E eles culpam o Brasil...
Imersa em uma grande crise econômica,
incapaz de
exportar seus produtos com lucro para o mundo,
a Argentina descobre um bode expiatório: o vizinho
Raul Juste Lores, de Buenos Aires
Perfil
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Cartaz contra o
Brasil numa manifestação
de protesto em Buenos
Aires: alvo mais fácil
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Experimente ficar dez anos sem aumento real de salário.
Difícil? E se, além disso, você estiver
devendo dois terços do que ganha? E se tiver de pagar
2 dólares por um cafezinho e 4 dólares por
um copo de suco de laranja? Talvez esses exemplos ajudem
a entender o atual estado de alma dos argentinos, porque
é isso o que está acontecendo por lá.
Para a classe média de nosso bravo vizinho do sul,
trocar de carro ficou tão caro quanto é para
a classe média brasileira conseguir a casa própria.
Colocar mobília nova na sala de uma casa argentina
requer uma ginástica financeira parecida com a de
uma família assalariada brasileira decidida a estacionar
um carrinho zero de 1.000 cilindradas
na garagem. Agora, olhe um pouco para trás. A Argentina
já foi uma das nações mais ricas do
mundo. Era um território de estilo europeu que, por
assim dizer, tivera a má sorte de estar encravado
entre vizinhos pobretões na América Latina.
A Argentina regrediu com governos populistas, como o de
Juan Domingo Perón, sucedido em clima de opereta
bufa pela mulher, Isabelita, e depois por militares cruéis
e loucos, que levaram o país a uma guerra surrealista
com os ingleses pela posse das Ilhas Malvinas. Sua economia
tornou-se menor que a do Estado de São Paulo. Com
a implantação de um austero plano de estabilidade
econômica, em 1991, a Argentina venceu a hiperinflação
e se empinou de novo. Não chegou a levantar vôo
brilhante, a exemplo das aves domésticas que ficam
muito pesadas para escapar do chão, mas tudo corria
relativamente bem. Havia esperança no futuro. Foi
então que o vizinho do norte, o Brasil, resolveu
desvalorizar sua moeda, um golpe que os argentinos acusam
até hoje. E com rancor.
O atual esporte nacional na Argentina é culpar
o Brasil, que os políticos platinos agora chamam
de a "gigante economia do norte", pelas dificuldades econômicas
enfrentadas internamente. Comenta-se naquele país
que suas indústrias estão fechando as portas
e se transferindo para o Brasil. E que produtos brasileiros,
mais baratos graças à desvalorização
do real, estão ameaçando os artigos argentinos,
mais caros. Essas queixas já engordam passeatas em
Buenos Aires. "Made in Brazil, no!", dizem os cartazes nas
manifestações de rua. "Os brasileiros são
como maus vizinhos que entram em nossa casa para roubar
os móveis", vocifera Carlos Ruckauf, governador da
província de Buenos Aires, raposa oportunista que
é uma espécie de Leonel Brizola platino. Como
sempre ocorre em qualquer país metido em crises econômicas
duradouras e profundas, os problemas reais se misturam aos
imaginários. Não existe êxodo de negócios
argentinos para o Brasil. Menos de vinte empresas, na maioria
multinacionais, decidiram transferir parte de sua manufatura
para Estados brasileiros nos últimos dois anos. Mesmo
assim, uma pesquisa recente do jornal Clarín
revelou que, para 63% dos argentinos, o maior problema econômico
do país é justamente a fuga de empresas para
o Brasil.
