Aprendendo a casar
Cursos para noivos tentam ensinar
o que todo mundo já sabe
Tatiana Chiari
Fotos Antonio Milena
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Flávio e Alessandra:
gostaram do que ouviram
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Você acredita que para casar basta ter um grande
amor? Então dê cinco minutos de atenção
a um noivo de primeira viagem. Ele vai contar sobre as amarguras
de quem nos últimos tempos só pensa em convites,
bufê, convidados, música e lua-de-mel. E vai
lhe apresentar um certo "curso de noivos". Você não
sabia? Pois é, existe sim. Para casar na Igreja Católica,
anualmente 1,4 milhão de pessoas são obrigadas
a se matricular num curso preparatório. O diploma
desse curso é exigido como peça obrigatória
para o casamento. Além de ser uma espécie
de ensaio para a cerimônia, ele explica o sentido
do matrimônio para a Igreja e tenta mostrar, basicamente,
o que os enamorados vão encontrar na vida a dois.
Os cursos podem durar de um a quatro dias –
e vão provavelmente contribuir para o mau humor de
quem já está enfrentando uma série
de afazeres e burocracias na reta final.
As aulas começam pela manhã bem cedo, e
a programação gira em torno de palestras que
são ministradas por casais que dividem o mesmo teto
há dez, vinte ou trinta anos. Há discussões
em grupo sobre o que esperar do matrimônio, brincadeiras
e jogos e algumas canções. Imagine a cena:
oitenta pessoas querendo simplesmente casar obrigadas a
cantar Por onde for quero ser seu par... Lá-lá-lá.
Em muitas paróquias, o momento de maior destaque
é a aula de orientação sexual. Um dos
palestrantes descreve as formas e o funcionamento dos órgãos
sexuais e dá explicação sobre como
tornar mais empolgante o relacionamento íntimo. Usa
como material didático slides com os órgãos
genitais masculinos e femininos e tenta falar sobre o bê-á-bá
da copulação. Chega a ser engraçado.
O "professor" realmente acredita que está apresentando
algo novo para os casais, que muitas vezes vivem juntos
e provavelmente já assistiram a essa aula antes,
só que não na teoria, mas na prática.
Deve ser uma das raras ocasiões em que os alunos
dominam mais o tema que seus professores.
A
intenção da Igreja Católica com esses
cursos é criar um espaço de discussão
e aproximar seus fiéis dos ideais do Vaticano e do
significado do casamento. O problema é que o discurso
usado é tão ultrapassado que poucas pessoas
levam algum ensinamento para casa. Nas palestras, por exemplo,
há pouquíssimas perguntas. É natural.
Ninguém costuma ter dúvidas quando o conteúdo
das aulas é uma sucessão de obviedades. Nas
discussões em grupo, a grande maioria dos participantes
acaba opinando simplesmente porque a aula não termina
até que todo mundo diga alguma coisa. Em muitos casos,
se alguém resolvesse dizer a verdade, diria que está
sentindo um profundo tédio daquilo tudo. "Os profissionais
envolvidos nesses cursos geralmente não são
especializados. Falta assistência psicológica
profissional", analisa Maly Delitti, terapeuta comportamental
e professora de terapia de casais e de família da
Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo.
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| As aulas incluem o ensaio da cerimônia:
os alunos sabem mais que os professores |
É claro que há as exceções.
Algumas paróquias tomam a iniciativa de modernizar
essa dinâmica. Descrevem todos os contraceptivos,
apesar de a Igreja só aceitar os chamados métodos
naturais, e colocam ginecologistas para debater sexo, não
leigos. A quem for casar na Igreja Católica aconselha-se
procurar um desses cursos mais "modernos". A atendente comercial
Alessandra Massa, 27 anos, e o especialista em internet
Flávio dos Santos, 21 anos, tiveram a felicidade
de se matricular num desses cursos mais liberais em São
Paulo. Flávio chegou lá como a maior parte
de seus colegas: simplesmente cumprindo uma obrigação.
Ele achava que o encontro seria uma grande perda de tempo.
Lá, transformou-se num dos mais entusiasmados. Opinou
nas dinâmicas em grupo e contou ter se emocionado
com algumas palestras. Deixou os 20 reais que o curso pede
de caixinha e terminou o final de semana positivamente surpreso.
Na semana passada, Flávio e Alessandra subiram ao
altar.
Terão um tempo de tranqüilidade até
resolver ter filhos e batizar os pimpolhos. Aí enfrentarão
a pós-graduação de qualquer bom casal
católico com diploma de noivo: o curso de batizado
do bebê.
Sexo na Igreja
Algumas paróquias estão incluindo
uma grande novidade na programação dos
cursos para noivos: a discussão de métodos
contraceptivos artificiais. Durante as aulas, os palestrantes
abordam temas como pílula anticoncepcional,
camisinha e diafragma. Essas discussões são
uma grande ousadia entre as hostes católicas.
Como as diretrizes papais ainda hoje não admitem
essa prática, ela é vista como um sacrilégio,
quase pecado, por Roma. Para o papa João Paulo
II, os fiéis só devem ter relações
para procriar. Essa visão menos ortodoxa que
começa a aparecer é um avanço.
"Não fazemos apologia, mas tentamos acompanhar
as mudanças na sociedade", diz o padre Victor
Santana, coordenador da pastoral familiar em São
Paulo.
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