Edição 1 642 -29/3/2000

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E eles culpam o Brasil...

Imersa em uma grande crise econômica, incapaz de
exportar seus produtos com lucro para o mundo,
a Argentina descobre um bode expiatório: o vizinho

Raul Juste Lores, de Buenos Aires

 
Perfil

Cartaz contra o Brasil numa manifestação de protesto em Buenos Aires: alvo mais fácil

Experimente ficar dez anos sem aumento real de salário. Difícil? E se, além disso, você estiver devendo dois terços do que ganha? E se tiver de pagar 2 dólares por um cafezinho e 4 dólares por um copo de suco de laranja? Talvez esses exemplos ajudem a entender o atual estado de alma dos argentinos, porque é isso o que está acontecendo por lá. Para a classe média de nosso bravo vizinho do sul, trocar de carro ficou tão caro quanto é para a classe média brasileira conseguir a casa própria. Colocar mobília nova na sala de uma casa argentina requer uma ginástica financeira parecida com a de uma família assalariada brasileira decidida a estacionar um carrinho zero de 1.000 cilindradas na garagem. Agora, olhe um pouco para trás. A Argentina já foi uma das nações mais ricas do mundo. Era um território de estilo europeu que, por assim dizer, tivera a má sorte de estar encravado entre vizinhos pobretões na América Latina. A Argentina regrediu com governos populistas, como o de Juan Domingo Perón, sucedido em clima de opereta bufa pela mulher, Isabelita, e depois por militares cruéis e loucos, que levaram o país a uma guerra surrealista com os ingleses pela posse das Ilhas Malvinas. Sua economia tornou-se menor que a do Estado de São Paulo. Com a implantação de um austero plano de estabilidade econômica, em 1991, a Argentina venceu a hiperinflação e se empinou de novo. Não chegou a levantar vôo brilhante, a exemplo das aves domésticas que ficam muito pesadas para escapar do chão, mas tudo corria relativamente bem. Havia esperança no futuro. Foi então que o vizinho do norte, o Brasil, resolveu desvalorizar sua moeda, um golpe que os argentinos acusam até hoje. E com rancor.

O atual esporte nacional na Argentina é culpar o Brasil, que os políticos platinos agora chamam de a "gigante economia do norte", pelas dificuldades econômicas enfrentadas internamente. Comenta-se naquele país que suas indústrias estão fechando as portas e se transferindo para o Brasil. E que produtos brasileiros, mais baratos graças à desvalorização do real, estão ameaçando os artigos argentinos, mais caros. Essas queixas já engordam passeatas em Buenos Aires. "Made in Brazil, no!", dizem os cartazes nas manifestações de rua. "Os brasileiros são como maus vizinhos que entram em nossa casa para roubar os móveis", vocifera Carlos Ruckauf, governador da província de Buenos Aires, raposa oportunista que é uma espécie de Leonel Brizola platino. Como sempre ocorre em qualquer país metido em crises econômicas duradouras e profundas, os problemas reais se misturam aos imaginários. Não existe êxodo de negócios argentinos para o Brasil. Menos de vinte empresas, na maioria multinacionais, decidiram transferir parte de sua manufatura para Estados brasileiros nos últimos dois anos. Mesmo assim, uma pesquisa recente do jornal Clarín revelou que, para 63% dos argentinos, o maior problema econômico do país é justamente a fuga de empresas para o Brasil.

A coisa deve estar preta por lá, pois mesmo cabeças racionais, como a do ex-superministro da Economia, Domingo Cavallo, andam meio zonzas. "A culpa da crise é do Brasil. O Fernando Henrique preferiu empobrecer seu povo, desvalorizando a moeda, e agora quem paga é a Argentina", disse Cavallo, que, candidatíssimo a qualquer cargo nas próximas eleições, anda num pique cada vez menos liberal e mais protecionista. Espertamente, Cavallo reverbera a crítica gritada nas ruas. Nas esquinas, culpa-se o Brasil pela desvalorização do real. Em menos de dois anos, a moeda brasileira perdeu 50% do valor em relação ao dólar e, conseqüentemente, em relação ao peso argentino, que tem sua cotação atrelada às verdinhas americanas. Essa mudança significou dois baques para a economia argentina da noite para o dia. Primeiro, os produtos brasileiros ficaram 50% mais baratos em Buenos Aires. Segundo, os produtos argentinos, que inundavam as prateleiras dos supermercados brasileiros e os pátios das revendedoras de automóveis, tornaram-se 50% mais caros para os brasileiros. As exportações para o Brasil caíram um terço, aprofundando a crise econômica argentina a um ponto que por lá se passou a enfrentar a pior recessão da década. O índice de desemprego chegou a 14%.

