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Edição
1 642 - 29/3/2000
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Parece não haver mais dúvida: neste domingo, logo no primeiro turno, perante os outros onze candidatos que disputam o pleito, Vladimir Putin será eleito presidente de todas as Rússias. Há uns dias, as reportagens da TV russa mostrando o presidente Putin num caça Sukhoi-27, com capacete e blusão de aviador, faziam lembrar outras piruetas aéreas perpetradas abaixo do Equador: traziam a lembrança de Collor num jato da FAB. Por certo, a imagem superposta das duas demagogias supersônicas é algo fugaz. Mas a parecença entre os dois países tem bastante substância. Sucede que nas discussões dos pesquisadores interessados em história comparativa volta e meia aparece alguém fazendo uma analogia entre a Rússia e o Brasil. Principalmente quando se examina a História dos dois países ao longo do século XIX. Dois impérios oitocentistas vacilando entre um conservadorismo visceral e a necessidade da modernização. Dois países presos a instituições – a escravidão no Brasil, a servidão na Rússia – que apareciam como a essência da brutalidade e do atraso social. Assim, o mote "civilização contra a barbárie" era igualmente utilizado pela imprensa inglesa para fustigar o escravismo brasileiro e a opressão dos servos na Rússia. Confrontados à pressão interna e internacional, os dois imperadores, Pedro II (1840-1889) e Alexandre II (1855-1881) são levados a liberar os servos russos (1861) e os escravos brasileiros (1888), desencadeando movimentos sociais que derrubam ambas as dinastias. Desse modo, simpatizantes e detratores dos Romanov e dos Bragança podiam retratar os dois imperadores como bem lhes conviesse. Uns diziam que se tratava de reformadores incomprendidos, outros os apresentavam como aristocratas tapados. Mais sutilmente, os dramas dos dois países, esgarçados entre a atração pelo Ocidente e o peso de seu passado, aparecem desenhados nas obras de seus artistas e de seus escritores. O esforço de Pushkin para amarrar a identidade nacional russa em seu drama histórico Boris Godunov (1825) pode ser posto em paralelo com o projeto literário de Gonçalves de Magalhães no poema épico A Confederação dos Tamoios (1856). Da mesma forma, a ironia trágica com que Gogol trata o drama dos servos russos no romance Almas Mortas (1842) tem semelhanças com a maneira pela qual Machado de Assis aborda o tema da escravidão no Brasil de sua época. Mais tarde, no começo do século passado, a Rússia tentou recuperar todo o seu atraso multissecular de uma vez só. Entrando no turbilhão da I Guerra Mundial, desviou-se para o redemoinho de uma revolução que assombrou o mundo. Grandezas e tragédias, sofrimentos, glórias e uma ditadura marcam a travessia da Rússia no século XX. Acabado o comunismo e a União Soviética, vem a liberdade, mas a vida continua difícil, a economia não deslancha, a sociedade não se apruma. Situação paradoxal que levou um dia um gaiato italiano a dizer: "Os russos já estragaram o socialismo, agora estão estragando o capitalismo". Vladimir Putin, ex-meganha da KGB, destrói a Chechênia e massacra civis inocentes para satisfazer o amor-próprio do Exército e dos nacionalistas russos. Mau agouro para o novo governo, mau agouro para os russos. No final das contas, a História da Rússia contemporânea deixa uma impressão estranha, um sentimento confuso e desagradável sobre o qual os brasileiros deveriam meditar. A História de um grande povo, de uma grande cultura, de uma nação dotada de coragem inaudita para enfrentar as piores dificuldades e, apesar disso tudo, um país que não dá certo. Um país que sofre há dois séculos sob diversos regimes e não alcança a paz e o bem-estar a que tem direito. Luiz Felipe de Alencastro
é historiador (Ifa@workmail.com) |
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