A coisa deve estar preta por lá, pois mesmo cabeças
racionais, como a do ex-superministro da Economia, Domingo
Cavallo, andam meio zonzas. "A culpa da crise é do
Brasil. O Fernando Henrique preferiu empobrecer seu povo,
desvalorizando a moeda, e agora quem paga é a Argentina",
disse Cavallo, que, candidatíssimo a qualquer cargo
nas próximas eleições, anda num pique
cada vez menos liberal e mais protecionista. Espertamente,
Cavallo reverbera a crítica gritada nas ruas. Nas
esquinas, culpa-se o Brasil pela desvalorização
do real. Em menos de dois anos, a moeda brasileira perdeu
50% do valor em relação ao dólar e,
conseqüentemente, em relação ao peso
argentino, que tem sua cotação atrelada às
verdinhas americanas. Essa mudança significou dois
baques para a economia argentina da noite para o dia. Primeiro,
os produtos brasileiros ficaram 50% mais baratos em Buenos
Aires. Segundo, os produtos argentinos, que inundavam as
prateleiras dos supermercados brasileiros e os pátios
das revendedoras de automóveis, tornaram-se 50% mais
caros para os brasileiros. As exportações
para o Brasil caíram um terço, aprofundando
a crise econômica argentina a um ponto que por lá
se passou a enfrentar a pior recessão da década.
O índice de desemprego chegou a 14%.
Editorial Perfil
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Carlos Menem: dez
anos de democracia sem
populismo na economia
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Esses são os problemas reais, mas a desconfiança
em relação ao Brasil está inflada,
mesmo que algumas das principais autoridades do país
mantenham uma visão realista das dificuldades. Na
semana passada, o presidente Fernando de la Rúa procurou
esfriar as suspeitas que correm soltas contra o Brasil,
principalmente nos meios empresariais, informando que, mesmo
com a redução dos negócios entre os
dois vizinhos do Mercosul, o Brasil ainda é o maior
parceiro comercial da Argentina, sua única grande
fonte de superávits nas trocas comerciais. Trinta
por cento das exportações argentinas são
compradas pelo Brasil, lembrou De la Rúa. Ele não
disse, mas poderia tê-lo feito, que os problemas que
seus compatriotas estão enfrentando hoje decorrem
de escolhas erradas que fizeram durante muitas e muitas
décadas seguidas. A partir de meados do século
XX, a Argentina se transformou num país estatizado
e sindical a ponto de ficar economicamente inviável.
O atrelamento do peso ao dólar, há dez anos,
foi uma tentativa, bem-sucedida, de fugir ao descontrole
inflacionário provocado por todas as escolhas equivocadas
dos governos anteriores ao de Carlos Menem. Mas, agora,
os argentinos estão diante de uma encruzilhada. Ou
desvalorizam o peso, o que provocaria uma quebradeira geral,
já que as dívidas no país, na maior
parte, estão lastreadas em dólar. Ou reduzem
preços e salários para tornar sua economia
mais competitiva, o que é politicamente inviável.
Sobre esse pano de fundo econômico, há a
psique argentina, com sua tendência a funcionar na
cadência de tango. Buenos Aires tem 19.000
psicólogos, um para cada 160 habitantes, três
vezes mais que São Paulo. O seriado de maior audiência
da televisão argentina é Vulneráveis,
que narra as neuroses e os sofrimentos de um grupo submetido
a psicoterapia. "O argentino costuma carecer de consciência
moral, mas não de consciência intelectual.
Passar por imoral lhe importa menos que passar por tolo",
disse certa vez a maior glória das letras latino-americanas,
o escritor argentino Jorge Luis Borges, que morreu em 1986.
O que Borges vislumbrou na alma de seus conterrâneos
não deixa de ser uma espécie de malandragem,
uma variação do famoso "jeitinho brasileiro".
No caso da falsa crise com o Brasil, esse jeitinho está
ajudando a empanar as razões mais palpáveis
das agruras econômicas do país a falta de
competitividade de seus produtos no mercado mundial. O Brasil
é o único grande mercado com que a Argentina
ainda faz negócios com lucro. Com os demais parceiros
comerciais, ao final do ano, a conta fica negativa para
o lado argentino.