 
Editorial Perfil

Carlos Menem: dez anos de democracia sem populismo na economia


Esses são os problemas reais, mas a desconfiança em relação ao Brasil está inflada, mesmo que algumas das principais autoridades do país mantenham uma visão realista das dificuldades. Na semana passada, o presidente Fernando de la Rúa procurou esfriar as suspeitas que correm soltas contra o Brasil, principalmente nos meios empresariais, informando que, mesmo com a redução dos negócios entre os dois vizinhos do Mercosul, o Brasil ainda é o maior parceiro comercial da Argentina, sua única grande fonte de superávits nas trocas comerciais. Trinta por cento das exportações argentinas são compradas pelo Brasil, lembrou De la Rúa. Ele não disse, mas poderia tê-lo feito, que os problemas que seus compatriotas estão enfrentando hoje decorrem de escolhas erradas que fizeram durante muitas e muitas décadas seguidas. A partir de meados do século XX, a Argentina se transformou num país estatizado e sindical a ponto de ficar economicamente inviável. O atrelamento do peso ao dólar, há dez anos, foi uma tentativa, bem-sucedida, de fugir ao descontrole inflacionário provocado por todas as escolhas equivocadas dos governos anteriores ao de Carlos Menem. Mas, agora, os argentinos estão diante de uma encruzilhada. Ou desvalorizam o peso, o que provocaria uma quebradeira geral, já que as dívidas no país, na maior parte, estão lastreadas em dólar. Ou reduzem preços e salários para tornar sua economia mais competitiva, o que é politicamente inviável.

Sobre esse pano de fundo econômico, há a psique argentina, com sua tendência a funcionar na cadência de tango. Buenos Aires tem 19.000 psicólogos, um para cada 160 habitantes, três vezes mais que São Paulo. O seriado de maior audiência da televisão argentina é Vulneráveis, que narra as neuroses e os sofrimentos de um grupo submetido a psicoterapia. "O argentino costuma carecer de consciência moral, mas não de consciência intelectual. Passar por imoral lhe importa menos que passar por tolo", disse certa vez a maior glória das letras latino-americanas, o escritor argentino Jorge Luis Borges, que morreu em 1986. O que Borges vislumbrou na alma de seus conterrâneos não deixa de ser uma espécie de malandragem, uma variação do famoso "jeitinho brasileiro". No caso da falsa crise com o Brasil, esse jeitinho está ajudando a empanar as razões mais palpáveis das agruras econômicas do país – a falta de competitividade de seus produtos no mercado mundial. O Brasil é o único grande mercado com que a Argentina ainda faz negócios com lucro. Com os demais parceiros comerciais, ao final do ano, a conta fica negativa para o lado argentino.

Rotular povos e países por suas características mais marcantes é um exercício intelectual vago e impreciso. Mas não deixa de ser curioso. O japonês é disciplinado? É. O alemão é metódico? Sem dúvida. O americano é prático? É. O brasileiro é um povo alegre? Sim. E o argentino? Bem, o argentino é uma mente em constante ebulição, mas, sem dúvida, a melancolia predomina na alma platina. Uma melancolia misturada a um orgulho nacional que tende talvez a crescer em meio às dificuldades práticas. Carlos Gardel, o genial intérprete de tangos, morreu em um acidente aéreo na Colômbia em 1935, mas até hoje se diz que ele "canta cada vez melhor". O jogador de futebol Diego Maradona abandonou os gramados deixando um rastro escandaloso de envolvimento com cocaína. A imprensa local não gosta de discutir o real problema de Maradona. Em vez disso, gastam-se páginas e mais páginas debatendo os males cardíacos do jogador. Não é raro encontrar, em conversa de bar, alguém defendendo a hipótese de que "Dieguito", gordíssimo e com a saúde em frangalhos, possa voltar a jogar uma Copa do Mundo.

Aquilo que alguns estrangeiros interpretam como "arrogância" nos argentinos muitas vezes é um sentimento mais complexo. Outras, um reflexo de conquistas bem reais que o país realizou. O presidente Domingo Sarmiento impulsionou, a partir de 1870, a educação pública e gratuita, e o analfabetismo baixou de 35% em 1914 para 13% em 1947. Mais de cinqüenta anos depois, o Brasil tem um índice igual, de 13%. O metrô de Buenos Aires é de 1913, o primeiro subterrâneo da América Latina. Orgulhosos por ser educados em um continente de analfabetos, os argentinos fizeram força para ser "europeus na América". Estiveram perto. O que sobrou desse projeto pode ser resumido para efeito humorístico na frase famosa: "O argentino é um italiano que fala espanhol e pensa que é inglês".

