Vítimas do Oscar
Às vezes, ganhar a honraria máxima
do cinema é a pior coisa que poderia
acontecer a um ator
Isabela Boscov
É comum pensar que, se o Oscar é o maior
prêmio do cinema, ganhá-lo só pode significar
um tremendo impulso para a carreira do vitorioso. Não
é bem assim. A história da estatueta está
repleta de exemplos de que, às vezes, é mais
saudável estar entre os quatro derrotados que ficam
sorrindo amarelo, sentadinhos na platéia, do que
ser o escolhido para subir ao palco. O motivo é simples.
Quem leva o Oscar passa a ter todos os olhos da indústria
de cinema voltados para si –
e é o que basta para que qualquer erro pareça
fragoroso.
Nenhum vencedor da última década sabe disso
melhor do que Marisa Tomei, laureada em 1993 pela insossa
comédia Meu Primo Vinny. Na época,
Marisa andava cotada como uma promessa brilhante. Na verdade,
exibia todas as características que compõem
o "grupo de risco" do Oscar. Era jovem, tinha poucos trabalhos
no currículo e seu carisma não passava de
uma suposição. Além disso, foi premiada
como coadjuvante, uma categoria que tradicionalmente contempla
os intérpretes capazes de roubar a cena num filme,
mas não garante que eles tenham habilidade para carregar
uma fita nos ombros. Promovida imediatamente a protagonista,
Marisa encarou fracasso atrás de fracasso. Hoje,
sobrevive numa espécie de limbo: pequenas produções
independentes nas quais interpreta moças confusas.
Está mais longe do primeiro time de Hollywood do
que antes de carregar a estatueta para casa. Sua queda foi
tão acelerada que deu margem até a um boato
maldoso: ela teria levado o Oscar por engano, já
que o apresentador Jack Palance teria lido não o
nome inscrito no envelope, mas sim aquele que estava na
tela de televisão à sua frente, onde constavam
todas as indicadas na categoria.
Marisa não é a única que passou por
esse tipo de percalço. Quem se lembra, por exemplo,
de Timothy Hutton, que em 1981 ganhou o Oscar de coadjuvante
pelo papel de um rapaz atormentado em Gente Como a Gente?
Hutton hoje estrela filmecos de segunda linha, que não
raro são lançados diretamente em vídeo,
sem passar pelos cinemas. Pior: é mesmo um canastrão
consumado. Isso sem falar em Cuba Gooding Jr., mais lembrado
pelo seu espalhafatoso discurso de agradecimento na cerimônia
de 1997 do que pelo seu papel em Jerry Maguire, ou
em qualquer outro filme desde então.
Qual seria, então, a hora certa para ganhar o Oscar?
Tom Hanks é um caso exemplar. Nos anos 80, ele fazia
sucesso como ator de comédias ligeiras e usufruía
de boa reputação entre produtores e diretores.
Ou seja, tinha emprego garantido. Com esse respaldo, decidiu
se aventurar em papéis mais sérios. Mas o
fez passo a passo, para não espantar ninguém.
Saiu-se bem, por exemplo, em Quero Ser Grande, no
qual vivia um garoto preso no corpo de um adulto. A história
era engraçada, mas dava a Hanks a chance de mostrar
que tinha sensibilidade. Foi indicado e, felizmente, não
ganhou. Só levou a estatueta em 1994, cinco anos
mais tarde, pelo trágico Filadélfia,
no qual interpretou um doente terminal de Aids. Foi um risco
calculado e que lhe rendeu, de lambuja, a aura de ator humanitário.
Com esse aval (e outro Oscar no ano seguinte, por Forrest
Gump), ele passou a ditar as próprias regras
no pesado jogo do cinema americano. Hoje, é o astro
mais rentável de Hollywood.
Há, contudo, um tipo especial de ator. É
aquele que, ao invés de adquirir brilho com o Oscar,
empresta o seu próprio à estatueta. Caso de
Al Pacino, que já tinha 24 anos de uma carreira superlativa
quando finalmente ouviu seu nome ser anunciado –
por Perfume de Mulher, em sua oitava indicação.
Comparado com suas atuações em Um Dia de
Cão ou nos filmes da série O Poderoso
Chefão, esse não é nem de longe
seu melhor papel. Mas foi o pretexto que a Academia encontrou
para reparar uma falha grave: a de ter preterido Pacino
em favor de candidatos bem menos talentosos em outras ocasiões.
Agora só resta aguardar a cerimônia deste domingo,
que o SBT transmite a partir das 22h15, para saber quem
serão os injustiçados deste ano.