Rotular povos e países por suas características
mais marcantes é um exercício intelectual
vago e impreciso. Mas não deixa de ser curioso. O
japonês é disciplinado? É. O alemão
é metódico? Sem dúvida. O americano
é prático? É. O brasileiro é
um povo alegre? Sim. E o argentino? Bem, o argentino é
uma mente em constante ebulição, mas, sem
dúvida, a melancolia predomina na alma platina. Uma
melancolia misturada a um orgulho nacional que tende talvez
a crescer em meio às dificuldades práticas.
Carlos Gardel, o genial intérprete de tangos, morreu
em um acidente aéreo na Colômbia em 1935, mas
até hoje se diz que ele "canta cada vez melhor".
O jogador de futebol Diego Maradona abandonou os gramados
deixando um rastro escandaloso de envolvimento com cocaína.
A imprensa local não gosta de discutir o real problema
de Maradona. Em vez disso, gastam-se páginas e mais
páginas debatendo os males cardíacos do jogador.
Não é raro encontrar, em conversa de bar,
alguém defendendo a hipótese de que "Dieguito",
gordíssimo e com a saúde em frangalhos, possa
voltar a jogar uma Copa do Mundo.
Aquilo que alguns estrangeiros interpretam como "arrogância"
nos argentinos muitas vezes é um sentimento mais
complexo. Outras, um reflexo de conquistas bem reais que
o país realizou. O presidente Domingo Sarmiento impulsionou,
a partir de 1870, a educação pública
e gratuita, e o analfabetismo baixou de 35% em 1914 para
13% em 1947. Mais de cinqüenta anos depois, o Brasil
tem um índice igual, de 13%. O metrô de Buenos
Aires é de 1913, o primeiro subterrâneo da
América Latina. Orgulhosos por ser educados em um
continente de analfabetos, os argentinos fizeram força
para ser "europeus na América". Estiveram perto.
O que sobrou desse projeto pode ser resumido para efeito
humorístico na frase famosa: "O argentino é
um italiano que fala espanhol e pensa que é inglês".
O Brasil é um eterno país do futuro, um
projeto de grandeza que até hoje não se realizou.
A Argentina realizou a meta de tornar-se um país
rico, o sétimo mais rico do mundo na primeira década
do século XX, mas regrediu. No primeiro caso, o brasileiro,
tende-se a produzir um quadro de frustração.
No segundo, o argentino, a tendência provável
é de que à frustração se some
alguma revolta. Enquanto o Brasil mal saía da escravidão,
Buenos Aires era uma das cidades mais luxuosas do mundo.
Importava arquitetos renomados da Europa, tinha uma vida
cultural invejável, permitia a seus riquíssimos
fazendeiros viagens opulentas às capitais do mundo.
Sucessivos governos argentinos procuraram receber preferencialmente
imigrantes do norte da Europa, os mais claros, e não
"galegos e italianos do sul", como se reclamava na época
de Sarmiento. Em sua sofreguidão aristocrática,
a elite platina procura até hoje praticar esportes
como o pólo, o golfe e o tênis, de enorme apelo
no país. A assimilação da cultura européia
gerou grandes escritores, como Jorge Luis Borges, Julio
Cortázar e Adolfo Bioy Casares. Os argentinos ganharam
cinco prêmios Nobel e seu cinema, para a inveja dos
brasileiros com uma câmara na mão e um pedido
de financiamento oficial na cabeça, já levou
um Oscar. Os argentinos têm mais bibliotecas e lêem
mais. São 123 jornais por 1.000
habitantes, contra quarenta no Brasil.
A existência dessa superioridade cultural evidente
não explica todo o fenômeno do distanciamento
dos argentinos de seus vizinhos. Quem acha que muitos argentinos
nutrem certo preconceito contra os brasileiros, por eles
chamados de "macaquitos", não imagina como bolivianos,
peruanos e paraguaios são tratados por lá.
Os bairros onde vivem são alvo de manifestações
xenófobas de grupos de vizinhos que pedem sua expulsão,
sindicatos fazem campanhas dizendo que os imigrantes lhes
estão roubando empregos e até apresentadores
de TV, sem o menor pudor, atribuem o aumento da criminalidade
aos estrangeiros. Os números comprovam que os estrangeiros
são uma pequena minoria entre a população
carcerária.
