Edição 1 642 - 29/3/2000

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Aprendendo a casar

Cursos para noivos tentam ensinar
o que todo mundo já sabe

Tatiana Chiari



Fotos Antonio Milena

Flávio e Alessandra: gostaram do que ouviram

Você acredita que para casar basta ter um grande amor? Então dê cinco minutos de atenção a um noivo de primeira viagem. Ele vai contar sobre as amarguras de quem nos últimos tempos só pensa em convites, bufê, convidados, música e lua-de-mel. E vai lhe apresentar um certo "curso de noivos". Você não sabia? Pois é, existe sim. Para casar na Igreja Católica, anualmente 1,4 milhão de pessoas são obrigadas a se matricular num curso preparatório. O diploma desse curso é exigido como peça obrigatória para o casamento. Além de ser uma espécie de ensaio para a cerimônia, ele explica o sentido do matrimônio para a Igreja e tenta mostrar, basicamente, o que os enamorados vão encontrar na vida a dois. Os cursos podem durar de um a quatro dias e vão provavelmente contribuir para o mau humor de quem já está enfrentando uma série de afazeres e burocracias na reta final.

As aulas começam pela manhã bem cedo, e a programação gira em torno de palestras que são ministradas por casais que dividem o mesmo teto há dez, vinte ou trinta anos. Há discussões em grupo sobre o que esperar do matrimônio, brincadeiras e jogos e algumas canções. Imagine a cena: oitenta pessoas querendo simplesmente casar obrigadas a cantar Por onde for quero ser seu par... Lá-lá-lá. Em muitas paróquias, o momento de maior destaque é a aula de orientação sexual. Um dos palestrantes descreve as formas e o funcionamento dos órgãos sexuais e dá explicação sobre como tornar mais empolgante o relacionamento íntimo. Usa como material didático slides com os órgãos genitais masculinos e femininos e tenta falar sobre o bê-á-bá da copulação. Chega a ser engraçado. O "professor" realmente acredita que está apresentando algo novo para os casais, que muitas vezes vivem juntos e provavelmente já assistiram a essa aula antes, só que não na teoria, mas na prática. Deve ser uma das raras ocasiões em que os alunos dominam mais o tema que seus professores.

A intenção da Igreja Católica com esses cursos é criar um espaço de discussão e aproximar seus fiéis dos ideais do Vaticano e do significado do casamento. O problema é que o discurso usado é tão ultrapassado que poucas pessoas levam algum ensinamento para casa. Nas palestras, por exemplo, há pouquíssimas perguntas. É natural. Ninguém costuma ter dúvidas quando o conteúdo das aulas é uma sucessão de obviedades. Nas discussões em grupo, a grande maioria dos participantes acaba opinando simplesmente porque a aula não termina até que todo mundo diga alguma coisa. Em muitos casos, se alguém resolvesse dizer a verdade, diria que está sentindo um profundo tédio daquilo tudo. "Os profissionais envolvidos nesses cursos geralmente não são especializados. Falta assistência psicológica profissional", analisa Maly Delitti, terapeuta comportamental e professora de terapia de casais e de família da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

 

As aulas incluem o ensaio da cerimônia: os alunos sabem mais que os professores

É claro que há as exceções. Algumas paróquias tomam a iniciativa de modernizar essa dinâmica. Descrevem todos os contraceptivos, apesar de a Igreja só aceitar os chamados métodos naturais, e colocam ginecologistas para debater sexo, não leigos. A quem for casar na Igreja Católica aconselha-se procurar um desses cursos mais "modernos". A atendente comercial Alessandra Massa, 27 anos, e o especialista em internet Flávio dos Santos, 21 anos, tiveram a felicidade de se matricular num desses cursos mais liberais em São Paulo. Flávio chegou lá como a maior parte de seus colegas: simplesmente cumprindo uma obrigação. Ele achava que o encontro seria uma grande perda de tempo. Lá, transformou-se num dos mais entusiasmados. Opinou nas dinâmicas em grupo e contou ter se emocionado com algumas palestras. Deixou os 20 reais que o curso pede de caixinha e terminou o final de semana positivamente surpreso. Na semana passada, Flávio e Alessandra subiram ao altar.

Terão um tempo de tranqüilidade até resolver ter filhos e batizar os pimpolhos. Aí enfrentarão a pós-graduação de qualquer bom casal católico com diploma de noivo: o curso de batizado do bebê.

 

Sexo na Igreja

Algumas paróquias estão incluindo uma grande novidade na programação dos cursos para noivos: a discussão de métodos contraceptivos artificiais. Durante as aulas, os palestrantes abordam temas como pílula anticoncepcional, camisinha e diafragma. Essas discussões são uma grande ousadia entre as hostes católicas. Como as diretrizes papais ainda hoje não admitem essa prática, ela é vista como um sacrilégio, quase pecado, por Roma. Para o papa João Paulo II, os fiéis só devem ter relações para procriar. Essa visão menos ortodoxa que começa a aparecer é um avanço. "Não fazemos apologia, mas tentamos acompanhar as mudanças na sociedade", diz o padre Victor Santana, coordenador da pastoral familiar em São Paulo.