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Edição 1 753 - 29 de maio de 2002
Diogo Mainardi

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O grande marqueteiro

"Numa eleição, use a tática de Silvio
Berlusconi. Faça um contrato com seus
eleitores e registre suas promessas num
cartório. Sem estipular nenhuma pena em
caso de descumprimento"

Duda Mendonça é um amador. Nizan Guanaes também. Se você quer ser eleito, siga os conselhos de Silvio Berlusconi, o primeiro-ministro italiano. Ele é melhor do que todos os nossos marqueteiros juntos. Outro dia, preparando os candidatos de seu partido para as eleições municipais, ele explicou o que cada um precisava fazer para virar prefeito. Umas regrinhas muito simples definidas como "estratégia do sorriso". Antes de mais nada, o candidato deve chamar todos os eleitores pelo nome, "música para seus ouvidos". Depois, tem de cativá-los com elogios: "Que aspecto saudável!", "Que linda gravata!", "Que belo sorriso!". Também é recomendável presentear a bandeira nacional aos recém-casados, mandar lembranças aos casais que comemoram bodas de ouro e dar uma cópia da Constituição a quem completa 18 anos.

A melhor idéia que Berlusconi deu aos candidatos de seu partido, porém, foi fazer um contrato com os eleitores, colocando as promessas de campanha numa folha de papel e registrando-as num cartório. Foi o que ele próprio fez, com grande sucesso, nas eleições do ano passado. Os italianos, como os brasileiros, têm um temperamento burocrático. Acreditam em qualquer documento que contenha firma reconhecida e um punhado de carimbos. Em seu contrato, Berlusconi prometeu, por exemplo, que diminuiria os impostos. Até agora, os impostos só aumentaram. Mas, como o contrato não estipulava uma pena caso suas cláusulas não fossem cumpridas, o fato tornou-se irrelevante. Lula deveria imitar Berlusconi. Todo mundo tem medo dos desastres que ele irá provocar na economia brasileira. Seu assessor econômico, Guido Mantega, chegou a admitir que a principal política do governo petista será relaxar o controle da inflação. Por que confessar uma coisa dessas? Mesmo que seja mentira, mesmo que Lula provoque uma nova onda de hiperinflação, não é melhor assinar um documento jurando o contrário?

Outra promessa de campanha de Berlusconi era combater a imigração clandestina e a criminalidade. Em seu primeiro ano de governo, tanto a imigração clandestina quanto a criminalidade aumentaram. Em compensação, diminuiu drasticamente o espaço que os noticiários de TV dedicaram ao assunto, criando a reconfortante sensação de que os problemas melhoraram. Anthony Garotinho manipulou descaradamente os índices de criminalidade do Rio de Janeiro, mas ele é fichinha perto de Berlusconi. Além de possuir as três únicas redes de TV privadas da Itália, Berlusconi, depois de eleito, passou a controlar as três redes públicas. A maior delas, RAI 1, foi entregue a um ex-deputado de seu partido. E o diretor do telejornal é um ex-funcionário de sua TV.

Nossos pobres candidatos têm muito a aprender com Berlusconi em matéria de dinheiro de campanha. Veja o que aconteceu com Roseana Sarney. Veja o que está acontecendo com José Serra. Berlusconi cortou o problema pela raiz. Correndo o risco de ser condenado à cadeia pelos tribunais italianos, ele candidatou oito de seus advogados ao Parlamento. Assim que foram eleitos, esses advogados simplesmente mudaram as leis que incriminavam Berlusconi, livrando-o de uma série de processos. Existe solução mais rápida e definitiva do que essa? Ou seja: Berlusconi para presidente do Brasil! O país continuará uma bomba, mas pelo menos ele elogiará nossas gravatas.

 
 
   
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