Divulgação
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Dyzenchauz, do invicto.com:
"O Brasil é o
país-chave da internet"
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Por mais que queira fugir disso, a Argentina é hoje
um país latino-americano típico. Observando-se
o trânsito de Buenos Aires, é impossível
deixar de notar mais semelhanças com a Cidade do
México do que com Paris. Quase metade da frota automobilística
tem mais de dez anos de uso, contra 26% no Brasil, que está
longe de ser um exemplo de modernidade sobre rodas. A internet
tem oito vezes mais usuários no Brasil. "Com metade
dos internautas da América Latina no Brasil é
lá que temos de estar", diz o argentino Germán
Dyzenchauz, de 27 anos, que montou o site Invicto.com,
destinado a atrair torcedores de futebol.
Antes uma ilha de desenvolvimento e charme ao sul do Equador,
a capital, Buenos Aires, de 3 milhões de habitantes,
reúne hoje um exército de 100.000
favelados em suas franjas. Na Zona Sul da cidade, a mortalidade
infantil alcança 35 mortos por 1.000
nascidos vivos, média típica de lugar subdesenvolvido,
como o Brasil, por exemplo. Na Grande Buenos Aires aglomeram-se
atualmente 8 milhões de pessoas, mais de 20% da população
do país. São migrantes barrados pelo altíssimo
custo de vida da capital, uma das cinco mais caras do mundo.
Ali o desemprego já atinge um em cinco moradores.
Na cidade de La Matanza, tradicional reduto peronista de
1,3 milhão de habitantes, há dezenas de fábricas
abandonadas cercadas de favelas, em um cenário desoladoramente
típico da América Latina. Nessa região,
a violência vem crescendo muito, e viraram cena de
rotina assaltos com refém. O número de roubos
e furtos aumentou 65% nos últimos cinco anos em todo
o país. Mas ainda assim Buenos Aires é mais
segura e agradável que o Rio de Janeiro ou São
Paulo.
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Um dos grandes shopping centers
do investidor George Soros em Buenos Aires: aposta
arriscada
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A observação de fenômenos negativos
como esses mostra que os esforços de modernização
da Argentina, especialmente a privatização
acelerada feita nos dez anos do governo Carlos Menem, não
deram resultados práticos notáveis. A Argentina
carrega o fardo pesado da gastança pública
e do caudilhismo. Juntas, as províncias, os Estados
do país, acumulam dívidas de 18 bilhões
de dólares. Há décadas controlados
por caudilhos corruptos e populistas, esses territórios
vivem uma situação desastrosa. Nos Estados
de Formosa e do Rio Negro, as dívidas são
superiores a um ano de orçamento. Em Corrientes,
atualmente sob intervenção federal depois
de quase quarenta anos governada pela mesma família,
o governo local está quebrado, e Buenos Aires é
que vem bancando o orçamento. Na maioria das províncias
do Norte, o desemprego chega a 25%. "Nesses lugares, o normal
é que o governo empregue mais funcionários
do que precisa, para evitar conflitos sociais", diz o analista
político Carlos Pagni. Em Santiago del Estero, o
governador Carlos Juárez, de 83 anos, foi eleito
cinco vezes, a primeira em 1949. Atualmente, a vice é
sua esposa, Marina de Juárez, chamada na província
de "La Senõra". Nenhum ramo da economia de Santiago
del Estero supera o volume de dinheiro manejado pelo Estado,
que é o maior empregador local, ao melhor estilo
interior do Nordeste brasileiro. Segundo a organização
não-governamental Transparência Internacional,
em uma pesquisa feita entre analistas, empresários
e população sobre a percepção
de corrupção entre 74 países, a Argentina
fica em 65º lugar, bem atrás do Brasil, que
ocupa a 46ª posição. Nem mesmo a decantada
qualidade da educação resistiu à decadência
dos últimos anos. "Somos orgulhosos da formação
de cultura geral da educação argentina, mas
hoje ela é enciclopedista. Não se incorporaram
novas tecnologias nem habilidades de equipe. Nem as escolas,
nem os professores se modernizaram. Apesar do baixo analfabetismo,
podemos ficar para trás", diz o economista Martín
Redrado, diretor da Fundação Capital.
