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Brasil 40
questões do dia-a-dia sobre o que é certo ou errado  Jerônimo
Teixeira
Montagem
sobre foto de Pedro Rubens e ilustração Hector Gomez
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Quando o
fantasma do rei aparece, no primeiro ato de Hamlet, o personagem Marcelo,
um cidadão comum, observa: "Há algo de podre no reino da Dinamarca".
O raciocínio embutido na frase, uma das mais famosas do teatro de William
Shakespeare, é recorrente na história humana e o Brasil pode
estar vivendo um momento semelhante agora. O rei é um símbolo. Se
ele virou alma penada, é sinal de que o país inteiro está
doente. Mergulhado numa crise política que já se arrasta por onze
meses, e ainda está longe de se esgotar, o Brasil começa a flertar
perigosamente com aquilo que se poderia batizar de "síndrome de Marcelo":
a tese de que governo e sociedade são igualmente corruptos e coincidem
na desorientação moral. Se não bastassem todas as mentiras
e escândalos em torno do mensalão, outras notícias reforçam
a impressão de que os pilares da ética desmoronaram no âmbito
institucional: um general interrompe a decolagem de um avião e tira dois
passageiros do vôo para embarcar com sua mulher; o Exército negocia
com traficantes para reaver armas roubadas; juízes defendem com unhas e
dentes a prática do nepotismo e fazem greve para preservar vantagens econômicas
desproporcionadas.... Será que essa lassidão
moral nas camadas superiores da hierarquia política do país se espalha
pelo tecido social? Será que os deslizes do cotidiano, por sua vez, impedem
que se enxerguem em sua plenitude os desmandos dos governantes? São questões
interessantes para cujo estudo o Brasil é hoje um laboratório quase
perfeito. Não existem respostas fáceis. Os intelectuais tendem a
acreditar na pureza natural do povo e na corrupção mandatória
de qualquer governante ou membro da elite de um país. Será assim
mesmo? "O problema está em nós. Nós como povo. Nós
como matéria-prima de um país", escreveu recentemente o cronista
João Ubaldo Ribeiro sobre o tema da corrupção. Ver defeitos
no povo não é a regra. João Ubaldo é exceção.
Não há dúvida de que a ética dos governantes se inter-relaciona
de alguma forma com a ética dos cidadãos. Essa relação
é muito complexa. Beto
Barata/AE
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DANÇA DA IMPUNIDADE Na semana passada,
depois que seu colega petista João Magno escapou da cassação,
a deputada Angela Guadagnin ensaiou uma dança comemorativa no plenário
da Câmara. Magno recebeu mais de 400 000 reais do valerioduto. O escândalo
que foi sua absolvição deveria ser recebido em silêncio, mas
Angela achou por bem festejar. Foi um retrato grotesco do cinismo na política
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É possível que
um povo dotado de rígidos padrões de conduta moral, com forte base
religiosa e predominância mundial na filosofia e na música erudita
se acumplicie com um governo de loucos assassinos? A Alemanha nazista é
uma prova recentíssima de que a resposta à pergunta acima é,
apavorantemente, sim. Por outro lado, é possível que um povo, tendo
passado 75 anos sob um regime de quase-escravidão, submetido a uma potência
estrangeira e a uma ideologia desanimadora e cruel, possa em poucos anos voltar
ao caminho da prosperidade, do progresso social e tecnológico? Aqui a resposta
também é sim. O exemplo são os países do Leste Europeu,
os satélites soviéticos que, uma vez livres da repressão,
se tornaram nações progressistas e de enorme ebulição
econômica e avanço social. Qual o ponto em comum entre os dois exemplos
extremos? Em ambos os casos, as guinadas, para o mal ou para o bem, foram feitas
inicialmente por meia dúzia de líderes titanicamente capazes. Os
povos seguiram os ordenamentos vindos de cima. O que isso significa? Significa
que para o bem ou para o mal o povo, em sua condição coletiva, pode
ser levado para um lado ou outro pelas suas lideranças independentemente
das convicções individuais de cada uma das pessoas. Significa também
que o exemplo que vem de cima é crucial. Se ele é bom, incentiva
o bom comportamento individual. Se são maus os exemplos, mais as pessoas
vão se sentir liberadas para recorrer a "jeitinhos" e "tirar vantagens".