O Brasil é um eterno país do futuro, um projeto de grandeza que até hoje não se realizou. A Argentina realizou a meta de tornar-se um país rico, o sétimo mais rico do mundo na primeira década do século XX, mas regrediu. No primeiro caso, o brasileiro, tende-se a produzir um quadro de frustração. No segundo, o argentino, a tendência provável é de que à frustração se some alguma revolta. Enquanto o Brasil mal saía da escravidão, Buenos Aires era uma das cidades mais luxuosas do mundo. Importava arquitetos renomados da Europa, tinha uma vida cultural invejável, permitia a seus riquíssimos fazendeiros viagens opulentas às capitais do mundo. Sucessivos governos argentinos procuraram receber preferencialmente imigrantes do norte da Europa, os mais claros, e não "galegos e italianos do sul", como se reclamava na época de Sarmiento. Em sua sofreguidão aristocrática, a elite platina procura até hoje praticar esportes como o pólo, o golfe e o tênis, de enorme apelo no país. A assimilação da cultura européia gerou grandes escritores, como Jorge Luis Borges, Julio Cortázar e Adolfo Bioy Casares. Os argentinos ganharam cinco prêmios Nobel e seu cinema, para a inveja dos brasileiros com uma câmara na mão e um pedido de financiamento oficial na cabeça, já levou um Oscar. Os argentinos têm mais bibliotecas e lêem mais. São 123 jornais por 1.000 habitantes, contra quarenta no Brasil.

A existência dessa superioridade cultural evidente não explica todo o fenômeno do distanciamento dos argentinos de seus vizinhos. Quem acha que muitos argentinos nutrem certo preconceito contra os brasileiros, por eles chamados de "macaquitos", não imagina como bolivianos, peruanos e paraguaios são tratados por lá. Os bairros onde vivem são alvo de manifestações xenófobas de grupos de vizinhos que pedem sua expulsão, sindicatos fazem campanhas dizendo que os imigrantes lhes estão roubando empregos e até apresentadores de TV, sem o menor pudor, atribuem o aumento da criminalidade aos estrangeiros. Os números comprovam que os estrangeiros são uma pequena minoria entre a população carcerária.

 
Divulgação

Dyzenchauz, do invicto.com: "O Brasil é o país-chave da internet"


Por mais que queira fugir disso, a Argentina é hoje um país latino-americano típico. Observando-se o trânsito de Buenos Aires, é impossível deixar de notar mais semelhanças com a Cidade do México do que com Paris. Quase metade da frota automobilística tem mais de dez anos de uso, contra 26% no Brasil, que está longe de ser um exemplo de modernidade sobre rodas. A internet tem oito vezes mais usuários no Brasil. "Com metade dos internautas da América Latina no Brasil é lá que temos de estar", diz o argentino Germán Dyzenchauz, de 27 anos, que montou o site Invicto.com, destinado a atrair torcedores de futebol.

Antes uma ilha de desenvolvimento e charme ao sul do Equador, a capital, Buenos Aires, de 3 milhões de habitantes, reúne hoje um exército de 100.000 favelados em suas franjas. Na Zona Sul da cidade, a mortalidade infantil alcança 35 mortos por 1.000 nascidos vivos, média típica de lugar subdesenvolvido, como o Brasil, por exemplo. Na Grande Buenos Aires aglomeram-se atualmente 8 milhões de pessoas, mais de 20% da população do país. São migrantes barrados pelo altíssimo custo de vida da capital, uma das cinco mais caras do mundo. Ali o desemprego já atinge um em cinco moradores. Na cidade de La Matanza, tradicional reduto peronista de 1,3 milhão de habitantes, há dezenas de fábricas abandonadas cercadas de favelas, em um cenário desoladoramente típico da América Latina. Nessa região, a violência vem crescendo muito, e viraram cena de rotina assaltos com refém. O número de roubos e furtos aumentou 65% nos últimos cinco anos em todo o país. Mas ainda assim Buenos Aires é mais segura e agradável que o Rio de Janeiro ou São Paulo.