As províncias reclamam dos incentivos fiscais da
"guerra de subsídios" desatada pelos Estados brasileiros,
que julgam prejudicá-las, surrupiando-lhes as indústrias.
Quase todas quebradas, as províncias argentinas dependem
do governo nacional para sobreviver. Não cobram ICMS
o imposto similar, o IVA, é nacional e sempre
estão no vermelho. Ou seja, são dependentes
do governo central para as despesas mínimas. Quando
vem de Buenos Aires a notícia de que a política
econômica brasileira está enfraquecendo os
cofres da União, fica-se à beira de uma revolta.
Os governadores peronistas, como o ex-piloto de Fórmula-1
Carlos Reutemann, de Santa Fé, e o ex-embaixador
no Brasil José Manuel de la Sota, de Córdoba,
agarraram-se à receita agora em moda de culpar o
vizinho.
A campanha contra o Brasil pode ser mais bem compreendida
nesse cenário de paralisia e desesperança
que a Argentina atravessa. A reação antibrasileira
começou com um comunicado da União Industrial
Argentina (UIA), em dezembro passado, afirmando que mais
de 100 empresas argentinas já tinham fechado suas
fábricas locais e mudado para o Brasil. A imprensa
platina comprou a idéia e nos três meses seguintes
divulgava diariamente a "fuga de empresas". "O Mercosul
do jeito que está não serve", diz o presidente
da UIA, Osvaldo Rial, não por coincidência
um deputado peronista (de oposição), assim
como o governador Ruckauf. Até hoje, a UIA não
divulgou o nome das empresas. Rial diz que a relação
é confidencial, mas os próprios dirigentes
da entidade assumem que essa lista não existe. Das
cerca de vinte empresas que se foram, a maioria já
tinha fábricas nos dois países. Ou seja, apenas
fecharam sua unidade argentina. Quase todas, como Goodyear
e Pirelli, são multinacionais de autopeças.
Ao mesmo tempo, o Brasil é o único grande
mercado com o qual a Argentina tem superávit em sua
balança comercial. Entre 1995 e 1999, o vizinho dos
pampas lucrou mais de 6 bilhões de dólares
com o comércio bilateral, enquanto sofreu déficit
de 32 bilhões de dólares com a União
Européia, os Estados Unidos e o Japão. Apesar
do superávit com o Brasil, há o mito de que
existe uma invasão de produtos brasileiros que destruirão
certos setores da economia argentina já afetados
pela recessão interna e que não se modernizaram,
como calçados e têxteis. Os produtores de frango,
outros atingidos, fizeram um protesto que reuniu 3.000
manifestantes e fechou estradas na província de Entre
Rios. O Itamaraty já acusou o golpe e tem informado
o governo brasileiro da mudança de temperatura na
Argentina. "É injusto que a Argentina culpe o Brasil.
Não houve a invasão de produtos brasileiros
que se temia, nem o êxodo de empresas para o Brasil
é real", diz Sebastião do Rêgo Barros,
embaixador brasileiro em Buenos Aires. "É espantoso
que a Argentina critique o Brasil, com quem tem superávit,
esquecendo-se de que a competitividade argentina é
sofrível. Com o resto do mundo eles só têm
déficits."
Editorial Perfil
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| O ministro da Economia,
José Luís Machinea, quer do Mercosul apenas
"um tratado de livre comércio" |
Antes da desvalorização do real, o casamento
com a Argentina celebrado no acordo do Mercosul era um sucesso.
