| |
Professor aloprado
Romance
faz piada com a universidade
e seus eméritos mestres e doutores
Quem sempre achou que cultura acadêmica,
contestação estudantil dos anos 60, ética familiar ou
revolução sexual fossem temas profundamente sérios,
que se prepare para uma surpresa. O escritor inglês
David Lodge faz esses e outros temas sisudos dar piruetas
cômicas até se estatelar em tombos ridículos, de
arrancar gargalhadas. Sua intenção, é importante
destacar, não é desmerecer ou minimizar essas
experiências graves, mas apenas retirar-lhes a mística
que nos impede de reconhecer seus contornos mais humanos
e comezinhos. Justamente aqueles detalhes pequenos, mas
tão reveladores, que nos fazem sentir irmanados nesse
percurso terrestre da divina comédia de cada dia.
O enredo deste Invertendo
Papéis (Scipione Cultural; tradução de Lídia
Cavalcante-Luther; 288 páginas; 32 reais) é simples,
mas engendrado com admirável maestria. Trata-se da
história de dois professores universitários de
literatura inglesa, o americano Morris Zapp e o inglês
Philip Swallow, que, participando de um intercâmbio, se
mudam para o país um do outro durante seis meses. Como
do nosso ponto de vista eles são anglo-saxões, falam a
mesma língua e estudam os mesmos autores, tendemos a
achar que têm tudo em comum. Ledo engano. A distância
cultural entre ambos é maior que a extensão do
Atlântico que os separa.
Sexo, drogas e rock
Zapp é um típico exemplar do ambiente competitivo das universidades americanas,
com enorme capacidade de trabalho, objetivos bem nítidos, personalidade
dinâmica e um cálculo de tempo meticuloso para gerenciar o avanço de uma
carreira de sucesso. Já Swallow é dispersivo, relutante, travado pela
falta de estímulos financeiros e escassez de desafios do ambiente universitário
britânico. Um acidente os faz participar do intercâmbio, nenhum deles
queria sair de seu país. E, pior, o momento é o fim dos anos 60. As universidades
ardem sob as chamas da contestação no mundo todo. Claro que alguém tinha
de sair chamuscado.
O desenrolar do
enredo é um imbróglio irresistível, típico de
ópera-bufa. O sóbrio, casto e conservador professor
Swallow, assim que chega para assumir seu posto na
Universidade de Euforia (uma paródia da Universidade da
Califórnia, em Berkeley), já se vê envolvido numa
sessão de sexo grupal, drogas e rock'n'roll com seus
alunos que termina na cama com a filha de seu colega de
intercâmbio. Por seu lado, o impetuoso professor Zapp,
assim que se apresenta na Universidade de Rummidge (uma
versão caricata da Universidade de Birmingham), se sente
como um astronauta desembarcando na Idade Média, tão
estranho que até as crianças emudecem na sua presença
e as secretárias entram em crise de tremedeira.
Na tentativa de se
adaptar ao meio exótico, um e outro acabam se envolvendo
com as picuinhas locais, das fofocas de departamento à
convulsão estudantil, à política universitária, aos
confrontos com a polícia, à revolução de valores.
Tirando vantagem de suas condições de estrangeiros,
atuam como mediadores no grande confronto e acabam
virando heróis na mídia do país alheio. Em paralelo à
escalada da fama ocorre, naturalmente, a escalada da cama
e, em pouco tempo, estão convivendo com a mulher, os
filhos, a casa, as roupas e o carro do outro.
David Lodge
consegue aliar uma fina capacidade de observação das
minúcias que particularizam uma pessoa ou cultura com um
estupendo pendor para o absurdo. Já conhecido entre nós
pelo romance Terapia, lançado por aqui no ano
passado, ele é autor consagrado na Grã-Bretanha, com
obras premiadas e vertidas para a TV. Na condição de
católico, consegue perceber seu país como um observador
de fora, como o fizeram Graham Greene e Evelyn Waugh.
Ex-professor em Birmingham e na Califórnia, sabe do que
está falando. Gente como ele é a prova de que, se o
romance está vivo e se mantém, não é como gênero,
mas como expressão de genuíno talento.
Trecho
"Nos
Estados Unidos, não é difícil obter um diploma
universitário. O estudante é livre para
acumular os créditos necessários a seu
bel-prazer assim, enganar é fácil e não
existe muito suspense ou ansiedade quanto ao
produto final. Ele (ou ela) fica então livre
para direcionar suas atenções aos interesses
normais de um adolescente esporte, bebida,
farra, divertimento e o sexo oposto."
|
Nicolau
Sevcenko

|
|