internas, como a alta taxação
das exportações e a proteção excessiva
a alguns setores. Isso sem falar em temas de fundo, como educação.
O Brasil aumentou muito seus investimentos nessa área. Mas
os frutos demoram a surgir. A Coréia do Sul começou
a educar suas crianças na década de 50 e despontou
no cenário mundial mais de vinte anos depois."
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