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Onde as coisas dão certoPor
que Santa Catarina conseguiu melhorar
Diogo Schelp, de Florianópolis
Eis algumas novidades sobre o Estado de Santa Catarina:
Verdadeiro eldorado da economia brasileira neste começo de século, Santa Catarina se desenvolve num ritmo vigoroso, mas descentralizado e discreto, uma decepção para quem relaciona progresso a poeirentos canteiros de obras ou novas fronteiras desbravadas por aventureiros e jogadores. A capital, Florianópolis, badaladíssima ultimamente, é só um cartão de visitas de todo esse processo. As outras regiões do Estado, cada uma com características próprias, são parceiras na consolidação do desenvolvimento. Nenhuma delas começou ontem a escrever seu caso de sucesso. Nas últimas três décadas, enquanto outros Estados recorriam a empréstimos e incentivos fiscais para turbinar sua economia, Santa Catarina deu força às pequenas e médias empresas e estimulou projetos regionalizados. A capital, cujo êxito turístico recentemente ganhou a concorrência de um próspero enclave de empresas de alta tecnologia, não é sua grande cidade. Tem 340 000 habitantes. Joinville 190 quilômetros ao norte é maior e mais rica. Possui 430 000 moradores e conta com empresas de metalurgia, plásticos e química, entre outras. Blumenau, no Vale do Itajaí, com grandes indústrias do ramo têxtil e alta concentração de empresas de software, exibe quase o mesmo porte da capital. Criciúma, ao sul, concentra modernas fábricas de cerâmica e plásticos descartáveis. Jaraguá do Sul, no pólo oposto, também tem empresas do ramo metal-mecânico, de confecção e de alimentos. Até na região oeste, que sofreu nos últimos anos o efeito do êxodo rural decorrente das mudanças na estrutura agrária, surgiram opções de ocupação e renda para a população. Entre outras vantagens, essa descentralização inibe a catastrófica migração de pessoas em busca de emprego.
Várias são as explicações para o fenômeno do progresso catarinense. Uma delas é a continuidade administrativa. Há pelo menos sessenta anos o mesmo grupo político domina o poder no Estado. Se, de um lado, isso significou o esmagamento das vozes da oposição que esteve no poder por um intervalo de oito anos e não soube implementar um projeto alternativo , de outro favoreceu a manutenção das prioridades. "Politicamente, isso foi um reinado", diz Yan de Souza Carreirão, professor de ciências políticas da Universidade Federal de Santa Catarina. "Podem-se ter perdido experiências políticas menos conservadoras, mas se ganhou em continuidade do planejamento." A história da colonização também criou condições que favorecem Santa Catarina, principalmente na distribuição do espaço e das atividades. A primeira leva de imigrantes, de origem açoriana comerciantes e pescadores , ocupou o litoral. Depois, os alemães conhecedores de ofícios como a tecelagem e a mecânica ocuparam as regiões de Blumenau e de Joinville. Mais tarde, os italianos chegaram à região de Criciúma, onde acabariam envolvidos na exploração das minas de carvão. Por fim, outros colonos italianos, agricultores, migraram da Serra Gaúcha para o oeste catarinense, cuja principal cidade é Chapecó, e ali se estabeleceram em pequenas propriedades familiares. Com grande capacidade de produção, cada um desses pólos sempre fez mais que atender ao consumo local. Desde o início do século XVII, eles exercem uma vocação de comércio com o resto do Brasil e, mais tarde, com o exterior. O sucesso recente tem, portanto, base sólida. O saldo da balança comercial de Santa Catarina em 1992 foi de quase 10% dos 15,2 bilhões de dólares de todo o país. Em 2001, um ano péssimo, 2,1 bilhões dos 2,7 bilhões de dólares que o Brasil acumulou de saldo comercial foram realizados em Santa Catarina. Para exportar, a indústria catarinense teve de manter-se moderna e competitiva, tornando-se menos sujeita às turbulências internas do país.
