A barreira final

Aparelho de barbear de três lâminas resolve
um grande desafio da engenharia industrial

Uma supermáquina será lançada nos Estados Unidos em julho. É um novo aparelho de barbear com três lâminas, o Mach3 da Gillette. No aspecto da funcionalidade, ele é tão simples e fácil de usar como dezenas de outros modelos encontrados nas prateleiras de supermercados. Do ponto de vista tecnológico é mais do que isso. As lâminas paralelas — fatias ultrafinas de carbono, quase da espessura de um fio de cabelo — são montadas sobre molas independentes. Permitem que o pêlo seja cortado progressivamente e deslizam sobre o rosto com a suavidade de um pincel. Durante 27 anos o barbeador de três lâminas foi considerado uma barreira intransponível pelos engenheiros. Era, para a arte de barbear, desafio equivalente à procura do elo perdido da teoria da evolução de Darwin, na biologia, ou a solução do último teorema de Fermat, na matemática. "O problema não era apenas acrescentar uma terceira lâmina", explica o engenheiro John Terry, do time que desenvolveu o produto. "Era preciso que as três lâminas corressem, uma após a outra, cada vez mais próximas da pele, de modo que capturassem o pêlo no ponto exato de corte." Uma solução encontrada foi prender as lâminas flutuantes pelas extremidades e não pelo centro. A Gillette não revela maiores detalhes.

Comparado ao velho aparelho de barbear inventado por King Camp Gillette, em 1903, o Mach3 representa um avanço supersônico. O projeto foi desenvolvido durante seis anos por uma equipe de mais de 500 engenheiros com diplomas no MIT e em Stanford, dois dos principais centros de pesquisa tecnológica do mundo. Da prancheta à fábrica, custou 750 milhões de dólares. É quase o investimento necessário para a criação de um modelo de automóvel e três vezes mais do que o consumido pelo antecessor do Mach3, o Sensor, primeiro barbeador com lâminas flutuantes, que levou vinte anos para chegar ao mercado. O desenvolvimento do novo produto foi cercado por um clima de mistério e segredo. Um espião industrial, que tentou vender um desenho esquemático do barbeador a um concorrente da Gillette, foi preso pelo FBI, a polícia federal americana, e condenado a dois anos e três meses de cadeia.

Barreira do som — A Gillette reservou uma verba de 300 milhões de dólares para a campanha de divulgação do novo barbeador no primeiro ano de seu lançamento. O objetivo é convencer o consumidor a gastar 35% a mais do que o modelo anterior na compra do novo produto, que deverá custar cerca de 7 dólares no mercado americano. O apelo do avanço tecnológico não fica apenas no nome Mach3, expressão que indica velocidade três vezes maior que a do som. Num dos comerciais do barbeador, um jato de guerra cruza a barreira do som — a Mach 1 — e desintegra-se ao passar pela Mach 2. As roupas do piloto são arrancadas e sua imagem funde-se à de um homem, num banheiro futurista, em cujas mãos uma lâmina vai pousando. "O consumidor que experimentar a Mach3 será conquistado para sempre", garante Alfred Zeien, diretor-presidente da Gillette. Por enquanto o produto está sendo testado por 300 voluntários em Boston, onde fica a sede da empresa. Na Gillette, um batalhão de cientistas já se ocupa de um novo lançamento previsto para 2006. É o primeiro grande segredo industrial do próximo século.

Evolução do corte

Navalha
A Navalha moderna foi criada no século XVIII pelo francês Jean Jacques Perret. Antes ela cortava dos dois lados e era mais perigosa
Gillette
A partir de um modelo em forma de T, já existente, King Camp Gillette lança o aparelho com lâminas intercambiáveis em 1903
Descartável
Setenta anos depois aparece o aparelho descartável. O modelo com duas lâminas paralelas foi lançado em 1972
Sensor
Lançado em 1993, o Sensor revolucionou o sistema de barbear, com lâminas de ação independente e cabeça móvel.

Fotos: Eduardo Pozella, SergioBerezovsky, Mari Queiroz




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