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Edição 1 753 - 29 de maio de 2002
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Um torpedo contra Garotinho

Empreiteiro presta depoimento
informal e acusa o presidenciável
de enriquecer e receber
"dinheiro de propina"

Maurício Lima

 
Selmy Yassuda

Guilherme Freire, o desafeto de Garotinho: isso é só o começo

Na quarta-feira passada, um empreiteiro do Rio de Janeiro desembarcou no aeroporto de Brasília e encaminhou-se à sede do Ministério Público Federal. Carregava uma mala que pesava 8 quilos, recheada de documentos, papéis diversos e fitas cassete contendo diálogos telefônicos. No Ministério Público (MP), o empreiteiro Guilherme Gomes Freire, 42 anos, sentou-se diante do procurador Celso Antonio Três, um gaúcho que costuma destrinchar investigações financeiras, e prestou um depoimento informal de duas horas e meia. Começou reclamando das perseguições que tem sofrido no Rio e relatou a trajetória fulminante de sua empresa, a construtora Tucun. Criada em 1986, a Tucun transformou-se numa das maiores empreiteiras do norte do Estado do Rio no início dos anos 90. Hoje, voltou a ser uma firma modesta. Aos poucos, cruzando a história de sua construtora com a dos negócios públicos, Guilherme Freire passou a desfolhar uma biografia espantosa do candidato presidencial do PSB, o ex-governador Anthony Garotinho.

 
Paulo Liebert/AE

Garotinho: desconhecendo quem paga as contas

No depoimento, seguido de uma entrevista a VEJA, Guilherme Freire relatou detalhes do que se passava nos bastidores da prefeitura de Campos, cidade do interior do Rio, principalmente entre 1996 e 1997, quando Anthony Garotinho estava assumindo seu segundo mandato de prefeito. A seguir, as principais acusações que fez:

.Guilherme Freire conta que Garotinho recebia dinheiro proveniente de negócios ilícitos na conta 12216-1 do Banco Itaú, agência Saara, no Rio. "Nas gravações a que eu tive acesso, fica claro que eles usavam essa conta para receber dinheiro de propina", diz o empreiteiro. Segundo VEJA apurou, a conta 12216-1 existe até hoje. Está no nome de Jonas Lopes de Carvalho Junior, amigo íntimo de Garotinho. Jonas, cujo apelido é "Joninha", foi chefe de gabinete civil do ex-governador do Rio e ganhou dele a indicação para ser membro do Tribunal de Contas do Estado, cargo que ocupa atualmente. Nas fitas entregues por Guilherme Freire ao Ministério Público, Joninha aparece com freqüência intermediando operações bancárias para Garotinho.

.Guilherme Freire relata que Garotinho tinha um relacionamento especial com o empreiteiro José Geraldo Manhães, que prestava serviços à prefeitura de Campos. Um aspecto da relação especial decorria de laços de sangue. Manhães é casado com Fátima Castro, prima de Rosinha Matheus, mulher de Garotinho. O outro lado da relação era financeiro. Garotinho usava a conta bancária da empreiteira de Manhães, a Construsan/Imbé, numa agência em Cabo Frio, para fazer operações anônimas. Em alguns casos, Garotinho recebia cheques mas não os depositava em sua conta. Pedia que os cheques fossem depositados na conta da empreiteira de Manhães e depois resgatados para que o valor fosse entregue a ele em dinheiro vivo. Uma das operações, com as ordens de Garotinho, está gravada numa fita entregue por Guilherme Freire ao Ministério Público.

.As licitações promovidas pela administração de Garotinho em Campos eram viciadas, segundo garante Guilherme Freire. Ele próprio ganhou quase 800 licitações na cidade e diz conhecer o esquema por dentro. Depois de ser alijado da maracutaia, Guilherme Freire costumava adiantar o resultado de licitações, publicando com antecipação o nome dos vencedores em anúncios cifrados de jornais. Um exemplo: no dia 11 de março de 2000, Freire antecipou a vitória da empreiteira de Manhães na reparação de uma estrada, obra conveniada entre a prefeitura de Campos e o governo do Rio, então sob comando de Garotinho. O anúncio foi publicado no jornal Folha de S.Paulo. Manhães, de fato, ganhou a concorrência. A obra começou em julho de 2000.

