VÍDEO
A Fortuna de Cookie (Cookie's
Fortune, Estados Unidos, 1999, Top Tape) –
Meses atrás, quando esta comédia farsesca
aportou nos cinemas, muita gente apressou-se a dizer que
o septuagenário Robert Altman já não
era o mesmo: teria produzido um filme menor. Bobagem. O
corrosivo diretor de M.A.S.H. mostra que seu humor
continua intacto neste divertido mergulho no cotidiano modorrento
do interiorzão americano. Ao focalizar o fuzuê
que toma conta de um vilarejo por causa do suposto assassinato
de uma viúva, ele põe em cena uma impagável
galeria de caipirões caricatos. O elenco todo é
excelente, mas quem brilha de fato são Glenn Close
e Julianne Moore, que encarnam as irmãs vilãs
da história. O filme provoca risadas, principalmente
na cena em que os habitantes do lugar apresentam uma versão
sofrível da peça Salomé, de
Oscar Wilde. No final, fica no ar um inquietante desconforto.
É o velho e bom Altman atacando outra vez.
LIVROS
O
Quarto do Barba-Azul, de Angela Carter (tradução
de Carlos Nougué; Rocco; 232 páginas; 25 reais)
– Nascida em 1940, a inglesa
Angela Carter morreu prematuramente, com apenas 51 anos.
Mesmo assim, teve tempo para produzir uma extensa obra,
em ficção e não-ficção.
Feminista que criticava o feminismo, autora de ensaios polêmicos
sobre temas que iam da literatura à pornografia,
ela acabou sendo considerada uma das penas mais originais
e independentes de sua época. Lançada originalmente
em 1979, esta coletânea de dez histórias é
sua obra-prima. São releituras de contos de fadas
como Chapeuzinho Vermelho e A Bela e a Fera. Angela
subverte os enredos, acrescentando-lhes doses de erotismo,
humor negro e horror. Altamente elaborada, a linguagem do
livro é um capítulo à parte. Não
só leitores comuns mas também artistas famosos
foram cativados pelo livro: em 1984, o diretor irlandês
Neil Jordan fez dele uma versão filmada, A Companhia
dos Lobos.
A
Verdade Pura e Simples, de David Baldacci (tradução
de Ana Deiró; Rocco; 450 páginas; 38 reais)
– David Baldacci é uma
estrela em ascensão na literatura comercial americana.
Cada um de seus novos romances sobe mais alto nas listas
de best-sellers e permanece mais tempo nelas. Este é
um suspense de tribunal, na mesma linhagem dos de John Grisham
ou Scott Turow. A história é a de Rufus Harms,
um soldado preso há 25 anos por assassinar uma garotinha.
Certo dia, depois de receber uma carta misteriosa, ele decide
pedir a reabertura de seu caso à Suprema Corte. Com
isso, põe em perigo diversos figurões do establishment
americano e inaugura uma sucessão de mortes entre
todos aqueles ligados a ele ou a sua apelação.
O principal talento de Baldacci está em forjar enredos
cheios de armadilhas, reviravoltas e desenlaces surpreendentes.
Prepare-se para os sustos.
TELEVISÃO
 |
| Maazel: o melhor da música
clássica |
Clássicos (domingo às
20h30, no canal 21) – Esta
série nacional oferece um quitute raro na telinha:
música erudita de primeira, executada por renomadas
orquestras européias, tudo registrado em imagens
recentes e inéditas no país. Graças
ao repertório facilmente reconhecível, que
vai do Bolero de Ravel a obras de Mozart, os 22 programas
são ótimo cartão de visita para ouvintes
de primeira viagem. Para os iniciados, o chamariz é
a excelência das interpretações –
há concertos das Filarmônicas de Berlim, Londres
e Viena, sob a regência de feras como Riccardo Muti
e Claudio Abbado. As performances são entremeadas
de informações musicais e curiosidades narradas
pelo jornalista Salomão Schvartzman. Entre as atrações
da estréia, neste domingo, 26, está a 5ª
Sinfonia de Beethoven, com o maestro americano Lorin
Maazel à frente da Orquestra da Rádio da Baviera.
FILME
 |
| Bacon em Ecos do
Além: sustos |
Ecos do Além (Stir of Echoes,
Estados Unidos, 1999. Estréia nesta sexta-feira em
circuito nacional) – É
impossível não notar certa semelhança
entre a trama deste terror e a do sucesso O Sexto Sentido.
Uma pista: logo de início, o espectador vê-se
diante de uma criança que conversa com pessoas mortas.
Mas se trata apenas de coincidência, já que
o filme foi lançado nos Estados Unidos pouco depois
do "concorrente". O trunfo de Ecos do Além
está nos personagens bem desenhados e nos diálogos
precisos, escritos com capricho pelo diretor David Koepp
(roteirista de Parque dos Dinossauros e Missão
Impossível). Na verdade, o protagonista não
é o garoto com poderes paranormais, e sim seu pai,
interpretado com garra por Kevin Bacon. Ele faz um sujeito
desanimado com sua rotina de operário, que, depois
de uma sessão de hipnose, começa a partilhar
dos dons de seu filho. Apesar de receoso, acha que descobriu
algo que pode dar sentido a sua vida. A fita é envolvente
e garante bons sustos, sem apelar para cenas sanguinolentas.
DISCOS
I
Just Can't Stop It, The English Beat (London/ WEA)
– Inédito em CD no Brasil,
este clássico dos anos 80 foi disco de cabeceira
de muito medalhão do rock nacional. Os Paralamas
do Sucesso, por exemplo, reaproveitaram boa parte dos conceitos
de I Just Can't Stop It. A diferença é
que o Beat, além de ser o dono original da idéia,
dispunha de cantores e instrumentistas nitidamente superiores
aos do trio carioca. Surgida na Inglaterra no final da década
de 70, a banda contava também com integrantes jamaicanos.
Essa mistureba teve papel crucial no som da rapaziada. O
Beat fundia o ska e o reggae provenientes da Jamaica à
soul music americana, temperando tais ingredientes com pitadas
de rock. O resultado é uma salada musical deliciosa,
que atinge alta voltagem em canções como Mirror
in the Bathroom ou na regravação de Tears
of a Clown, um clássico da soul music.
Youri Lemquette
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| Manu Chao: música que não
é macumba para enganar turista |
Clandestino, Manu Chao (Virgin Records) –
Ao contrário da regra, este encontro entre músicos
do Primeiro e do Terceiro Mundo não resultou em macumba
para enganar turista. O que diferencia Clandestino
das diatribes de Paul Simon ou Phil Collins é que
o cantor francês Manu Chao realmente conviveu com
os ritmos e costumes que inspiram cada faixa. O disco foi
gravado durante viagens do roqueiro pelo Brasil, México
e países da África. Munido apenas de seu violão
e de um gravador, Manu passava meses em cada localidade,
tocando com os músicos da região e estudando
sua língua. O resultado é uma espécie
de diário de bordo musical, em que Manu incorpora
o espírito dos países visitados. Ele pode
tanto cantar uma música na cadência malemolente
do malandro carioca (em Minha Galera, com letra em
português) como incorporar um mexicano raivoso (Welcome
to Tijuana). Ex-líder do Mano Negra, um dos grupos
franceses mais importantes dos anos 80, Manu Chao presta
outro serviço à boa música pop.