Edição 1949 . 29 de março de 2006

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Um Dia de Cão: reflexão sobre a era da mídia


Um Dia de Cão
(Dog Day Afternoon,
Estados Unidos, 1975. Warner) – O entregador de pizza – aquela figura indefectível de todo assalto a banco com reféns cansados e famintos – acena para a câmera de televisão que um repórter enfia em sua cara e comemora: "Ei, sou um astro!". É exatamente esse o ponto a que o diretor Sidney Lumet quer chegar: na era da mídia, um roubo que deveria durar dez minutos se arrasta por horas porque todos os envolvidos no show, dos assaltantes aos reféns e policiais, estão intoxicados pela sensação de ser o centro das atenções. Com atuações antológicas de Al Pacino e do seu parceiro de O Poderoso Chefão, o grande John Cazale (que morreria não muito depois, em 1978), Um Dia de Cão é uma das obras-primas do vibrante cinema americano dos anos 70. Ou, para falar a verdade, de qualquer década.

Desafiando os Limites (The World's Fastest Indian, Nova Zelândia/Estados Unidos, 2005. Focus) – Em 1967, pilotando uma lata-velha de 1920, o sexagenário Burt Munro estabeleceu um recorde de velocidade para motos abaixo de 1.000 cilindradas que até hoje ninguém conseguiu derrubar. O filme do diretor Roger Donaldson, de Sem Saída, é uma celebração saborosa e bem-humorada da criatividade tipicamente neozelandesa de Munro, um vovô viciado em velocidade que saiu do seu barracão de ferramentas na minúscula Invercargill para entrar na história como o piloto mais pobre, teimoso e boa-praça de que se tem notícia. É também o primeiro trabalho em muito tempo em que Anthony Hopkins mostra aquela centelha que fez dele um ator tão prestigiado.

 

DISCOS

Road to Rouen, Supergrass (EMI) – Em 1995, o Supergrass despontou nas paradas com a canção Alright. Ela tinha uma levada engraçadinha de piano e um clipe em que os integrantes da banda faziam palhaçadas. Muitos críticos suspeitaram que eles não iriam durar mais do que um verão. Porém, o Supergrass refinou seu som e ampliou em muito suas referências, pesquisando instrumentos e a tradição do folclore inglês. Tudo isso aparece em Road to Rouen, quinto disco da banda. Canções como a instrumental Coffee in the Pot e a balada St. Petersburg certamente vão chamar atenção nas apresentações que o Supergrass logo fará no Brasil.

Cruel, Sérgio Sampaio (Saravá Discos) – O capixaba Sérgio Sampaio participou de Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta: Sessão das Dez (1970), o primeiro disco-solo de Raul Seixas, e dois anos depois estourou nas rádios brasileiras com a canção Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua. Seus trabalhos posteriores não repetiram o sucesso da música de estréia e Sampaio acabou no ostracismo. Ele morreu em 1994, no início da gravação de um disco de canções inéditas. O CD está chegando às lojas por iniciativa do cantor Zeca Baleiro, fã declarado de Sampaio. O disco tem catorze faixas. Duas delas – a faixa-título e Rosa Púrpura do Cubatão – foram gravadas por Luiz Melodia e pelo próprio Baleiro. Sampaio era intérprete e letrista inspirado, como mostram os sambas Polícia Bandido Cachorro Dentista e Pavio Curto.

Siberia, Echo and the Bunnymen (Indie Records) – De 1978 a 1988, esse quarteto reinou na cena alternativa da Inglaterra. O Echo tinha como atrativos o carisma de Ian McCulloch, cantor e letrista, e Will Sergeant, guitarrista de poucos solos mas bastante inventivo. Eles retomaram as atividades em 1997 e Siberia é seu melhor disco desde então. McCulloch não alcança os graves e agudos de outrora, mas compensa na interpretação. Sergeant brilha como de costume – ouça as guitarras contagiantes de Parthenon Drive. All Because of You Days e Stormy Weather, duas baladas de cortar o coração, são outros destaques do CD.