.O empreiteiro garante que Garotinho subornou um fiscal da Receita Federal para livrá-lo das multas contra a empresa Garotinho Gráfica e Editora. No ano passado, o jornal O Globo publicou uma parte da história. Na ocasião, Garotinho disse que nunca corrompera fiscal algum e não tivera nenhuma participação no episódio. No lote de fitas que Guilherme Freire entregou ao MP na semana passada, a operação é descrita com mais detalhes. Nas gravações, Garotinho orienta um contador sobre como negociar com o fiscal o valor do suborno. Pede ao contador que não se antecipe, mas abra espaço para que o fiscal se sinta à vontade para falar em valores.

"São acusações contundentes, graves e precisam ser investigadas", resumiu o procurador Celso Três, depois de tomar o depoimento do empreiteiro. Guilherme Freire garante que as denúncias de agora são apenas o começo. "Só existem duas pessoas que conhecem o verdadeiro Garotinho. A Rosinha e eu", diz ele, referindo-se à esposa do candidato presidencial do PSB. Embora tenha 8 quilos de indícios, o empreiteiro não tem provas cabais das acusações que fez – mas, com certeza, não se trata de alguém que desconheça o assunto sobre o qual está falando. Guilherme Freire passou os últimos sete anos reunindo provas contra Garotinho, de quem foi amigo e colaborador nos bons tempos em que sua construtora era a rainha de Campos. A intimidade era tanta que as famílias passavam juntas as festas de aniversário e fim de ano. Era um tempo em que Guilherme Freire, segundo diz, pagava do próprio bolso quase todas as despesas de Garotinho. Alugava aviões, intermediava negócios e dava presentes em nome do então prefeito de Campos.

Em 1996, conta o empreiteiro, Garotinho lhe pediu que intermediasse a compra de uma emissora de televisão no norte do Rio. O empreiteiro recusou-se a participar do negócio e a amizade azedou. No segundo mandato de Garotinho em Campos, iniciado em 1997, a empresa de Freire, que antes abocanhara 800 obras, não ganhou uma única licitação. Garotinho fez o que pôde para evitar que as denúncias de Guilherme Freire viessem a público. Há duas semanas, o candidato do PSB recorreu à Justiça para impedir que a revista Carta Capital publicasse uma reportagem com as denúncias do empreiteiro. O juiz Marcelo de Oliveira e Silva, da 21ª Vara Cível, no Rio, atendeu ao pleito do candidato. Embora com o nobre propósito de evitar que a honra de alguém fosse injustamente enxovalhada, a decisão lembra os tempos em que a imprensa era submetida à censura prévia.

Na quinta-feira passada, depois de uma semana de disputa judicial, uma parte das denúncias do empreiteiro foi liberada para publicação. A imprensa continua proibida de divulgar diálogos contidos em fitas que foram gravadas clandestinamente, mas está autorizada a publicar o que o desafeto de Garotinho tem a dizer. Na mesma quinta-feira, VEJA procurou o candidato do PSB para que se manifestasse sobre as denúncias. Ele recebeu as perguntas por escrito e as respondeu também por escrito. Sobre a conta 12216-1, Garotinho disse: "Essa conta não me pertence". Sobre sua relação com o empreiteiro José Geraldo Manhães: "Sempre mantive bom relacionamento com todos os que prestaram serviço à prefeitura". Sobre as licitações viciadas: "As contas de meu governo foram aprovadas pelo Tribunal de Contas". Sobre o suborno de um fiscal da Receita Federal: "A afirmação é mentirosa". E Guilherme Freire chegou a pagar suas despesas pessoais? "Desconheço." Isso mesmo: ele desconhece.

