Edição 1 642 - 29/3/2000

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Vítimas do Oscar

Às vezes, ganhar a honraria máxima
do cinema é a pior coisa que poderia
acontecer a um ator

Isabela Boscov

É comum pensar que, se o Oscar é o maior prêmio do cinema, ganhá-lo só pode significar um tremendo impulso para a carreira do vitorioso. Não é bem assim. A história da estatueta está repleta de exemplos de que, às vezes, é mais saudável estar entre os quatro derrotados que ficam sorrindo amarelo, sentadinhos na platéia, do que ser o escolhido para subir ao palco. O motivo é simples. Quem leva o Oscar passa a ter todos os olhos da indústria de cinema voltados para si e é o que basta para que qualquer erro pareça fragoroso.

Nenhum vencedor da última década sabe disso melhor do que Marisa Tomei, laureada em 1993 pela insossa comédia Meu Primo Vinny. Na época, Marisa andava cotada como uma promessa brilhante. Na verdade, exibia todas as características que compõem o "grupo de risco" do Oscar. Era jovem, tinha poucos trabalhos no currículo e seu carisma não passava de uma suposição. Além disso, foi premiada como coadjuvante, uma categoria que tradicionalmente contempla os intérpretes capazes de roubar a cena num filme, mas não garante que eles tenham habilidade para carregar uma fita nos ombros. Promovida imediatamente a protagonista, Marisa encarou fracasso atrás de fracasso. Hoje, sobrevive numa espécie de limbo: pequenas produções independentes nas quais interpreta moças confusas. Está mais longe do primeiro time de Hollywood do que antes de carregar a estatueta para casa. Sua queda foi tão acelerada que deu margem até a um boato maldoso: ela teria levado o Oscar por engano, já que o apresentador Jack Palance teria lido não o nome inscrito no envelope, mas sim aquele que estava na tela de televisão à sua frente, onde constavam todas as indicadas na categoria.

Marisa não é a única que passou por esse tipo de percalço. Quem se lembra, por exemplo, de Timothy Hutton, que em 1981 ganhou o Oscar de coadjuvante pelo papel de um rapaz atormentado em Gente Como a Gente? Hutton hoje estrela filmecos de segunda linha, que não raro são lançados diretamente em vídeo, sem passar pelos cinemas. Pior: é mesmo um canastrão consumado. Isso sem falar em Cuba Gooding Jr., mais lembrado pelo seu espalhafatoso discurso de agradecimento na cerimônia de 1997 do que pelo seu papel em Jerry Maguire, ou em qualquer outro filme desde então.

Qual seria, então, a hora certa para ganhar o Oscar? Tom Hanks é um caso exemplar. Nos anos 80, ele fazia sucesso como ator de comédias ligeiras e usufruía de boa reputação entre produtores e diretores. Ou seja, tinha emprego garantido. Com esse respaldo, decidiu se aventurar em papéis mais sérios. Mas o fez passo a passo, para não espantar ninguém. Saiu-se bem, por exemplo, em Quero Ser Grande, no qual vivia um garoto preso no corpo de um adulto. A história era engraçada, mas dava a Hanks a chance de mostrar que tinha sensibilidade. Foi indicado e, felizmente, não ganhou. Só levou a estatueta em 1994, cinco anos mais tarde, pelo trágico Filadélfia, no qual interpretou um doente terminal de Aids. Foi um risco calculado e que lhe rendeu, de lambuja, a aura de ator humanitário. Com esse aval (e outro Oscar no ano seguinte, por Forrest Gump), ele passou a ditar as próprias regras no pesado jogo do cinema americano. Hoje, é o astro mais rentável de Hollywood.

Há, contudo, um tipo especial de ator. É aquele que, ao invés de adquirir brilho com o Oscar, empresta o seu próprio à estatueta. Caso de Al Pacino, que já tinha 24 anos de uma carreira superlativa quando finalmente ouviu seu nome ser anunciado por Perfume de Mulher, em sua oitava indicação. Comparado com suas atuações em Um Dia de Cão ou nos filmes da série O Poderoso Chefão, esse não é nem de longe seu melhor papel. Mas foi o pretexto que a Academia encontrou para reparar uma falha grave: a de ter preterido Pacino em favor de candidatos bem menos talentosos em outras ocasiões. Agora só resta aguardar a cerimônia deste domingo, que o SBT transmite a partir das 22h15, para saber quem serão os injustiçados deste ano.