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André
Petry O Estado policial
"O
governo do operário ético faz com o caseiro tudo o
que o governo do corrupto desvariado não ousou fazer com
o motorista" O ministro Antonio Palocci,
ao reaparecer em público na sexta-feira passada, depois de duas semanas
escondido, disse que está vivendo um inferno. Dá para imaginar,
então, o que deve estar vivendo o caseiro que o denunciou. Afinal, o caseiro
resolveu contar o que viu no casarão do Lago Sul em Brasília e,
em menos de dez dias, passou a ser investigado pela Polícia Federal sob
a acusação de lavagem de dinheiro! Entrou na máquina de moer
reputações. Primeiro, calaram-lhe a boca, depois quebraram-lhe o
sigilo bancário e, agora, aterrorizam-no com um inquérito. Coisa
de Estado policial. Na opinião do presidente da OAB, Roberto Busato, "coisa
de gângster, de sindicato do crime". O governo
de Fernando Collor não fez nem um décimo disso contra Eriberto França,
o motorista que prestou um depoimento devastador e terminal sobre as traficâncias
do presidente e seu ex-tesoureiro de campanha. É preciso, em nome da verdade
histórica, que se reconheça: o governo do operário ético
faz com o caseiro tudo o que o governo do corrupto desvariado não ousou
fazer com o motorista. E repare-se numa diferença: o motorista derrubou
o governo literalmente. O caseiro derrubou o governo moralmente.
Na construção de seu inferno, Palocci teve em excesso tudo o que
faltou ao caseiro. Examinemos: A vida pessoal.
O ministro jamais teve sua vida pessoal e familiar devassada. A própria
imprensa, durante meses a fio, por respeito à privacidade do ministro,
limitou-se a divulgar que o casarão era um ponto diurno de lobistas. Só
noticiou que era também um ponto noturno de prostitutas quando isso se
tornou um dado fundamental para entender o Paloccigate. No caso do caseiro, seu
drama pessoal e familiar de filho bastardo foi revelado por inteiro em questão
de dias, expondo a vida pregressa de sua mãe, Benta Soares, autora da frase
mais reveladora da essência do governo Lula. Disse ela: "Peço ao
presidente que não faça nada com meu filho". O
sigilo bancário. As contas do ministro Palocci estão devidamente
preservadas, como aliás deve acontecer em qualquer nação
civilizada. Nem se pediu que fosse quebrado seu sigilo bancário. Nem mesmo
quando Rogério Buratti denunciou à polícia que Palocci retinha
parte das propinas pagas por fornecedoras da prefeitura de Ribeirão. No
caso do caseiro, sua vida bancária é um livro abertíssimo
ilegalmente abertíssimo. Depois disso, o caseiro decidiu abrir voluntariamente
todos os seus sigilos, telefônico e fiscal, inclusive. Pediu que os outros
seguissem sua atitude. Paulo Okamotto não se manifestou. Lulinha, o filho,
também não. O direito de falar.
Palocci fala quando quiser, onde quiser, embora nos últimos dias tenha
reivindicado seu direito de ficar em silêncio e, de preferência, longe
dos holofotes. O caseiro não. O governo não deixa que abra a boca
numa CPI. Só autoriza, e neste caso alegremente, que abra a boca no inquérito
policial, no qual responde a perguntas na condição de acusado. O
ministro Cezar Peluso, do Supremo Tribunal Federal, achou mesmo que o caseiro
não devia falar na CPI. Em seu despacho, o ministro explicou que seu depoimento
seria inútil devido à "condição cultural" do caseiro.
Se a moda pega, pobres e pouco instruídos devem viver calados.
Num Estado policial, a moda é capaz de pegar. |