 

Um dos grandes shopping centers do investidor George Soros em Buenos Aires: aposta arriscada

A observação de fenômenos negativos como esses mostra que os esforços de modernização da Argentina, especialmente a privatização acelerada feita nos dez anos do governo Carlos Menem, não deram resultados práticos notáveis. A Argentina carrega o fardo pesado da gastança pública e do caudilhismo. Juntas, as províncias, os Estados do país, acumulam dívidas de 18 bilhões de dólares. Há décadas controlados por caudilhos corruptos e populistas, esses territórios vivem uma situação desastrosa. Nos Estados de Formosa e do Rio Negro, as dívidas são superiores a um ano de orçamento. Em Corrientes, atualmente sob intervenção federal depois de quase quarenta anos governada pela mesma família, o governo local está quebrado, e Buenos Aires é que vem bancando o orçamento. Na maioria das províncias do Norte, o desemprego chega a 25%. "Nesses lugares, o normal é que o governo empregue mais funcionários do que precisa, para evitar conflitos sociais", diz o analista político Carlos Pagni. Em Santiago del Estero, o governador Carlos Juárez, de 83 anos, foi eleito cinco vezes, a primeira em 1949. Atualmente, a vice é sua esposa, Marina de Juárez, chamada na província de "La Senõra". Nenhum ramo da economia de Santiago del Estero supera o volume de dinheiro manejado pelo Estado, que é o maior empregador local, ao melhor estilo interior do Nordeste brasileiro. Segundo a organização não-governamental Transparência Internacional, em uma pesquisa feita entre analistas, empresários e população sobre a percepção de corrupção entre 74 países, a Argentina fica em 65º lugar, bem atrás do Brasil, que ocupa a 46ª posição. Nem mesmo a decantada qualidade da educação resistiu à decadência dos últimos anos. "Somos orgulhosos da formação de cultura geral da educação argentina, mas hoje ela é enciclopedista. Não se incorporaram novas tecnologias nem habilidades de equipe. Nem as escolas, nem os professores se modernizaram. Apesar do baixo analfabetismo, podemos ficar para trás", diz o economista Martín Redrado, diretor da Fundação Capital.

As províncias reclamam dos incentivos fiscais da "guerra de subsídios" desatada pelos Estados brasileiros, que julgam prejudicá-las, surrupiando-lhes as indústrias. Quase todas quebradas, as províncias argentinas dependem do governo nacional para sobreviver. Não cobram ICMS – o imposto similar, o IVA, é nacional – e sempre estão no vermelho. Ou seja, são dependentes do governo central para as despesas mínimas. Quando vem de Buenos Aires a notícia de que a política econômica brasileira está enfraquecendo os cofres da União, fica-se à beira de uma revolta. Os governadores peronistas, como o ex-piloto de Fórmula-1 Carlos Reutemann, de Santa Fé, e o ex-embaixador no Brasil José Manuel de la Sota, de Córdoba, agarraram-se à receita agora em moda de culpar o vizinho.

A campanha contra o Brasil pode ser mais bem compreendida nesse cenário de paralisia e desesperança que a Argentina atravessa. A reação antibrasileira começou com um comunicado da União Industrial Argentina (UIA), em dezembro passado, afirmando que mais de 100 empresas argentinas já tinham fechado suas fábricas locais e mudado para o Brasil. A imprensa platina comprou a idéia e nos três meses seguintes divulgava diariamente a "fuga de empresas". "O Mercosul do jeito que está não serve", diz o presidente da UIA, Osvaldo Rial, não por coincidência um deputado peronista (de oposição), assim como o governador Ruckauf. Até hoje, a UIA não divulgou o nome das empresas. Rial diz que a relação é confidencial, mas os próprios dirigentes da entidade assumem que essa lista não existe. Das cerca de vinte empresas que se foram, a maioria já tinha fábricas nos dois países. Ou seja, apenas fecharam sua unidade argentina. Quase todas, como Goodyear e Pirelli, são multinacionais de autopeças. Ao mesmo tempo, o Brasil é o único grande mercado com o qual a Argentina tem superávit em sua balança comercial. Entre 1995 e 1999, o vizinho dos pampas lucrou mais de 6 bilhões de dólares com o comércio bilateral, enquanto sofreu déficit de 32 bilhões de dólares com a União Européia, os Estados Unidos e o Japão. Apesar do superávit com o Brasil, há o mito de que existe uma invasão de produtos brasileiros que destruirão certos setores da economia argentina já afetados pela recessão interna e que não se modernizaram, como calçados e têxteis. Os produtores de frango, outros atingidos, fizeram um protesto que reuniu 3.000 manifestantes e fechou estradas na província de Entre Rios. O Itamaraty já acusou o golpe e tem informado o governo brasileiro da mudança de temperatura na Argentina. "É injusto que a Argentina culpe o Brasil. Não houve a invasão de produtos brasileiros que se temia, nem o êxodo de empresas para o Brasil é real", diz Sebastião do Rêgo Barros, embaixador brasileiro em Buenos Aires. "É espantoso que a Argentina critique o Brasil, com quem tem superávit, esquecendo-se de que a competitividade argentina é sofrível. Com o resto do mundo eles só têm déficits."