Pouco antes da medida que liberou o câmbio no Brasil
em janeiro do ano passado, os argentinos respondiam nas pesquisas
de opinião que "o Brasil é o maior aliado da
Argentina". O Mercosul vinha sendo um ótimo negócio
para seus dois maiores sócios. Quando viviam separados,
em 1980, cada um por si, o comércio bilateral era de
1,8 bilhão de dólares. Em 1998, em plena lua-de-mel,
atingiu 15 bilhões de dólares. Mesmo em 1999,
com o início das rusgas pela desvalorização
do real, o valor das trocas ultrapassou os 11 bilhões
de dólares. Nesta semana, ataques surgidos de quase
todos os lados contra o Brasil como culpado de todos os
males da Argentina deixaram claro que, para certos setores
do país, a solução é o divórcio.
Colocar a culpa no Brasil pelos problemas nacionais não
vai ajudar muito a Argentina. A situação por
lá, com Brasil ou sem Brasil, está complicada.
O desemprego só aumenta e o trabalho sem carteira
assinada representa 48% das pessoas ocupadas. A dívida
externa pulou de 60 bilhões de dólares em
1989 para 145 bilhões, um indicador do crescimento
do gasto público no país. O déficit
público bateu em 11 bilhões de dólares
no ano passado e, para encher o cofre, o presidente Fernando
de la Rúa lançou mão de uma reforma
tributária que aumentou o imposto de renda e começa
a cobrar de quem antes era isento, além de subir
impostos sobre bebidas, cigarros, planos de saúde
e telefones celulares. Segundo um estudo do Indec, o IBGE
local, a classe média perdeu 51,4% da renda que tinha
em 1974.
Ed Ferreira/AE
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FHC
com De
la Rúa: paz
na diplomacia oficial
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Nas altas rodas do governo de ambos os lados, o discurso
ainda é o da conciliação. Fernando
Henrique Cardoso encontrou-se com seu colega argentino,
Fernando de la Rúa, na posse do recém-eleito
presidente do Chile. Durante o encontro, ambos reafirmam
a intenção de reativar o Mercosul. "O Brasil
não visa à desindustrialização
da Argentina", disse Fernando Henrique Cardoso. "É
injusto que se demonize um país amigo e irmão
como o Brasil, o Mercosul deve ser aprofundado", ecoou o
chanceler argentino Adalberto Rodriguez Giavarini. Em linguagem
diplomática o panorama é bonito. Quando se
analisam os fundamentos econômicos, a visão
se torna mais confusa. "O vazio pelo fracasso do Mercosul
foi ocupado por políticos oportunistas, empresários
em crise e setores sem competitividade", analisa o economista
Roberto Lavagna, diretor da consultoria Ecolatina e ex-secretário
de Industria e Comércio no governo Alfonsín.
"O problema da Argentina não é o Brasil, o
nosso problema é que temos falta de competitividade
no mundo", critica o diretor do Centro de Estudos Nova Maioria,
Rosendo Fraga. "Não houve protestos frente à
Embaixada do Brasil e minhas pesquisas dizem que 70% dos
argentinos não querem o fim do Mercosul. Mas culpar
o Brasil virou um fenômeno midiático e político,
já que é mais fácil discutir isso do
que a conversibilidade peso-dólar, que jamais é
discutida."
Os economistas acreditam numa saída para o impasse
entre as duas economias. "O Mercosul não pode ser só
tarifa zero entre as partes. Na União Européia
sempre houve medidas para atender aos interesses específicos
de setores e regiões. É ingenuidade achar que
o mercado vai regularizar tudo sozinho", critica o economista
Lavagna. "Falta uma política industrial e de serviços,
um programa de fusão e reconversão de empresas
dos dois lados. Por que o Brasil e a Argentina não
criam uma política comum de aço, já que
possuem empresas por toda a América Latina? Por que
a indústria têxtil não se une, se o inimigo
comum é o Sudeste Asiático?"