Na semana passada, o Ibope divulgou os resultados
de um estudo intitulado "Corrupção na política: eleitor vítima
ou cúmplice?". Duas mil pessoas foram entrevistadas ao longo do mês
de janeiro, e as conclusões são incômodas. Quase 90% dos entrevistados
declararam que os políticos brasileiros agem pensando apenas em seu próprio
benefício, e 82% dizem que a classe política brasileira em geral
é corrupta. Para 95% dos entrevistados, superfaturar obras públicas
ou desviar recursos do governo para fins próprios são práticas
inaceitáveis, e 89% consideram o caixa dois igualmente inadmissível.
As coisas se confundem na segunda parte do levantamento. De maneira abstrata,
o brasileiro se acha melhor do que os políticos que o representam: 64%
consideram que o povo, em geral, é honesto. Ao mesmo tempo, 75% dos entrevistados
admitiram que, se eleitos para um cargo público, poderiam "cair na tentação"
de se locupletar. E 98% afirmaram que pessoas de suas relações já
praticaram pelo menos um ato condenável como pagar suborno para
escapar de uma multa, apresentar atestados médicos falsos ou consumir produtos
piratas. Os resultados da pesquisa revelam uma dicotomia: a população
repudia firmemente a corrupção, mas comete e tolera desonestidades.
Constatações desse tipo não
são propriamente uma novidade. As ciências sociais brasileiras têm
uma longa tradição de análise desse paradoxo. No clássico
Raízes do Brasil, de 1936, Sérgio Buarque de Holanda usou
a expressão "homem cordial" para designar a tendência do brasileiro
de se guiar sempre por princípios familiares e afetivos, mesmo no trato
de questões que deveriam exigir uma postura distanciada e abstrata. O antropólogo
Roberto DaMatta retoma e atualiza esse raciocínio ao falar de uma "ética
da casa", que coloca os interesses privados à frente de tudo o mais e só
reconhece direitos a quem é parente, amigo ou companheiro. A implicação
mais evidente dessa tendência a tratar o Estado como se fosse uma extensão
da própria casa é o nepotismo. Mas, em certa medida, a corrupção
também é determinada por ela. O escritor argentino Jorge Luis Borges,
em um ensaio irônico sobre seus compatriotas, deixou uma nota que poderia
valer para o Brasil: "O Estado é impessoal; o argentino só concebe
uma relação pessoal. Por isso, para ele, roubar dinheiro público
não é crime". A pesquisa do Ibope
e argumentos desse tipo parecem dar razão aos que pensam que o público
e o privado estão numa relação inextricavelmente doentia
no Brasil. O antídoto contra o pessimismo é a história recente
de conquistas institucionais do país. Contrariando o que disse Sérgio
Buarque de Holanda numa das passagens mais amargas de Raízes do Brasil,
a democracia já deixou de ser um mero "mal-entendido" no país.
Até as tradições do homem cordial vão sendo, aos poucos,
derrotadas o fim do nepotismo no Judiciário é um bom exemplo
disso. Numa democracia, além disso, a idéia de que sociedade e governo
são a mesma coisa não se sustenta. Ela pertence a outras realidades.
O mais chocante nas transgressões atuais
do governo é o fato de que elas são um ataque organizado à
ética pública. "O partido que prometia ser republicano e anunciava
um governo transparente reitera os velhos costumes dos coronéis. É
um escândalo", diz o filósofo Roberto Romano, da Unicamp. Na infame
entrevista de Paris, o presidente Lula tentou desculpar o caixa dois com o argumento
de que essa contabilidade alternativa é uma praxe antiga no Brasil. Diante
dos fatos que vão derrubando seus auxiliares mais próximos, ele
mantém o discurso de que nunca soube da corrupção. Os deputados
pegos com a mão no valerioduto defendem-se com a teoria de que "só
tomaram o dinheiro para pagar dívidas de campanha", como se a finalidade
dada a recursos ilícitos de algum modo os tornasse menos sujos. E o argumento
é aceito no Congresso. O cinismo diante dos descalabros políticos
ganhou sua imagem exemplar na semana passada, com a grotesca dancinha com que
a deputada Angela Guadagnin comemorou a não-cassação do seu
colega mensaleiro João Magno. Não
