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Livros
Os ladrões criativos
Dizem que a história da literatura
é uma enorme sucessão de roubos.
Dan Brown também fez o seu

Jerônimo Teixeira
Na semana passada, em Londres,
concluiu-se o processo em que o romancista americano Dan Brown é
acusado de plagiar um ensaio histórico Holy Blood,
Holy Grail (Sangue Sagrado, Cálice Sagrado), assinado
por Henry Lincoln, Michael Baigent e Richard Leigh na redação
do best-seller O Código Da Vinci. Lincoln não
entrou na disputa, mas os outros dois autores querem reparação.
Alegam que O Código Da Vinci roubou a proposta central
ou, como eles preferem, a "arquitetura" de seu texto:
a idéia de que Jesus teve filhos com Maria Madalena e de
que a descendência do casal, protegida por uma irmandade secreta,
se estenderia até os dias de hoje. Em um lance teatral da
acusação, Brown foi confrontado com seu próprio
exemplar de Holy Blood. O estado do livro, gasto e com anotações
nas margens, deveria provar que ele devorou a obra enquanto escrevia
o seu thriller. Uma sentença contrária a Brown poderá
suspender o comércio de um livro que já vendeu 40
milhões de exemplares no mundo todo e ainda prejudicar o
lançamento, em maio, do filme de Ron Howard baseado na obra.
Embora as sessões de provas
já estejam encerradas, o juiz Peter Smith só deve
dar sua decisão em abril. A maioria dos especialistas aposta
que a sentença vai ser favorável a Brown. Segundo
a doutrina mais aceita no direito autoral, o que deve ser protegido
é a forma de uma obra, e não suas idéias. Ou
seja, o processo contra Brown só teria sentido se ele houvesse
copiado trechos de Holy Blood, o que não ocorreu.
"Nem sequer existe uma definição jurídica do
que seja plágio", diz a advogada Eliane Yachouh Abrão,
que preside a Comissão Especial de Propriedade Imaterial
da OAB de São Paulo.
Nos meios literários,
a idéia de que a história da literatura nada mais
é do que uma sucessão de "roubos" é comum.
Os exemplos seriam infindáveis. Shakespeare buscava material
para suas peças em obras de Ovídio e Chaucer, em lendas
italianas e crônicas históricas inglesas, entre outras
várias fontes. Do pensador francês Pascal, já
foi dito que escrevia com um volume dos Ensaios de Montaigne
aberto na sua frente, tal a profusão de citações
e apropriações que fazia daquela obra. O poeta francês
Charles Baudelaire roubou alguns versos do americano Edgar Allan
Poe. O brasileiro Gonçalves Dias decalcou sua famosa Canção
do Exílio de um poema do alemão Heine. Essa tendência
ancestral ao plágio criativo passou a ser ainda mais valorizada
pelo chamado pós-modernismo, com sua ênfase no pastiche
e na paródia. E a crítica literária contemporânea
tem se mostrado sensível a esse fenômeno, contemplado
nas mais diversas teorias, da "intertextualidade" da búlgara
Julia Kristeva à "angústia da influência" do
americano Harold Bloom. Dan Brown, com sua literatura de aeroporto,
não joga na mesma divisão dos autores citados acima
mas não há por que negar seu direito ao mesmo
tipo de "empréstimo" praticado pelos gênios.
Nada disso quer dizer que o plágio
simplesmente não exista. Há casos que são evidentes.
Em 2002, poucos meses antes de sua morte, o renomado historiador
americano Stephen Ambrose teve de pedir desculpas em público
por ter-se "esquecido" de dar os créditos a pesquisadores
cujas obras havia citado extensamente. Nem mesmo aspas Ambrose colocava.
A tradução também é um campo propício
a fraudes. Há dois anos, descobriu-se que a tradução
de Oblomov, do russo Ivan Gontcharov, publicada pela editora
paulista Germinal, não era de Juliana Borges (filha do dono
da editora), como informava o crédito. Era uma cópia
da tradução de Francisco Inácio Peixoto publicada
em 1966. No ano passado, a editora Globo recolheu e destruiu uma
edição de 2003 de Um Gosto e Seis Vinténs,
romance do escritor inglês Somerset Maugham. Havia a suspeita
de que a tradução do poeta Rodrigo Petronio era uma
contrafação de uma versão anterior produzida
por Rosane Maria Pinho. Petronio jura que só tomou conhecimento
da tradução de Rosane quando estava para entregar
seu trabalho à Globo. Mas as coincidências entre os
textos são imensas. Há parágrafos inteiros
quase idênticos, com poucas mudanças na ordem das palavras
ou em um ou outro termo. Até os erros são iguais.
A Globo ainda não decidiu se tomará medidas judiciais
contra Petronio. Mas o caso já repercutiu na Universidade
de São Paulo, onde o tradutor, até o ano passado,
cursava um doutorado em letras. Uma comissão interna de especialistas
comparou tecnicamente as duas traduções e chegou à
conclusão de que o trabalho de Petronio é uma raridade:
um legítimo plágio literário.
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ORIGINALIDADE EM DISPUTA
Alguns casos recentes em que
houve suspeita de plágio literário
OBRA CONTESTADA
O thriller O Código Da Vinci, do americano
Dan Brown, utiliza a idéia de que Jesus
Cristo e Madalena se casaram e geraram descendência
A SUPOSTA FONTE
Holy Blood, Holy Grail, de Michael Baigent,
Richard Leigh e Henry Lincoln, é uma pesquisa
pretensamente "séria" sobre a descendência
de Jesus
O CASO
Baigent e Leigh estão processando Brown
por plagiar suas idéias. O julgamento encerrou-se
na semana passada, em Londres, mas o juiz ainda não
chegou a uma decisão
Louis M. Lanzano/AP
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OBRA CONTESTADA
Sucesso internacional, a série Harry
Potter, da britânica J.K. Rowling,
narra as aventuras de um bruxo mirim
A SUPOSTA FONTE
The Legend of Rah and the Muggles, da americana
Nancy Stouffer, tem um personagem chamado Larry Potter
O CASO
Em 2002, Nancy processou Rowling pelo uso de nomes e
termos criados em seu livro. Uma corte de Nova York
deu ganho de causa a Rowling. E ainda multou Nancy por
má-fé
OBRA CONTESTADA
A Cruz de Santo André, do Nobel espanhol
Camilo José Cela, mistura várias
histórias de derrocada familiar, culminando no
suplício do personagem principal na cruz
A SUPOSTA FONTE
Primeiro livro de Carmen Formoso, Carmen, Carmela,
Carmiña teria temas e personagens semelhantes
aos do romance de Cela
O CASO
Carmen inscreveu seu livro inédito em um concurso
promovido por uma editora, que teria, segundo ela, fornecido
o original para que Cela o copiasse. Uma corte de Barcelona
julgou a queixa improcedente e arquivou o processo em
2003
Ulf Andersen/Getty Images
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OBRA CONTESTADA
A Vida de Pi, do canadense Yann Martel,
narra a história de um garoto indiano que, depois
do naufrágio de seu navio, divide um bote com
um tigre feroz
A SUPOSTA FONTE
Em Max e os Felinos, do brasileiro Moacyr Scliar,
um rapaz alemão também passa por um naufrágio
e divide um bote com um jaguar
O CASO
O suposto plágio ganhou evidência depois
de Martel vencer o prestigioso prêmio Booker,
em 2002. O autor, porém, admitiu ter retomado
a idéia original de Scliar e telefonou
ao autor brasileiro para pedir desculpas
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