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Edição 1 753 - 29 de maio de 2002
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Estranha no ninho tucano

Filha de agricultor que queria ser
modelo, Rita Camata aposta no social

Thaís Oyama


Ana Araujo
Rita: recorde de propostas na Constituinte e divergências políticas com o marido


Desde a época em que ajudava os pais a colher café na minúscula Venda Nova do Imigrante, no interior do Espírito Santo, Rita Camata já destoava da paisagem. Filha gêmea de um agricultor que não chegou a completar o curso primário, ia para a roça com figurino de princesa – e fazia questão de combinar o lenço da cabeça com o vestido. Já nesse tempo era linda, e a mais vaidosa dos nove filhos, segundo a mãe, Anidis Paste. "Se tivesse 500 espelhos em casa, não dariam conta de Rita", diz. No colégio, nunca foi aluna brilhante. Em compensação, contam ex-colegas, não havia quem a vencesse na ousadia do decote e no comprimento da saia, "a mais curta de toda Venda Nova", lembra um deles. A política estava então a galáxias de distância: Rita, ex-Miss Simpatia e ex-Rainha dos Estudantes, queria ser modelo. "Ficávamos olhando as colunas sociais e as revistas de artistas. Rita freqüentemente dizia: 'Um dia, vou estar na capa'. Ela sempre soube que seria famosa", diz outra amiga, Perpétua Serafim. Agora, aos 41 anos, como candidata a vice-presidente na chapa de José Serra, Rita vive na política o auge da fama que queria nas passarelas.

A primeira guinada na vida aconteceu aos 20 anos, quando Rita, estudante de jornalismo em Vitória, se casou com o então deputado federal Gerson Camata, vinte anos mais velho e primo distante de sua mãe. Um ano mais tarde, ele se tornaria governador do Espírito Santo e ela, a mais jovem primeira-dama do país. O mandato do marido despertou-a para duas novidades: as mazelas sociais e os encantos da política. A primeira, Rita conheceu a fundo quando participou dos projetos assistenciais do governo. A segunda, descobriu em 1985. Quando se viu diante da possibilidade de o PMDB indicar como candidata à prefeitura de Vitória a então deputada estadual Rose de Freitas, sua arquiinimiga até hoje, decidiu colocar as manguinhas bufantes de fora. Desafiando o vice-governador José Moraes, apoiou ostensivamente o nome do secretário da Indústria e do Comércio, Hermes Laranja, a ponto de, no dia da convenção, comparecer à Assembléia Legislativa para cumprimentar um a um os convencionais e pedir votos para seu candidato. O episódio terminou com a derrota de Rose e marcou a estréia informal de Rita na política.

 
Álbum de família
Yugo Koyama
Aos 20 anos, em seu casamento com o futuro governador Gerson Camata, e, um ano depois, posando de motoqueira: a mais jovem primeira-dama do país

A oficial se deu no ano seguinte. Contra a vontade do marido, aceitou o convite do PMDB para disputar uma vaga de deputada federal. Acabou eleita a mais votada de seu Estado. Já a estréia na tribuna do Congresso foi um desastre. Seu primeiro discurso, encomendado a uma jornalista de Vitória, incluía trechos como "sinto a emoção dos neófitos e vergo sob o peso da responsabilidade ao assomar pela primeira vez a esta tribuna" – e mais um erif" size="2">A oficial se deu no ano seguinte. Contra a vontade do marido, aceitou o convite do PMDB para disputar uma vaga de deputada federal. Acabou eleita a mais votada de seu Estado. Já a estréia na tribuna do Congresso foi um desastre. Seu primeiro discurso, encomendado a uma jornalista de Vitória, incluía trechos como "sinto a emoção dos neófitos e vergo sob o peso da responsabilidade ao assomar pela primeira vez a esta tribuna" – e mais um amontoado de frases tão difíceis que a própria neófita foi incapaz de reproduzi-las sem gaguejar. "Pulava os parágrafos e tremia tanto que as pernas chegavam a bater uma na outra", lembra. No dia seguinte, ao abrir os jornais, Rita chorou de vergonha. Até hoje não superou o trauma da tribuna.

Álbum de família
Ao lado da irmã gêmea, Mônica, na primeira comunhão: infância passada na roça e vaidades de princesa


Se a oratória nunca foi seu forte, na persistência ela é imbatível. No primeiro dia de mandato, decidiu que compensaria a inexperiência com esforço. Desde então, raras foram as vezes em que foi para casa sem levar, sob o braço, uma pilha de livros da biblioteca do Congresso: Rita lê obsessivamente tudo o que diz respeito às matérias com que está lidando e, na época da Constituinte, recolheu constituições de mais de dez países para forrar com elas as paredes de seu apartamento. "Ela passava as madrugadas em cima de uma escada estudando os artigos para, com base neles, elaborar suas emendas", conta Gerson Camata. Acabou recordista em propostas. Apresentou mais de 200. Conseguiu ter 68 aprovadas.

Ao longo de quatro mandatos, as divergências de opinião com o marido estabeleceram que ela era a "progressista" do casal e ele, o "conservador". Agora, na dobradinha com José Serra, a situação se repete: a peemedebista Rita novamente destoa da paisagem tucana: vota sim onde Serra vota não; é fumante, enquanto o ex-ministro é antitabagista; defende as causas sociais, enquanto ele prega a importância da estabilidade econômica. No caso da dupla Rita-Gerson Camata, pode-se dizer que a fórmula deu certo: a união já dura vinte anos, o casal tem dois filhos e ambos sabem lucrar com as diferenças – na qualidade de marido de Rita, Camata trafega mais confortavelmente à esquerda, enquanto ela, de posse do título de mulher de Camata, consegue facilidades à direita. No caso de Serra, as urnas dirão se a fórmula vai funcionar.

 
 
   
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