 

LIVROS

A Morte de um Estranho, de Andrei Kurkov (tradução de Nivaldo Santos; A Girafa; 288 páginas; 42 reais) –.Logo na primeira página desse romance, o leitor é informado de que o protagonista, Viktor, tem um pingüim de estimação, adotado quando o zoológico de Kiev, em crise financeira, distribuiu seus animais famintos. Esse é um dos detalhes mais corriqueiros na esquisita história criada pelo autor ucraniano. Escritor frustrado, Viktor ganha a vida redigindo necrológios de figuras famosas para um jornal. Para se antecipar a qualquer eventualidade, faz textos sobre personalidades que estão vivas, inventando fantasiosas causas para cada morte. A história ganha cores bizarras quando as mortes imaginadas por Viktor começam a acontecer de fato, como se ele produzisse o roteiro para uma gangue de assassinos. Leia trecho.

 

W.W. Norton, Joyce Ravid/AP
Nicole Krauss: livro dentro do livro  

A História do Amor, de Nicole Krauss (tradução de Paulo Schiller; Companhia das Letras; 316 páginas; 45 reais) – Em seu segundo romance, a americana Nicole Krauss – mulher do também escritor Jonathan Safran Foer – recorre a um expediente bastante comum na literatura contemporânea: o livro dentro do livro. Mas ela soube usar esse velho recurso com competência. O romance acompanha a trajetória de um livro fictício chamado A História do Amor. Escrita por um judeu polonês, a obra professa uma curiosa teoria sobre diferentes eras da evolução humana, na qual se incluiria uma Era do Silêncio, quando as pessoas conversavam apenas com gestos. O livro é um fracasso – da tiragem inicial de 2.000 exemplares, só um sobrevive. Esse único livro, porém, altera a vida de todos os que o lêem. Leia trecho.

 

EXPOSIÇÃO

Divulgação
O poeta Aretino, segundo Ticiano


Luz e Sombra na Pintura Italiana entre o Renascimento e o Barroco
(de 29 de março a 30 de abril na Pinacoteca de São Paulo; de 4 de maio a 8 de junho no Paço Imperial) – Organizada a partir do gigantesco acervo do italiano Luigi Koelliker, essa mostra reúne 65 telas de grandes mestres da pintura européia. O forte são os retratos, e Ticiano a espinha dorsal da seleção. Ele comparece com três quadros de períodos e concepção diversa – uma representação intimista do poeta Pietro Aretino, ao lado de imagens mais solenes de nobres italianos. Os muitos caminhos pelos quais a arte renascentista e barroca explorou a luz e a sombra, refletiu sobre o poder mundano e procurou desvendar a vida interior de seus retratados podem ser apreciados nas telas de pintores tão célebres quanto Veronese, Lorenzo Lotto, El Greco e Van Dyke. Embora essa mostra não traga, a rigor, obras-primas – aquele tipo de quadro que transformou a história da arte –, a qualidade das pinturas é elevada. Um programa imperdível. Veja galeria de imagens.

 

Fontes: São Paulo: Cultura, Laselva, Saraiva, Livraria da Vila, Fnac, Nobel; Rio: Travessa, Saraiva, Laselva, Sodiler, Argumento; Porto Alegre: Saraiva, Cultura; Brasília: Sodiler, Saraiva, Leitura; Recife: Sodiler, Saraiva, Cultura; Natal: Sodiler; Florianópolis: Livrarias Catarinense; Goiânia: Saraiva, Leitura; Fortaleza: Laselva; Curitiba: Saraiva, Livrarias Curitiba; Londrina: Livrarias Porto; Belo Horizonte: Leitura; Maceió: Sodiler; Belém: Clio; Vitória: Leitura; Campo Grande: Leitura; internet: Cultura, Laselva, Leitura, Nobel, Saraiva, Fnac, Sodiler, Submarino.

 
 
 
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