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Considerações sobre ela,
sem dizer seu nome
Eventos
como os da semana passada impressionam tanto
em si como pelo que ocorria antes e o que ocorre depois
Há ocasiões em
que ela age por atacado. Leva um ministro e, menos de 48
horas depois, o líder do governo na Câmara. Leva ainda
no mesmo período, para ficar nas pessoas que aparecem
nos jornais e na TV, um cantor de dor-de-cotovelo, um
escritor mexicano, a mulher de um beatle. Que arrastão!
Ela, a Inominável, a Indesejada das Gentes, mostra
nessas ocasiões um fôlego de corredor de maratona. É o
momento em que nos lembra que não relaxou sua
vigilância, a nós que tantas vezes pretendemos
negá-la, e na vida de cada dia temos como fim último
nos distrair de sua existência. Nessas horas em que age
por atacado, ela chega com a exuberância de uma virtuose
de seu ofício, a fúria de um touro ao entrar na arena,
a fome de gols de um centroavante dopado. Feita sua obra,
deixa-nos embasbacados como diante de um acróbata do
impossível que, depois de um salto sobre o abismo, nos
dissesse: "Viram do que sou capaz?"
Os desaparecimentos
do ministro Sergio Motta e do deputado Luís Eduardo
Magalhães provam que, ao contrário do que se acredita,
o raio cai duas vezes no mesmo lugar. No caso, caiu duas
vezes no núcleo central do governo. A política
brasileira já experimentara, antes, a prova de que o
raio cai duas vezes no mesmo lugar. Não é raro
eleger-se um presidente e, antes mesmo da posse, sobrevir
seu desaparecimento? Pois aconteceu isso não só com
Tancredo Neves, em 1985, mas com Rodrigues Alves, em
1918. No âmbito da política baiana, o raio que agora
desaba o faz igualmente pela segunda vez. Não é também
raro um imbatível candidato a governador vir a
desaparecer subitamente, a pouco tempo da eleição? Isso
aconteceu em 1982 com o candidato Clériston Andrade, e
acontece agora com Luís Eduardo Magalhães. Comentando a
dupla perda para o presidente Fernando Henrique Cardoso,
disse o secretário de Direitos Humanos do governo, José
Gregori: "É como se tivesse ocorrido um desastre
aéreo". Diante dos desmandos da Grande Ilógica,
procura-se algum fiapo de lógica. Quando estão a bordo
do mesmo avião sinistrado, pelo menos, compreende-se que
duas pessoas desapareçam ao mesmo tempo.
A Grande Ceifadeira
não tem lógica nem discrimina. Ataca por igual os
tristes e os contentes, os justos e os tarados. "Por
que não eu?", dizia o senador Antonio Carlos
Magalhães. É a pergunta que todo pai se faz diante do
filho que vai embora. A Ceifadeira tem entre seus truques
mais brutais inverter as ordens de precedência. Leva o
filho antes do pai, o saudável antes do doente. É o
momento em que mais impressiona. É como se estivesse
bêbada ao volante, ou atirando no escuro. Nessas
ocasiões, está investida do papel de Grande Desordeira
e Grande Desordenadora. Os que têm fé religiosa
consolam-se imaginando não a desordem, mas uma ordem
misteriosa. "Creio porque é absurdo", dizia
Tertuliano, formulador do cristianismo nos primeiros
anos. Quem não tem fé fica só com a desordem.
Riobaldo, o herói
de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, em
sua luta para ter fé, dizia que algum
"norteado" tem de existir no mundo. "Se
não, a vida ficava sendo sempre o confuso dessa doideira
que é." Cadê o norteado dos eventos da semana
passada? Norteamo-nos, nesta era sem fé, pela sabedoria
da medicina. Um se foi porque nem ao balão de oxigênio
dava paz, e preferia arrastá-lo consigo a perder um
agito. Outro porque fumava muito. À falta de outra,
apegamo-nos à lógica da ciência. Como se, a todos que
fizessem isso, acometesse aquilo. Ou como se as
explicações tidas por científicas não pudessem
amanhã soar tão simplórias quanto soa hoje a cura à
base de sangrias.
A Grande Ilógica e
Grande Desordenadora é também a Grande
Desequilibradora. Estamos nós no aconchego do nosso
mundinho, acreditando na solidez do chão em que pisamos,
quando ela avança como um tornado e de repente,
fulminantemente de repente, vira tudo de cabeça para
baixo. Na tragédia, tanto quanto ela em si, espanta o
que acontece antes e o que acontece depois. Como
podíamos, antes, estar tão desprevenidos? Como pudemos
nos acreditar tão estáveis? Nesse sentido, a tragédia
como que nos desperta da anestesia da vida normal de cada
dia.
Depois da
tragédia, dos gritos de desespero e da sensação de
insegurança, acompanhados do pressentimento de que o
mundo jamais será o mesmo, é espantoso como aos poucos
ocorre o contrário: ele volta a ser o mesmo. As coisas
voltam a ficar de cabeça para cima. Impõe-se uma
sensação de ordem e, de novo, o drama sedante a que
chamamos rotina nos distrai "dela".
"Ela", a Inominável. "Ela" que,
além de Grande Ilógica e Grande Desordenadora, é
também a Grande Perversa. Sua segunda maior
perversidade, depois de aniquilar pessoas, é essa de
fazer o mundo voltar ao normal, a vida ser retomada, os
inesquecíveis serem esquecidos, e os insubstituíveis,
substituídos. É quando entram os versos do poeta
Fernando Pessoa:
Fazes falta? O
sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...
Sem ti correrá tudo sem ti.

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