Edição 1 642 - 29/3/2000

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VÍDEO

A Fortuna de Cookie (Cookie's Fortune, Estados Unidos, 1999, Top Tape) Meses atrás, quando esta comédia farsesca aportou nos cinemas, muita gente apressou-se a dizer que o septuagenário Robert Altman já não era o mesmo: teria produzido um filme menor. Bobagem. O corrosivo diretor de M.A.S.H. mostra que seu humor continua intacto neste divertido mergulho no cotidiano modorrento do interiorzão americano. Ao focalizar o fuzuê que toma conta de um vilarejo por causa do suposto assassinato de uma viúva, ele põe em cena uma impagável galeria de caipirões caricatos. O elenco todo é excelente, mas quem brilha de fato são Glenn Close e Julianne Moore, que encarnam as irmãs vilãs da história. O filme provoca risadas, principalmente na cena em que os habitantes do lugar apresentam uma versão sofrível da peça Salomé, de Oscar Wilde. No final, fica no ar um inquietante desconforto. É o velho e bom Altman atacando outra vez.

 

LIVROS

O Quarto do Barba-Azul, de Angela Carter (tradução de Carlos Nougué; Rocco; 232 páginas; 25 reais) Nascida em 1940, a inglesa Angela Carter morreu prematuramente, com apenas 51 anos. Mesmo assim, teve tempo para produzir uma extensa obra, em ficção e não-ficção. Feminista que criticava o feminismo, autora de ensaios polêmicos sobre temas que iam da literatura à pornografia, ela acabou sendo considerada uma das penas mais originais e independentes de sua época. Lançada originalmente em 1979, esta coletânea de dez histórias é sua obra-prima. São releituras de contos de fadas como Chapeuzinho Vermelho e A Bela e a Fera. Angela subverte os enredos, acrescentando-lhes doses de erotismo, humor negro e horror. Altamente elaborada, a linguagem do livro é um capítulo à parte. Não só leitores comuns mas também artistas famosos foram cativados pelo livro: em 1984, o diretor irlandês Neil Jordan fez dele uma versão filmada, A Companhia dos Lobos.

 

A Verdade Pura e Simples, de David Baldacci (tradução de Ana Deiró; Rocco; 450 páginas; 38 reais) David Baldacci é uma estrela em ascensão na literatura comercial americana. Cada um de seus novos romances sobe mais alto nas listas de best-sellers e permanece mais tempo nelas. Este é um suspense de tribunal, na mesma linhagem dos de John Grisham ou Scott Turow. A história é a de Rufus Harms, um soldado preso há 25 anos por assassinar uma garotinha. Certo dia, depois de receber uma carta misteriosa, ele decide pedir a reabertura de seu caso à Suprema Corte. Com isso, põe em perigo diversos figurões do establishment americano e inaugura uma sucessão de mortes entre todos aqueles ligados a ele ou a sua apelação. O principal talento de Baldacci está em forjar enredos cheios de armadilhas, reviravoltas e desenlaces surpreendentes. Prepare-se para os sustos.

 

TELEVISÃO

Maazel: o melhor da música clássica

Clássicos (domingo às 20h30, no canal 21) Esta série nacional oferece um quitute raro na telinha: música erudita de primeira, executada por renomadas orquestras européias, tudo registrado em imagens recentes e inéditas no país. Graças ao repertório facilmente reconhecível, que vai do Bolero de Ravel a obras de Mozart, os 22 programas são ótimo cartão de visita para ouvintes de primeira viagem. Para os iniciados, o chamariz é a excelência das interpretações há concertos das Filarmônicas de Berlim, Londres e Viena, sob a regência de feras como Riccardo Muti e Claudio Abbado. As performances são entremeadas de informações musicais e curiosidades narradas pelo jornalista Salomão Schvartzman. Entre as atrações da estréia, neste domingo, 26, está a 5ª Sinfonia de Beethoven, com o maestro americano Lorin Maazel à frente da Orquestra da Rádio da Baviera.

 

FILME

Bacon em Ecos do Além: sustos

Ecos do Além (Stir of Echoes, Estados Unidos, 1999. Estréia nesta sexta-feira em circuito nacional) É impossível não notar certa semelhança entre a trama deste terror e a do sucesso O Sexto Sentido. Uma pista: logo de início, o espectador vê-se diante de uma criança que conversa com pessoas mortas. Mas se trata apenas de coincidência, já que o filme foi lançado nos Estados Unidos pouco depois do "concorrente". O trunfo de Ecos do Além está nos personagens bem desenhados e nos diálogos precisos, escritos com capricho pelo diretor David Koepp (roteirista de Parque dos Dinossauros e Missão Impossível). Na verdade, o protagonista não é o garoto com poderes paranormais, e sim seu pai, interpretado com garra por Kevin Bacon. Ele faz um sujeito desanimado com sua rotina de operário, que, depois de uma sessão de hipnose, começa a partilhar dos dons de seu filho. Apesar de receoso, acha que descobriu algo que pode dar sentido a sua vida. A fita é envolvente e garante bons sustos, sem apelar para cenas sanguinolentas.

 

DISCOS

I Just Can't Stop It, The English Beat (London/ WEA) Inédito em CD no Brasil, este clássico dos anos 80 foi disco de cabeceira de muito medalhão do rock nacional. Os Paralamas do Sucesso, por exemplo, reaproveitaram boa parte dos conceitos de I Just Can't Stop It. A diferença é que o Beat, além de ser o dono original da idéia, dispunha de cantores e instrumentistas nitidamente superiores aos do trio carioca. Surgida na Inglaterra no final da década de 70, a banda contava também com integrantes jamaicanos. Essa mistureba teve papel crucial no som da rapaziada. O Beat fundia o ska e o reggae provenientes da Jamaica à soul music americana, temperando tais ingredientes com pitadas de rock. O resultado é uma salada musical deliciosa, que atinge alta voltagem em canções como Mirror in the Bathroom ou na regravação de Tears of a Clown, um clássico da soul music.

 

Youri Lemquette
Manu Chao: música que não é macumba para enganar turista


Clandestino,
Manu Chao (Virgin Records) Ao contrário da regra, este encontro entre músicos do Primeiro e do Terceiro Mundo não resultou em macumba para enganar turista. O que diferencia Clandestino das diatribes de Paul Simon ou Phil Collins é que o cantor francês Manu Chao realmente conviveu com os ritmos e costumes que inspiram cada faixa. O disco foi gravado durante viagens do roqueiro pelo Brasil, México e países da África. Munido apenas de seu violão e de um gravador, Manu passava meses em cada localidade, tocando com os músicos da região e estudando sua língua. O resultado é uma espécie de diário de bordo musical, em que Manu incorpora o espírito dos países visitados. Ele pode tanto cantar uma música na cadência malemolente do malandro carioca (em Minha Galera, com letra em português) como incorporar um mexicano raivoso (Welcome to Tijuana). Ex-líder do Mano Negra, um dos grupos franceses mais importantes dos anos 80, Manu Chao presta outro serviço à boa música pop.

 

Fontes: São Paulo: Cultura, Laselva, Saraiva, Livraria da Vila, Nobel; Rio de Janeiro: Saraiva, Sodiler; Porto Alegre: Saraiva, Livraria Ed. Porto Alegre; Brasília: Sodiler; Maceió: Sodiler; Recife: Sodiler; Curitiba: Livraria Curitiba; Belo Horizonte: Sulina. Esta lista não inclui livros vendidos em bancas