há argumento que permita desculpar as contravenções que os
brasileiros cometem no dia-a-dia muito menos o de que o mau exemplo vem
de cima. Assim como os desmandos petistas, as sonegações, as trapaças
e mesmo aqueles gestos que não são contra a lei, mas quebram a civilidade,
são um atraso para o país. Mas imaginar que em algum momento futuro
os dilemas éticos vão sumir é irreal. Os conflitos de moralidade
são um dos grandes temas do pensamento contemporâneo. Sua expressão
mais dramática está nas falas do papa Bento XVI. Em sua carreira
de teólogo, ele sempre atacou o relativismo a teoria de que não
existem critérios éticos absolutos. "Caminhamos para uma ditadura
do relativismo, que faz do ego e dos desejos de cada indivíduo a medida
de todas as coisas", disse ele pouco antes de ser eleito sucessor de João
Paulo II. Bento XVI gostaria de restaurar a lei divina como parâmetro da
justiça, mas as alternativas à doutrina religiosa são inúmeras
no mundo atual. Em meio ao cipoal de teorias, realizar
escolhas éticas é ainda problemático. O jornal americano
The New York Times criou uma seção semanal, meio séria,
meio humorística, dedicada a discuti-las. "Se todas as pessoas consultassem
o jornal antes de cometer uma estripulia, o mundo ficaria bem melhor", brinca
Randy Cohen, titular da coluna O Eticista. Na ética cotidiana, chegar
ao certo ou ao errado depende da reflexão contínua. Alguns temas,
como o do aborto, da eutanásia, do casamento homossexual e da clonagem,
são verdadeiros campos de batalha. Mas a concordância em torno de
muitos valores também cresce. A discriminação por sexo ou
raça, por exemplo, é hoje universalmente condenada e não
era assim há menos de um século. Não há por que acreditar
que o fim do mundo está à vista. A seguir, VEJA propõe quarenta
questões éticas do cotidiano e arrisca-se a dar as respostas. Leia-as
como nossa opinião, baseada no senso comum e na orientação
de filósofos e professores de ética. Divirta-se. Ética
cotidiana Todos os dias, no noticiário, lêem-se
denúncias de corrupção e atos criminosos por parte de políticos
e governantes. Essa situação torna desculpáveis as pequenas
transgressões que os cidadãos cometem no dia-a-dia? De forma
nenhuma. É execrável que figuras públicas ou eleitas pelo
voto popular não sejam nem a sombra do exemplo ético e moral que
se espera que elas sejam. O fato de haver criminosos ou suspeitos em altos postos
da hierarquia política só aumenta a responsabilidade pessoal dos
cidadãos de bem. Pedir ao avô
ou a uma amiga grávida que compre ingressos na fila preferencial é
passar os outros para trás? Sim. O avô ou a amiga grávida,
a seu pedido, estará aumentando o número de pessoas em uma fila
que, de outro modo, seria menor. Pagar
a alguém para ficar na fila no seu lugar ou pedir esse favor a um amigo
prejudica os demais? Não prejudica. O que conta em uma fila é
o número de pessoas que estão nela. A troca de uma pessoa por outra
não altera o resultado final do incômodo. Consumir
produtos importados de países que comprovadamente usam mão-de-obra
escrava equivale a aprovar essa prática? Pior do que isso. Equivale
a financiar essa prática. Evitar esses produtos é a coisa certa
a fazer mesmo que isso não sirva para punir economicamente o explorador
, pois outras pessoas vão continuar a comprá-los.
Um
motorista profissional que precisa da carteira de habilitação para
sobreviver e alimentar mulher e filhos recebe uma multa que implica a perda do
direito de dirigir. É ético ele pedir à mulher que assuma
a responsabilidade pela multa? Eis um dilema. Mas a resposta é não.
O acúmulo de multas, assumindo que os guardas de trânsito agiram
corretamente, mostra que ele não é um motorista responsável.
Portanto, do ponto de vista do bem comum, o certo é impedi-lo de dirigir.
O ideal seria que, nesses casos, o Estado tivesse mecanismos de amparo à
família do motorista e oferecesse um curso de reeducação
para o trânsito no prazo máximo de uma semana após a perda
da habilitação. Uma gravadora
anuncia que não tem planos para lançar no Brasil determinado DVD.