É claro que existe pobreza, até miséria, em várias cidades, incluindo a capital, e que há muito a fazer quanto a saneamento, por exemplo. Santa Catarina está longe de ter se tornado um país europeu. Mas, diante da realidade brasileira, é inegável que conseguiu administrar a escassez com muito mais competência que o restante do Brasil. "Santa Catarina atravessou em melhores condições que outros Estados a grande crise dos anos 80 graças à diversificação da economia", constata Hoyêdo Nunes Lins, professor de economia da Universidade Federal de Santa Catarina. Uma dessas situações foi vista recentemente, com a abertura da economia e, depois, o Plano Real. Uma avalanche de importados acertou em cheio a indústria têxtil de Blumenau. Mais de 12.000 pessoas perderam o emprego. Em vez de desaparecer, a maioria das empresas locais caminhou para a modernização da produção. Com a terceirização, 70% dos ex-funcionários dessas companhias reencontraram ocupação. A cidade, por sua vez, abandonou a dependência de um único setor. Um pólo local de informática já tem 300 empresas produtoras de softwares. Há vinte anos, Blumenau tinha poucas opções de cursos de ensino superior. As melhores oportunidades de estudo, na época, estavam na Universidade Federal, em Florianópolis, ou nas instituições do Paraná e do Rio Grande do Sul. Boa parte dos jovens do interior catarinense só voltava a sua cidade para visitar parentes. Desde o fim dos anos 60, prefeituras de cidades catarinenses têm programas de desenvolvimento educacionais regionais, por meio de fundações. Já existem mais de 100.000 alunos nessas entidades. Para as empresas, essa disponibilidade de mão-de-obra qualificada representou uma revolução. Gisele Caresia, de 20 anos, nem terminou o curso de moda, na própria cidade, e já conseguiu emprego de estilista. "Tenho amigos, uma vida tranqüila e até praia aqui perto", diz Gisele, que visita o Balneário Camboriú regularmente. "Não tenho razão para invejar quem vive numa grande capital."
Os catarinenses sabem que a rota do desenvolvimento começa na educação. Santa Catarina tem a melhor taxa de alfabetização no meio urbano do país. Em Jaraguá do Sul, no nordeste catarinense, existem dezenove centros de educação infantil, com 5.000 crianças matriculadas e um funcionário para cuidar de cada grupo de oito alunos. O custo disso é alto, mas o gasto é rateado entre empresários, os pais e o poder público. Isso vem sendo feito há vinte anos. Não é por acaso que Jaraguá do Sul é considerada a cidade com o melhor índice de desenvolvimento humano de Santa Catarina. Perto dali, Joinville, muito maior, vive outra fase do desenvolvimento. Hoje, só metade dos empregos locais está na indústria. Nos últimos anos, a cidade investe no setor de serviços. Ao contrário de outros municípios invadidos por migrantes quando as coisas vão bem, Joinville teve diminuição no fluxo migratório desde o começo dos anos 90. O litoral, com o desenvolvimento dos serviços para turistas, vem atraindo mais migrantes graças às crescentes oportunidades de emprego. Nos últimos três anos, o movimento anual de turistas nas praias catarinenses aumentou em meio milhão de pessoas. Com mais de 100 praias de belo visual, a Ilha de Santa Catarina, onde fica a capital, tornou-se pólo de atração de migrantes de classe média, que correm atrás de qualidade de vida e levam dinheiro no bolso. Na última década, perto de 30.000 pessoas se mudaram para Florianópolis, quase 10% da população da cidade. Entre os migrantes de perfil socioeconômico mais baixo, que vão preencher as vagas no setor de serviços básicos, estão os jovens do oeste catarinense, que têm uma condição valorizadíssima nos dias de hoje: a empregabilidade. Uma pesquisa da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) revelou que somente duas agências de emprego colocaram 700 jovens do oeste catarinense para trabalhar em churrascarias em São Paulo e no Rio de Janeiro em um ano. A preferência dos empregadores pelos jovens dessa região se deve a seu bom nível de instrução, já que a maioria tem pelo menos o 2º grau completo. A migração
de jovens também marcou a região de Criciúma, no
sul do Estado, principalmente em razão da crise no setor carbonífero
no início da década passada. Criciúma chegou a ser
a segunda cidade brasileira no ranking de exportação de
mão-de-obra para os Estados Unidos, rivalizando com a mineira Governador
Valadares. A solução para a crise local seguiu uma única
receita: diversificação. Atualmente, as indústrias
de cerâmica e de plásticos descartáveis são
as mais importantes do pólo regional. Em 1990, quando grassaram
as demissões de mineiros, suas mulheres assumiram temporariamente
o sustento da casa. Muitas abriram pequenas confecções,
que se acabariam tornando o principal negócio da família.
Janete Cechella Goularti, de 44 anos, foi uma delas. Quando seu marido
foi demitido das minas da Companhia Siderúrgica Nacional, usou
sua indenização para comprar uma máquina de costura
e entregá-la à mulher. Foi a primeira de 28 que chegaram
a ter para produzir as 7.000 peças mensais
de sua confecção. Janete, que se separou depois, poderia
ter parado por aí, mas incorporou o espírito empreendedor.
Hoje ela desenha, corta e faz acabamentos, mas terceirizou as costureiras,
no melhor estilo de uma grande confecção. "Ganho o dobro
e tenho muito mais segurança", diz.
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