Publicidade
buscas
cidades PROGRAME-SE
Edição 1 753 - 29 de maio de 2002
Em foco

estasemana
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Índice
Seções
Brasil
Internacional
Geral
Guia
Artes e Espetáculos

colunas
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Claudio de Moura Castro
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo

seções
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Carta ao leitor
Entrevista

Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Arc
Gente
Datas

VEJA na copa
Para usar
VEJA on-line
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos

arquivoVEJA
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Arquivo 1997-2002
Reportagens de capa
2000|2001|2002
Entrevistas
2000|2001|2002
Busca somente texto
96|97|98|99|00|01|02


Crie seu grupo




 

Sérgio Abranches

Campanha sem voto

"A pátria pode relaxar, calçar suas chuteiras e guardar o título de eleitor,
porque a campanha,
que parece
velha, nem começou"


Ale Setti


Se você anda com uma sensação de déjà vu, de coisa velha, com relação à campanha para a sucessão presidencial, tem razão. O vai-e-vem de candidatos nas pesquisas parece um filme repetido. Não adianta o neo-Lula, o arrivismo de Garotinho, o voluntarismo de Ciro ou as olheiras do Serra. Nada parece novo o suficiente para dar ânimo à campanha. O problema é que os candidatos foram para a rua antes do tempo, vários já foram eliminados e até parece que a eleição será amanhã. Mas não será.

Hoje, as pesquisas de intenção de voto pouco dizem sobre o que de fato acontecerá em outubro, mas acabam sendo um prato feito para a imprensa e para os mercados, que vêem risco até na sombra deles mesmos. É que são pesquisas de intenção de voto e não de voto, e só existe uma coisa tão fugaz quanto intenção de voto: promessa de político em campanha.

A intenção de voto é um artefato da pesquisa de opinião pública. Não é manipulação de má-fé, como pensam alguns. É o resultado de um raciocínio construído com base em uma série de premissas que não são reais. A questão – "se a eleição fosse hoje e os candidatos fossem esses (nomeados em uma cartela) em quem você votaria?" – convida o entrevistado a fazer uma série de operações mentais que não levam ao voto. Só a uma momentânea intenção de voto.

Convenhamos, a eleição não é hoje. Ninguém tem certeza de que os candidatos sejam esses. Certamente essa afirmação não era verdadeira, há algumas semanas, quando Itamar e Roseana constavam da lista. Continua não sendo quando são incluídos os nomes de Aécio Neves, Tasso Jereissati ou Silvio Santos. Por outro lado, quando estão apenas os nomes de Lula, Serra, Ciro, Garotinho e Enéas, pode continuar não sendo verdade. E não estou falando da desistência ou substituição de candidatos. Quantos candidatos disputaram em 1998? Quem respondeu quatro (FHC, Lula, Ciro e Enéas) errou. Foram doze os candidatos oficialmente inscritos no TSE e que constavam da cédula eletrônica para presidente da República. Os nove nanicos somaram quase 3 milhões de votos. Quarenta vezes mais do que precisou Rita Camata para se eleger deputada pelo Espírito Santo.

Intenção muda e as pessoas sabem disso. Na última pesquisa do Ibope, 56% dos que disseram algum nome admitiram que podem mudar de opinião. Dos que indicaram Lula, 47% admitem ainda mudar de intenção. Esse porcentual é de 67% para Serra, 66% para Ciro, 57% para Garotinho. Mesmo quem não admite pode vir a mudar de opinião, porque terá informação nova daqui até a votação.

Além da instabilidade, porque as pessoas terão mais informação relevante para decidir seu voto daqui a cinco meses, as intenções de voto sofrem a influência de um fenômeno chamado "efeito resposta". Tem a ver com o fato de que o próprio esforço de medir a intenção de voto gera informações e ruídos que interferem no resultado. Marcos Coimbra, do Instituto Vox Populi, chama a atenção para a influência da hiperestimulação na volatilidade das pesquisas. Sabe do que fala, pois além de dirigir o Vox Populi tem sólida formação acadêmica.

Um exemplo desse efeito pode ser flagrado nas duas últimas pesquisas do Ibope, coletadas praticamente no mesmo período, 17 a 19 e 18 a 21 de maio, com amostras de tamanho diferente. Numa, Lula obteve 38%, na outra, 42%. A diretora do Ibope, Silvia Cervellini, explicou à imprensa que essa diferença de quatro pontos porcentuais ocorreu porque numa pesquisa os nomes foram lembrados antes da espontânea e isso favoreceu o candidato mais conhecido. É uma manifestação concreta do efeito resposta ou da hiperestimulação.

Recolhi outro exemplo desse efeito com Marcos Coimbra. Perguntei-lhe que porcentual de pessoas muda de indicação entre uma cartela de nomes e outra, embora o nome de seu candidato conste das duas. Contou-me que, na última pesquisa em que o Vox Populi incluiu Roseana Sarney, 9% dos que falaram Lula na primeira cartela não repetiram sua escolha na segunda. Esse porcentual foi de 10% para Serra e Ciro e de 15% para Garotinho. Vale dizer, uma mudança média de opinião da ordem de 11% entre uma cartela e outra, ou seja, em questão de poucos minutos. Imaginem o que não pode acontecer em cinco meses.

A pesquisa acadêmica de eleições em praticamente todas as democracias do mundo revela não repetiram sua escolha na segunda. Esse porcentual foi de 10% para Serra e Ciro e de 15% para Garotinho. Vale dizer, uma mudança média de opinião da ordem de 11% entre uma cartela e outra, ou seja, em questão de poucos minutos. Imaginem o que não pode acontecer em cinco meses.

A pesquisa acadêmica de eleições em praticamente todas as democracias do mundo revela que o eleitor acelera o processo de aquisição de informação para decidir seu voto apenas nas últimas seis semanas de campanha. É o efeito TV. Ele espera a campanha chegar à TV para poder se informar, comparar e escolher. No Brasil, as diferenças entre intenção de voto e voto indicam que esse prazo é ainda menor: quatro semanas. Portanto, a pátria pode relaxar, calçar suas chuteiras e guardar o título de eleitor, porque a campanha, que parece velha, nem começou.

Sérgio Abranches é cientista político (sergioabranches@sda.com.br)

 
 
   
  voltar
   
  NOTÍCIAS DIÁRIAS