Esse mesmo DVD é vendido em cópias piratas. Nesse caso, é
ético recorrer ao mercado negro? É quase irresistível,
mas a resposta é não. Comprar o DVD em questão estimula a
pirataria, atividade que concentra renda nas mãos de bandidos, destrói
empregos formais e empobrece as pessoas honestas. Os
brasileiros trabalham quatro meses por ano para pagar impostos que serão
desperdiçados por gestores incompetentes ou vão parar, em parte,
no bolso de corruptos. Portanto, obter um desconto no consultório médico
aceitando a proposta de pagar "sem recibo" é não apenas uma vantagem
pessoal, mas também vingança contra o governo. Certo? Certamente
é as duas coisas. Mas é também um claro atentado à
ética. Não se combate a corrupção com corrupção.
A maneira de protestar contra governos que gastam demais e políticos desonestos
é nas urnas. Pode demorar e ser pouco eficiente, mas é assim que
se constrói um país. Mas
o valor que se paga em impostos não é devolvido na forma de benefícios.
Não é realmente legítimo buscar atalhos para diminuir a carga
tributária pessoal? Não, porque o Estado vai obstinadamente
buscar a quantia de que precisa para pagar o serviço de sua dívida
e financiar seu funcionamento. Portanto, quem paga menos vai sobrecarregar quem
paga corretamente. Vai penalizar a vítima e não o culpado, o Estado.
Procurar atalhos legais para diminuir o valor do imposto a pagar é correto.
Registrar um imóvel por um valor mais
baixo para escapar dos impostos é prática corriqueira no Brasil.
Isso é aceitável? O certo é pagar os impostos pelo
valor exato da transação. Proteste nas urnas escolhendo candidatos
com planos viáveis de baixar tributos. Organize passeatas contra os impostos
altos, junte-se a grupos que já protestam... Avançar
o sinal vermelho à noite, quando quase não há movimento,
aumenta a segurança contra assaltos. Isso é correto? Sim.
Como lembra Ubirajara Calmon Carvalho, professor de filosofia da Universidade
de Brasília, "as regras foram feitas para o ser humano, e não o
contrário". Nesse caso específico, fica a critério do motorista
proceder da maneira mais segura para ele e para os outros. É
certo avançar na faixa mesmo quando não há pedestres passando? De
dia, não. De madrugada, diminua a marcha, observe com cuidado redobrado
e atravesse. Usar o telefone da empresa
para interurbanos particulares é uma maneira de economizar. Mas isso é
aceitável? Isso é furto. Equivale a abrir o cofre da empresa
e enfiar a mão em um maço de dinheiro. Salário baixo, mesquinhez
patronal ou más condições de trabalho não justificam
esses pequenos expedientes. É
melhor ter meninos malabaristas, engolidores de fogo e vendedores de balas nos
cruzamentos das grandes cidades do que tê-los assaltando, certo? Não.
As duas coisas não são excludentes. O mais útil para a sociedade
é que os meninos e meninas estejam na escola estudando, sendo alimentados
e orientados. Mas a caridade individual não deve ser regulada por uma ética
coletiva. Ela pertence àquela região interior em que manda a convicção
pessoal. Quem consome drogas ocasionalmente
está ajudando o crime organizado e financiando, sem querer ou saber, latrocínios,
seqüestros e chacinas? Sim. Sem o dinheiro dos consumidores, o tráfico
de drogas desapareceria. O "ocasionalmente" não torna o consumo mais aceitável.
É o mesmo que aceitar que uma pessoa cometa no máximo dois ou três
assassinatos por ano. "Eu apanhei dos
meus pais e me tornei um adulto psicologicamente normal, um bom marido e um profissional
correto. Isso me diz tudo o que preciso saber sobre dar umas palmadas nos meus
próprios filhos." Certo? Não. Castigos físicos deseducam.
Um amigo relapso, de péssimo desempenho
escolar e vida desregrada contava a todos que conseguira um emprego exagerando
suas qualidades no curriculum vitae. Desde que começou a trabalhar, ele
se endireitou e hoje pede a todos que não contem a seu patrão o
"deslize" inicial da carreira. É certo ajudar o amigo a esconder o embuste? Não,
mas, se o sujeito se endireitou, deixa pra lá. Na
dúvida sobre quem roubou uma prova, o professor decide punir igualmente
toda a classe. Para a maioria, a punição terá efeitos superficiais.
Para dois alunos pobres, porém, ela significará a perda da bolsa
de estudos e a expulsão do colégio. O professor deveria relevar
o erro coletivo para salvar os dois alunos pobres? Sim. Injusto é
permitir que um mesmo erro ou suspeita produza punições tão
díspares, atingindo violentamente alguns, enquanto outros se safam com
apenas uma admoestação. 
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