Me xinga, me bate
que eu te amo
Insultos entre políticos, em vez
de inimizade eterna,
podem prenunciar alianças nas próximas eleições
Quem é inimigo de quem na política? Quem
não ama quem? Eis a questão. No show business,
o problema é inverso: quem ama quem? O galã
da novela namora a mocinha na vida real? A lourinha do rebolado
rendeu-se ao cantor de pagode? Quando o casal é convidado
a definir-se, a resposta é: "Somos apenas amigos".
Entre os políticos, quando há dúvidas
sobre a sinceridade dos xingamentos entre um e outro, as
ameaças de processo e os anúncios de rompimento,
podia-se responder: "Somos apenas inimigos", e o "apenas",
em vez de despistar, como no caso das estrelas da TV, apontaria
para a verdade. "Somos apenas inimigos" quereria dizer:
"Somos inimigos, mas não leve isso a sério".
Tais considerações vêm a propósito
da quantidade de casos irresolvidos, nesse item amor/desamor,
que o panorama político oferece. Reflita o leitor.
O prefeito de São Paulo, Celso Pitta, rompeu mesmo
com o mentor Paulo Maluf? O senador Antonio Carlos Magalhães
e o presidente Fernando Henrique são sinceros nas
estocadas ou nas juras de amor? Quais são os reais
sentimentos que nutre o mesmo senador Antonio Carlos pelo
ex-prefeito Paulo Maluf? O governador mineiro Itamar Franco
e o presidente Fernando Henrique romperam para sempre ou
isso só vale até a próxima vez que
Fernando Henrique precise costurar uma aliança, ou
Itamar de um cargo no exterior? Ainda sobre Itamar: como
pode ele dividir o governo com um vice, Newton Cardoso,
com quem trocou insultos tão pesados no passado?
O prefeito e o ex-prefeito de São Paulo declaram-se
rompidos. Mas, segundo a ex-mulher do prefeito, Nicéa
Pitta, é de mentira. Quem assistiu à entrevista
de Pitta a Boris Casoy, há alguns dias, na TV, saiu
com a convicção de que a ex-senhora Pitta
tem razão. Convidado uma, duas e três vezes,
pelo entrevistador, a dizer o que via de errado no antecessor,
o prefeito fingiu-se de desentendido em todas elas. Ele
se nega a falar mal de Maluf ou da administração
Maluf, e de tal modo, e com tal constância, que fica
claro ser ainda o fiel vassalo de seu senhor. Até
faz, por ele, o supremo sacrifício. Finge-se de rompido,
para evitar que sua má fama contamine o patrão.
Há casos em que, ao contrário, os contendores
não se poupam insultos. Na campanha para o governo
de Minas, em 1986, o tratamento mais cortês que o
candidato Newton Cardoso mereceu do adversário, Itamar
Franco, foi o de "corrupto". Também recebeu, no programa
eleitoral, os qualificativos de "estelionatário"
e "estuprador". Newton respondeu de forma semelhante. O
senso comum indica que, depois dessa, nunca mais. Pois não
é que, três eleições depois,
os dois apresentam-se numa chapa, Itamar para governador
e Newton para vice?
Caso parecido é o da relação entre
o senador Antonio Carlos e Maluf. Na campanha de Tancredo
Neves para a Presidência, em que o adversário
era Maluf e Antonio Carlos apoiou Tancredo, o senador baiano
partiu com a agressividade habitual contra o político
paulista. "Maluf é a negação e a corrupção",
dizia. No primeiro comício da campanha, fazia dobradinha
com a multidão, perguntando: "O que ele é,
o que ele é?" O povo respondia: "Ladrão, ladrão".
Pois Maluf, num artigo recente (Folha de S. Paulo,
15/3/2000), referiu-se a Antonio Carlos como "meu amigo".
Amigo? Dá para ser amigo de quem o chamou de ladrão
ou, pior, fez a multidão chamá-lo de ladrão?
Não é de hoje que, na política, se
briga e se fazem as pazes de maneira desconcertante. Adhemar
de Barros, o velho político paulista, com a vulgaridade
que lhe era característica e o descuido pela correção
vocabular que era característico da época,
dizia que, a tocar a mão de Getúlio Vargas,
preferia "a de um leproso". Pois foi por essa mão
tão amaldiçoada que foi nomeado interventor
em São Paulo, e deslanchou na carreira. O maior clássico
do gênero na política brasileira, no entanto,
envolveu duas pessoas incapazes de grosserias vocabulares:
Vargas e Luís Carlos Prestes. Sob Vargas, Prestes
teve a mulher, Olga Benario, deportada para a Alemanha,
onde viria a morrer num campo de concentração.
Pois não é que, em 1945, adere ao movimento
pela permanência de Getúlio na Presidência?
Prestes, ao contrário de tantos outros, agia pela
causa. Se isso o desculpa, ou remete a consciência
política ao limite da barbárie, decida o leitor.
Que lição extrair de tantas brigas e imprevistas
reconciliações, umas e outras tantas vezes
de mentira? Por um lado, é bom que os políticos
continuem a se falar. Política é isso mesmo.
É a continuação da guerra por outros
meios. Quando se deixa de falar, a opção é
trocar sopapos – ou tiros,
até a guerra civil. Por outro, a evidente falsidade
de certas rupturas e de outras tantas reconciliações,
além dos insultos que, fosse num romance do século
XIX, só seriam lavados com sangue, e que no entanto
não impedem futuras alianças, tudo isso só
serve para reforçar a convicção, já
tão compartilhada, de que a política é
o território da farsa. Não se deve levá-la
a sério, muito menos a seus protagonistas.