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Estranha no ninho
tucano
Filha
de agricultor que queria ser
modelo, Rita Camata aposta no social

Thaís
Oyama
Ana Araujo
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| Rita:
recorde de propostas na Constituinte e divergências políticas
com o marido |
Desde a época em que ajudava os pais a colher café na minúscula
Venda Nova do Imigrante, no interior do Espírito Santo, Rita Camata
já destoava da paisagem. Filha gêmea de um agricultor que
não chegou a completar o curso primário, ia para a roça
com figurino de princesa e fazia questão de combinar o lenço
da cabeça com o vestido. Já nesse tempo era linda, e a mais
vaidosa dos nove filhos, segundo a mãe, Anidis Paste. "Se tivesse
500 espelhos em casa, não dariam conta de Rita", diz. No colégio,
nunca foi aluna brilhante. Em compensação, contam ex-colegas,
não havia quem a vencesse na ousadia do decote e no comprimento
da saia, "a mais curta de toda Venda Nova", lembra um deles. A política
estava então a galáxias de distância: Rita, ex-Miss
Simpatia e ex-Rainha dos Estudantes, queria ser modelo. "Ficávamos
olhando as colunas sociais e as revistas de artistas. Rita freqüentemente
dizia: 'Um dia, vou estar na capa'. Ela sempre soube que seria famosa",
diz outra amiga, Perpétua Serafim. Agora, aos 41 anos, como candidata
a vice-presidente na chapa de José Serra, Rita vive na política
o auge da fama que queria nas passarelas.
A primeira
guinada na vida aconteceu aos 20 anos, quando Rita, estudante de jornalismo
em Vitória, se casou com o então deputado federal Gerson
Camata, vinte anos mais velho e primo distante de sua mãe. Um ano
mais tarde, ele se tornaria governador do Espírito Santo e ela,
a mais jovem primeira-dama do país. O mandato do marido despertou-a
para duas novidades: as mazelas sociais e os encantos da política.
A primeira, Rita conheceu a fundo quando participou dos projetos assistenciais
do governo. A segunda, descobriu em 1985. Quando se viu diante da possibilidade
de o PMDB indicar como candidata à prefeitura de Vitória
a então deputada estadual Rose de Freitas, sua arquiinimiga até
hoje, decidiu colocar as manguinhas bufantes de fora. Desafiando o vice-governador
José Moraes, apoiou ostensivamente o nome do secretário
da Indústria e do Comércio, Hermes Laranja, a ponto de,
no dia da convenção, comparecer à Assembléia
Legislativa para cumprimentar um a um os convencionais e pedir votos para
seu candidato. O episódio terminou com a derrota de Rose e marcou
a estréia informal de Rita na política.
Álbum de família
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Yugo Koyama
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| Aos
20 anos, em seu casamento com o futuro governador Gerson Camata, e,
um ano depois, posando de motoqueira: a mais jovem primeira-dama do
país |
A oficial
se deu no ano seguinte. Contra a vontade do marido, aceitou o convite
do PMDB para disputar uma vaga de deputada federal. Acabou eleita a mais
votada de seu Estado. Já a estréia na tribuna do Congresso
foi um desastre. Seu primeiro discurso, encomendado a uma jornalista de
Vitória, incluía trechos como "sinto a emoção
dos neófitos e vergo sob o peso da responsabilidade ao assomar
pela primeira vez a esta tribuna" e mais um erif" size="2">A oficial
se deu no ano seguinte. Contra a vontade do marido, aceitou o convite
do PMDB para disputar uma vaga de deputada federal. Acabou eleita a mais
votada de seu Estado. Já a estréia na tribuna do Congresso
foi um desastre. Seu primeiro discurso, encomendado a uma jornalista de
Vitória, incluía trechos como "sinto a emoção
dos neófitos e vergo sob o peso da responsabilidade ao assomar
pela primeira vez a esta tribuna" e mais um amontoado de frases
tão difíceis que a própria neófita foi incapaz
de reproduzi-las sem gaguejar. "Pulava os parágrafos e tremia tanto
que as pernas chegavam a bater uma na outra", lembra. No dia seguinte,
ao abrir os jornais, Rita chorou de vergonha. Até hoje não
superou o trauma da tribuna.
Álbum de família
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| Ao
lado da irmã gêmea, Mônica, na primeira comunhão:
infância passada na roça e vaidades de princesa |
Se a oratória nunca foi seu forte, na persistência ela é
imbatível. No primeiro dia de mandato, decidiu que compensaria
a inexperiência com esforço. Desde então, raras foram
as vezes em que foi para casa sem levar, sob o braço, uma pilha
de livros da biblioteca do Congresso: Rita lê obsessivamente tudo
o que diz respeito às matérias com que está lidando
e, na época da Constituinte, recolheu constituições
de mais de dez países para forrar com elas as paredes de seu apartamento.
"Ela passava as madrugadas em cima de uma escada estudando os artigos
para, com base neles, elaborar suas emendas", conta Gerson Camata. Acabou
recordista em propostas. Apresentou mais de 200. Conseguiu ter 68 aprovadas.
Ao longo
de quatro mandatos, as divergências de opinião com o marido
estabeleceram que ela era a "progressista" do casal e ele, o "conservador".
Agora, na dobradinha com José Serra, a situação se
repete: a peemedebista Rita novamente destoa da paisagem tucana: vota
sim onde Serra vota não; é fumante, enquanto o ex-ministro
é antitabagista; defende as causas sociais, enquanto ele prega
a importância da estabilidade econômica. No caso da dupla
Rita-Gerson Camata, pode-se dizer que a fórmula deu certo: a união
já dura vinte anos, o casal tem dois filhos e ambos sabem lucrar
com as diferenças na qualidade de marido de Rita, Camata
trafega mais confortavelmente à esquerda, enquanto ela, de posse
do título de mulher de Camata, consegue facilidades à direita.
No caso de Serra, as urnas dirão se a fórmula vai funcionar.
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