 

"COM BOLSO ESQUERDO E DIREITO"

 
Genilson Pessonha/Folha da Manhã

Garotinho (no centro) e Manhães
(à dir.), em foto de 1999

Na semana passada, depois de prestar depoimento ao Ministério Público, em Brasília, em que apresentou denúncias contra Anthony Garotinho, o empreiteiro Guilherme Gomes Freire deu a seguinte entrevista a VEJA:

Veja – Como o senhor conheceu Garotinho?
Freire –
Estudamos no Liceu de Humanidades de Campos. Éramos de turmas diferentes. A cidade é pequena, a gente se encontrava muito, mas não havia amizade. Ele era meio da turma da baderna.

Veja – Garotinho tinha militância de esquerda no movimento estudantil?
Freire –
Eu não vejo Garotinho como de esquerda ou de direita. Eu o vejo com bolso esquerdo e bolso direito. Política para Garotinho é um negócio.

Veja – Quando o senhor se aproximou dele?
Freire –
No primeiro mandato de Garotinho em Campos, em 1989. Eu o procurei, falei que gostaria de prestar serviços. Ele disse que sim, que precisava mudar a mentalidade dos empreiteiros que dominavam antes.

Veja – O senhor começou então a ganhar obras?
Freire –
O diferencial que tive foi sempre receber o que me era devido. Em geral, o prestador de serviço público demora muito a receber. Comigo, isso não acontecia. O que me colocou na posição privilegiada de a maior empreiteira do norte do Estado. Fiz todo tipo de obra. Depois, o Brizola entrou no governo do Estado, em 1990, e, através do Garotinho, começamos também a ganhar obras no Estado.

Veja – Por que a deferência com o senhor?
Freire –
Eu sempre o ajudei, e muito. Não existe homem de negócios que não queira uma vantagem depois. Seríamos todos hipócritas se acreditássemos nisso. Durante oito anos, entre 1989 e 1996, banquei despesas dele. Em época de eleição, me ligava quatro, cinco vezes por dia pedindo favores.

Veja – Quando os senhores brigaram?
Freire –
Em 1996, Garotinho me pediu para intermediar a compra da TV Norte Fluminense, um negócio de 6 milhões de dólares. Essa conversa eu tenho gravada. Garotinho não tinha o dinheiro todo e me pediu que entrasse com uma parte. Eu não quis. Foi a gota d'água.

Veja – Garotinho leva uma vida superior aos seus rendimentos?
Freire –
Vou dar um exemplo. Foi lançado recentemente um jornal em Campos, o Diário. Boa parte da imprensa disse que o jornal era de Garotinho. Ele disse que não. Eu me sinto à vontade para dizer: é dele, sim. Tenho em mãos uma gravação com ele dizendo: "Nada prova que o jornal é nosso". Na declaração de renda, Garotinho só informa uma casa e um carro. É uma hipocrisia danada.

Veja – O senhor mandou fazer as gravações?
Freire –
Eu me defendi. Gravei, sim, conversas minhas com o Garotinho. Mas, desde que me insurgi contra ele, muitas pessoas têm me passado gravações.

Veja – Por que o senhor está fazendo isso agora?
Freire –
Eu tinha três caminhos a seguir. O primeiro era levar o que sei para o Garotinho e me acertar com ele. O segundo era levar isso para um inimigo dele. O terceiro era ir ao Ministério Público. Escolhi o caminho mais honesto.

Veja – O senhor está arrependido?
Freire –
É difícil responder. Minha família está sendo perseguida, sofri ameaça de morte, tive de me mudar para o Rio de Janeiro. Nessa semana mesmo, só para me constranger, a polícia foi à porta do meu prédio em Campos. Eles colocaram processos contra mim na Receita, no Ibama, desligaram meus telefones... É um inferno. Passei até um dia preso. Mas agora não desisto mais. Quero mostrar como o Garotinho faz política.


 
 
   
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