Edição 1949 . 29 de março de 2006

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Ameaçado pela volta da inflação, Kirchner
lança mão de congelamentos e estatizações


José Eduardo Barella


AFP
Marcos Brindicci/Reuters
Kirchner (no alto) congelou preços e convocou piqueteiros a fiscalizar o comércio (acima). Abaixo, mensagem na porta de um supermercado de Buenos Aires
Fabian Gredillas/AFP

Muitos governantes podem justificar os resultados desastrosos de suas iniciativas com o argumento de que lhes faltaram informações ou bons exemplos na hora de tomar a decisão. Néstor Kirchner não poderá usar essa desculpa. Para segurar os preços que teimam em subir, o presidente argentino adotou uma receita antiinflacionária com resultados desastrosos no passado. Nos anos 80, como Kirchner está fazendo agora, a Argentina (e também o Brasil) tentou revogar por decreto a lei da oferta e da procura. O resultado foram prateleiras vazias, filas nos supermercados e, quando os preços foram liberados, hiperinflação. Na semana passada, depois de longa queda-de-braço com uma concessionária francesa que se revoltara contra o congelamento de tarifas em vigor desde 2002, Kirchner reestatizou a empresa de água e esgotos de Buenos Aires. No início do mês, para aumentar a oferta e reduzir o preço da carne no mercado interno, ele proibiu a exportação do produto por seis meses. O presidente também obrigou os supermercados a congelar por um ano o preço de alguns produtos da cesta básica. "Quando um presidente se vê na posição de interferir pessoalmente no preço do pão ou da carne é sinal de que o país caminha para o desastre", disse a VEJA o economista argentino Dante Sica, do Centro de Estudos Bonaerense, em Buenos Aires.

O aumento da inflação, que dobrou de 6,1% para 12,3% no ano passado, é o ônus que a Argentina paga por estar vivendo um dos períodos de maior expansão econômica das últimas décadas. A taxa anual média de crescimento foi de 8% nos últimos três anos. Desde 2002, o índice de desemprego diminuiu 40% e a renda per capita aumentou 69%. Os argentinos, no entanto, estão longe de recuperar o padrão de vida anterior à crise de 2001 e 2002, que jogou um terço da população na pobreza. "O crescimento atual da economia, apesar de robusto, tem fôlego curto porque o país não está recebendo novos investimentos", disse a VEJA o economista Luciano Laspina, da consultoria Macrovision, de Buenos Aires. Desde o calote da dívida externa, a Argentina é vista com desconfiança pelos investidores estrangeiros. O populismo econômico de Kirchner – que inclui o incentivo oficial a um boicote à Shell por ter aumentado o preço dos combustíveis – só piora a imagem do país.

As bravatas econômicas, por outro lado, encantam os argentinos. A popularidade do presidente ultrapassa os 60%. Candidato à reeleição em 2007, Kirchner deverá fazer de tudo para manter a economia aquecida e a inflação sob controle. A estratégia para isso é improvisar intervenções do Estado na economia conforme os problemas vão aparecendo. O governo já subsidia a água, a luz, o telefone, a tarifa dos transportes públicos e a gasolina. Ao contrário do Brasil, que usa uma taxa de juro elevada como instrumento de controle da inflação, os juros reais na Argentina são mantidos abaixo da inflação para estimular o consumo. A intervenção no preço da carne é emblemática por mostrar como a mão do Estado na economia pode trazer resultados contraditórios. O governo argentino, que precisa das exportações para aumentar suas receitas em moeda forte, abriu mão dos dólares para fazer crescer a oferta no mercado interno. Como o preço do produto não baixou de imediato, o presidente iniciou um boicote aos produtores, proibindo a compra de carne vermelha pelos órgãos públicos e convocando os argentinos a fazer o mesmo.

A principal distorção da economia argentina é que o setor produtivo – incluindo o de pecuária – não cresce na mesma proporção que a demanda, o que ajuda a pressionar a inflação para cima. "Kirchner cometeu, no caso da carne, erro semelhante ao de quando tentou controlar o preço da gasolina para segurar a inflação. Os investimentos das empresas estrangeiras minguaram, e as importações de combustíveis aumentaram mais que o previsto em 2005", diz o economista argentino Roberto Cachanosky. A política econômica argentina começou a perder o rumo depois da saída de Roberto Lavagna, o ministro da Economia que deu estabilidade ao país. Lavagna foi substituído no fim do ano passado por Felisa Miceli, economista cuja principal qualificação para o cargo é a fidelidade ao presidente. Quem assumiu o leme da economia de fato foi o próprio Kirchner. Com os resultados que aí estão.

 
 
 
 
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