Edição 1 642 - 29/3/2000

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Me xinga, me bate
que eu te amo

Insultos entre políticos, em vez de inimizade eterna,
podem prenunciar alianças nas próximas eleições

Quem é inimigo de quem na política? Quem não ama quem? Eis a questão. No show business, o problema é inverso: quem ama quem? O galã da novela namora a mocinha na vida real? A lourinha do rebolado rendeu-se ao cantor de pagode? Quando o casal é convidado a definir-se, a resposta é: "Somos apenas amigos". Entre os políticos, quando há dúvidas sobre a sinceridade dos xingamentos entre um e outro, as ameaças de processo e os anúncios de rompimento, podia-se responder: "Somos apenas inimigos", e o "apenas", em vez de despistar, como no caso das estrelas da TV, apontaria para a verdade. "Somos apenas inimigos" quereria dizer: "Somos inimigos, mas não leve isso a sério".

Tais considerações vêm a propósito da quantidade de casos irresolvidos, nesse item amor/desamor, que o panorama político oferece. Reflita o leitor. O prefeito de São Paulo, Celso Pitta, rompeu mesmo com o mentor Paulo Maluf? O senador Antonio Carlos Magalhães e o presidente Fernando Henrique são sinceros nas estocadas ou nas juras de amor? Quais são os reais sentimentos que nutre o mesmo senador Antonio Carlos pelo ex-prefeito Paulo Maluf? O governador mineiro Itamar Franco e o presidente Fernando Henrique romperam para sempre ou isso só vale até a próxima vez que Fernando Henrique precise costurar uma aliança, ou Itamar de um cargo no exterior? Ainda sobre Itamar: como pode ele dividir o governo com um vice, Newton Cardoso, com quem trocou insultos tão pesados no passado?

O prefeito e o ex-prefeito de São Paulo declaram-se rompidos. Mas, segundo a ex-mulher do prefeito, Nicéa Pitta, é de mentira. Quem assistiu à entrevista de Pitta a Boris Casoy, há alguns dias, na TV, saiu com a convicção de que a ex-senhora Pitta tem razão. Convidado uma, duas e três vezes, pelo entrevistador, a dizer o que via de errado no antecessor, o prefeito fingiu-se de desentendido em todas elas. Ele se nega a falar mal de Maluf ou da administração Maluf, e de tal modo, e com tal constância, que fica claro ser ainda o fiel vassalo de seu senhor. Até faz, por ele, o supremo sacrifício. Finge-se de rompido, para evitar que sua má fama contamine o patrão.

Há casos em que, ao contrário, os contendores não se poupam insultos. Na campanha para o governo de Minas, em 1986, o tratamento mais cortês que o candidato Newton Cardoso mereceu do adversário, Itamar Franco, foi o de "corrupto". Também recebeu, no programa eleitoral, os qualificativos de "estelionatário" e "estuprador". Newton respondeu de forma semelhante. O senso comum indica que, depois dessa, nunca mais. Pois não é que, três eleições depois, os dois apresentam-se numa chapa, Itamar para governador e Newton para vice?

Caso parecido é o da relação entre o senador Antonio Carlos e Maluf. Na campanha de Tancredo Neves para a Presidência, em que o adversário era Maluf e Antonio Carlos apoiou Tancredo, o senador baiano partiu com a agressividade habitual contra o político paulista. "Maluf é a negação e a corrupção", dizia. No primeiro comício da campanha, fazia dobradinha com a multidão, perguntando: "O que ele é, o que ele é?" O povo respondia: "Ladrão, ladrão". Pois Maluf, num artigo recente (Folha de S. Paulo, 15/3/2000), referiu-se a Antonio Carlos como "meu amigo". Amigo? Dá para ser amigo de quem o chamou de ladrão ou, pior, fez a multidão chamá-lo de ladrão?

Não é de hoje que, na política, se briga e se fazem as pazes de maneira desconcertante. Adhemar de Barros, o velho político paulista, com a vulgaridade que lhe era característica e o descuido pela correção vocabular que era característico da época, dizia que, a tocar a mão de Getúlio Vargas, preferia "a de um leproso". Pois foi por essa mão tão amaldiçoada que foi nomeado interventor em São Paulo, e deslanchou na carreira. O maior clássico do gênero na política brasileira, no entanto, envolveu duas pessoas incapazes de grosserias vocabulares: Vargas e Luís Carlos Prestes. Sob Vargas, Prestes teve a mulher, Olga Benario, deportada para a Alemanha, onde viria a morrer num campo de concentração. Pois não é que, em 1945, adere ao movimento pela permanência de Getúlio na Presidência? Prestes, ao contrário de tantos outros, agia pela causa. Se isso o desculpa, ou remete a consciência política ao limite da barbárie, decida o leitor.

Que lição extrair de tantas brigas e imprevistas reconciliações, umas e outras tantas vezes de mentira? Por um lado, é bom que os políticos continuem a se falar. Política é isso mesmo. É a continuação da guerra por outros meios. Quando se deixa de falar, a opção é trocar sopapos ou tiros, até a guerra civil. Por outro, a evidente falsidade de certas rupturas e de outras tantas reconciliações, além dos insultos que, fosse num romance do século XIX, só seriam lavados com sangue, e que no entanto não impedem futuras alianças, tudo isso só serve para reforçar a convicção, já tão compartilhada, de que a política é o território da farsa. Não se deve levá-la a sério, muito menos a seus protagonistas.