Modelo lusitano

A história de Fernão Lopes, o português
que inspirou Robinson Crusoé

 



 

A aventura de Robinson Crusoé, escrita por Daniel Defoe, é um dos livros mais populares do mundo. Lançado em 1719, é considerado o primeiro romance inglês moderno e continua inspirando roteiros de cinema ou televisão. Em virtude de um incidente bem documentado — Defoe foi acusado em vida de ter plagiado o relato de um certo Alexander Selkirk, um escocês abandonado numa ilha deserta da costa chilena —, sempre se deu como certa a origem britânica da idéia original. Uma pesquisadora portuguesa, Fernanda Durão Ferreira, encontrou pistas que levam noutra direção. "Crusoé é uma colcha de retalhos montada com histórias de navegantes portugueses dos séculos XV e XVI, muito populares na Inglaterra naquele tempo", afirmou a VEJA. A saga do náufrago solitário coincide em muitos aspectos com a história fabulosa de Fernão Lopes, um português que viveu em Santa Helena, então uma ilha deserta na costa meridional da África, e morreu em 1546.

Fernão Lopes foi condenado por traição na colônia portuguesa de Goa, na Índia, e sentenciado a uma pena crudelíssima, de acordo com os costumes da época: teve amputados a mão direita, o polegar esquerdo, o nariz e as orelhas. Ele e outros condenados foram então entregues às turbas, que os "depenaram e arrancaram quantas barbas tinham, até as sobrancelhas". Estropiado e humilhado, Lopes pegou um navio de volta para Portugal, mas desceu em Santa Helena, onde o barco parou para se abastecer de água. Com o tempo, o maneta tornou-se uma figura popular, quase um mascote das naus de passagem. Os marujos lhe deixavam biscoitos, roupas, queijos, sal, cabras e porcos. Sua história rendeu vários livros e ele próprio foi perdoado e recebeu uma renda vitalícia do rei dom Manuel I. A pesquisadora sustenta em livro, lançado em Portugal no ano passado, que Defoe leu esses relatos e os costurou em seu romance. As semelhanças são realmente espantosas. Fernão Lopes criava animais e plantava hortaliças. Robinson Crusoé também. O português tinha por companhia um homem negro e um galo, que fazia as vezes de animal de estimação. Crusoé tinha o criado Sexta-Feira e um papagaio.


Publicada pela primeira vez em 1719, a saga do náufrago Robinson Crusoé, escrita pelo inglês Daniel Defoe, é uma das obras literárias mais conhecidas, traduzidas e populares
da História

Há também similaridades entre o livro de Defoe e uma lista de autores lusitanos. "À medida que ia relendo o Crusoé, ia tropeçando em episódios que conhecia", disse Fernanda Ferreira a VEJA. "Eram relatos de viagem portugueses, por muito tempo a melhor fonte de informações sobre as terras descobertas na América, África e Ásia." Era natural que esses textos inspirassem outros escritores europeus. No caso de Defoe, contudo, a inspiração beira o plágio. A ilha imaginária onde Crusoé viveu, no Caribe, é cópia da Ilha de Goréia, na costa do Senegal, descrita pelos cronistas João de Barros, Valentim Fernandes e Gomes de Azurara, até hoje notáveis fontes dos historiadores. Crusoé repete "ai, pobre de mim", a mesma lamúria de um português no livro A Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto. Até Os Lusíadas, de Luís de Camões, entrou na receita de Defoe: o pai de Crusoé se opõe à sua viagem como o ancião que protesta pela partida de Vasco da Gama.

Ao longo do romance, Defoe deixou pistas de sua inspiração, como a profusão de referências que faz a Portugal. Robinson Crusoé é salvo por uma nau lusitana, passa um tempo em Lisboa, percorre a costa do Brasil-Colônia e não poupa elogios ao navegante português, "homem amável, de envergadura física e moral, conhecedor de terras e mares longínquos". O próprio Crusoé parece dar dica das fontes de Daniel Defoe quando conta que encontrou na carcaça do barco afundado "três Bíblias muito boas que me tinham enviado da Inglaterra (...) e alguns livros portugueses".

José Sacchetta




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