Os dois vizinhos, por enquanto, preferem brigar, como no
futebol, em vez de se unir. Tanto Brasil quanto Argentina
têm balanças comerciais deficitárias
nas negociações com quase todos os mercados
do mundo. São ambos vítimas de barreiras protecionistas
na Europa e nos Estados Unidos e a indústria dos
dois lados da fronteira luta para ser mais competitiva.
"Ficam discutindo sobre frangos e calçados, enquanto
há temas muito mais interessantes, como a fusão
das bolsas de valores de São Paulo e Buenos Aires",
diz o analista Rosendo Fraga. "Nossos dois governos deveriam
adotar uma agenda positiva, que some em vez de dividir.
Se esperarem para discutir as reclamações
setoriais no segundo semestre, o reaquecimento previsto
de ambas as economias acalmaria os ânimos. Acho que
o real se revaloriza e o Brasil volta a comprar da Argentina."
O embaixador Rêgo Barros concorda: "A retomada do
crescimento no Brasil vai arrefecer os problemas". E haverá
paz. Sim, até que a inquieta alma argentina encontre
outro motivo para se entristecer.
Com raiva do vizinho
Editorial Perfil
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Carlos Ruckauf, governador da província de
Buenos Aires, que curiosamente não inclui a
capital, é o mais oportunista dos porta-vozes
do sentimento antibrasileiro na Argentina. Ruckauf
luta para aprovar um projeto que obriga as licitações
em sua província a favorecer as empresas locais.
"Quero um movimento para nos defender dos brasileiros",
diz. Ruckauf é o autor de um projeto de lei
destinado a banir das concorrências públicas,
pelos próximos vinte anos, as companhias argentinas
que instalarem manufaturas no Brasil. É uma
versão dos pampas da Lei Helms-Burton, o mecanismo
legal dos Estados Unidos usado para punir empresas
estrangeiras que negociem com Cuba.
Numa mostra do grau de animosidade existente contra
o Brasil na Argentina, as idéias de Ruckauf
têm sido muito aplaudidas. Segundo o jornal
Clarín, ele é o segundo político
com maior aprovação popular no país
(54%), logo atrás do presidente Fernando de
la Rúa. É, desde já, candidato
peronista à sucessão presidencial em
2003. De posse das pesquisas indicando o Brasil como
o lobo mau da vida econômica argentina, Ruckauf
aumentou em vários decibéis suas críticas
ao Mercosul. Ganha as manchetes dos jornais com suas
bravatas. Espertamente ele varre para baixo do tapete
os dados contrários à sua tese. Afinal,
40% das exportações da província
têm como destino o Brasil, e alguns dos maiores
investimentos brasileiros no país, como as
fábricas da Sadia e da Brahma, estão
instalados em Buenos Aires. "É um grande negócio
para Ruckauf atacar o Brasil. Ele é um político
midiático, que só trabalha com pesquisas
na mão. Não é ideológico
ou nacionalista, simplesmente serve a esses interesses",
afirma Carlos Pagni, analista do jornal Ámbito
Financiero, um dos mais respeitados do país.
A história dele é tão suspeita
quanto a repentina raiva pelo Brasil. Ex-sindicalista,
foi ministro do Trabalho de Isabelita Perón.
Ministro do Interior e vice de Menem, brigou e se
reconciliou com o chefe inúmeras vezes, até
se candidatar ao governo da província de Buenos
Aires. Venceu prometendo "meter bala nos bandidos"
e chamando sua adversária Graciela Fernandez
Meijide, hoje ministra de Ação Social
de De la Rúa, de "atéia, abortista e
anticristã". Colocou como secretário
de Segurança Pública ninguém
menos que o ex-tenente-coronel Aldo Rico, um notório
liberticida e golpista.
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Depressão platina
Flávio Torres
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"O ego humano é um pequeno argentino que todos
carregamos dentro de nós", teria dito certa
vez o escritor colombiano Gabriel García Márquez.
Sem autoria identificada, há outra citação
mais cáustica, repetida nos países vizinhos:
"O melhor negócio do mundo é comprar
um argentino pelo preço que ele vale e vendê-lo
pelo preço que ele acha que vale". É
preciso reconhecer. Os argentinos, justa ou injustamente,
ganharam a fama de arrogantes. Eles próprios
já reconheceram que os vizinhos têm lá
certa razão.
Já no século XIX, em 1845, o presidente
argentino Domingo Sarmiento escreveu: "Os demais povos
da América nos jogam na cara nossa presunção
e vaidade mas pobre do povo que não tem
fé em si mesmo". Cavando o terreno em outra
direção, descobre-se que os argentinos
também gostam de atribuir os próprios
fracassos a agentes externos. "Culpamos primeiro a
mãe, seja judia, italiana ou espanhola. Depois
culpamos os militares, o peronismo, a Inglaterra,
o Brasil. Somos muito neuróticos", diz Eliseo
Subiela, um dos cineastas mais populares do país,
com a autoridade de quem faz psicanálise há
35 anos. Segundo uma pesquisa do jornal Clarín,
95% dos argentinos acham que no país se fala
muito e se faz pouco. Previsivelmente, 76% dos entrevistados
na enquete concordam que os argentinos se consideram
superiores aos demais povos.
Com seus 19 000 psicólogos, Buenos Aires
é considerada a capital mundial da psicanálise.
"Somos angustiados e trágicos", diz o ator
Jorge Marrale, que interpreta o terapeuta Guillermo
Segura na série de sucesso Vulneráveis,
que exibe na televisão uma galeria variada
de neuroses. Na Argentina, a realidade supera a ficção
no campo das obsessões. É quase inacreditável
a dança macabra que se armou com cadáver
de gente famosa no passado recente do país.
Na década de 80, o túmulo do presidente
Juan Domingo Perón foi arrombado por desconhecidos
que amputaram e roubaram suas mãos. O corpo
embalsamado da primeira mulher dele, Evita, que morreu
de câncer aos 33 anos de idade em 1952, foi
seqüestrado pelos militares que derrubaram Perón.
Para evitar que a tumba de Evita se convertesse em
centro de peregrinação de peronistas,
os militares golpistas mantiveram o corpo dentro de
um furgão que rodou incógnito pelas
ruas de Buenos Aires durante meses. Mais tarde foi
levado clandestinamente para a Europa, indo parar
numa cova anônima na Itália. Dali, foi
exumado e levado para a Espanha. Evita não
descansou. Com a reeleição de Perón,
o corpo voltou triunfalmente a Buenos Aires. Finalmente
foi enterrado no cemitério da Recoleta. Nos
anos 70, guerrilheiros esquerdistas roubaram de um
cemitério o cadáver do general e ex-presidente
Pedro Aramburú, um dos cabeças do golpe
contra Perón em 1955. Eles tentaram negociar
com os militares: exigiram como resgate pelos restos
de Aramburú a devolução do corpo
de Evita. Não deu certo.
Em comparação com a trajetória
claudicante dos vizinhos, os argentinos tiveram um
passado de exuberância. Eles vivem hoje a síndrome
do país que atingiu a glória e a viu
escapar. Seus heróis, colhidos pela fatalidade
no auge da fama e do poder, tipificam essa situação.
Carlos Gardel não é o único exemplo.
Evita Perón foi vencida pelo câncer no
auge da adoração popular, quando atribuíam
a ela curas milagrosas. "Che" Guevara, ídolo
das esquerdas, foi morto quando levava sua revolução
comunista para um beco sem saída nas selvas
da Bolívia. Essa sensação de
perda precoce deitou raízes na sociedade. Pesquisas
mostram que cerca de 75% dos argentinos julgam que
o país ainda não tem uma democracia
madura, 60% têm medo de perder o emprego e 50%
sustentam que o sistema de saúde era melhor
cinqüenta anos atrás.
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