 

 
Editorial Perfil
O ministro da Economia, José Luís Machinea, quer do Mercosul apenas "um tratado de livre comércio"

Antes da desvalorização do real, o casamento com a Argentina celebrado no acordo do Mercosul era um sucesso. Pouco antes da medida que liberou o câmbio no Brasil em janeiro do ano passado, os argentinos respondiam nas pesquisas de opinião que "o Brasil é o maior aliado da Argentina". O Mercosul vinha sendo um ótimo negócio para seus dois maiores sócios. Quando viviam separados, em 1980, cada um por si, o comércio bilateral era de 1,8 bilhão de dólares. Em 1998, em plena lua-de-mel, atingiu 15 bilhões de dólares. Mesmo em 1999, com o início das rusgas pela desvalorização do real, o valor das trocas ultrapassou os 11 bilhões de dólares. Nesta semana, ataques surgidos de quase todos os lados contra o Brasil – como culpado de todos os males da Argentina – deixaram claro que, para certos setores do país, a solução é o divórcio.

Colocar a culpa no Brasil pelos problemas nacionais não vai ajudar muito a Argentina. A situação por lá, com Brasil ou sem Brasil, está complicada. O desemprego só aumenta e o trabalho sem carteira assinada representa 48% das pessoas ocupadas. A dívida externa pulou de 60 bilhões de dólares em 1989 para 145 bilhões, um indicador do crescimento do gasto público no país. O déficit público bateu em 11 bilhões de dólares no ano passado e, para encher o cofre, o presidente Fernando de la Rúa lançou mão de uma reforma tributária que aumentou o imposto de renda e começa a cobrar de quem antes era isento, além de subir impostos sobre bebidas, cigarros, planos de saúde e telefones celulares. Segundo um estudo do Indec, o IBGE local, a classe média perdeu 51,4% da renda que tinha em 1974.

 
Ed Ferreira/AE

FHC com De la Rúa: paz na diplomacia oficial


Nas altas rodas do governo de ambos os lados, o discurso ainda é o da conciliação. Fernando Henrique Cardoso encontrou-se com seu colega argentino, Fernando de la Rúa, na posse do recém-eleito presidente do Chile. Durante o encontro, ambos reafirmam a intenção de reativar o Mercosul. "O Brasil não visa à desindustrialização da Argentina", disse Fernando Henrique Cardoso. "É injusto que se demonize um país amigo e irmão como o Brasil, o Mercosul deve ser aprofundado", ecoou o chanceler argentino Adalberto Rodriguez Giavarini. Em linguagem diplomática o panorama é bonito. Quando se analisam os fundamentos econômicos, a visão se torna mais confusa. "O vazio pelo fracasso do Mercosul foi ocupado por políticos oportunistas, empresários em crise e setores sem competitividade", analisa o economista Roberto Lavagna, diretor da consultoria Ecolatina e ex-secretário de Industria e Comércio no governo Alfonsín. "O problema da Argentina não é o Brasil, o nosso problema é que temos falta de competitividade no mundo", critica o diretor do Centro de Estudos Nova Maioria, Rosendo Fraga. "Não houve protestos frente à Embaixada do Brasil e minhas pesquisas dizem que 70% dos argentinos não querem o fim do Mercosul. Mas culpar o Brasil virou um fenômeno midiático e político, já que é mais fácil discutir isso do que a conversibilidade peso-dólar, que jamais é discutida."

  Os economistas acreditam numa saída para o impasse entre as duas economias. "O Mercosul não pode ser só tarifa zero entre as partes. Na União Européia sempre houve medidas para atender aos interesses específicos de setores e regiões. É ingenuidade achar que o mercado vai regularizar tudo sozinho", critica o economista Lavagna. "Falta uma política industrial e de serviços, um programa de fusão e reconversão de empresas dos dois lados. Por que o Brasil e a Argentina não criam uma política comum de aço, já que possuem empresas por toda a América Latina? Por que a indústria têxtil não se une, se o inimigo comum é o Sudeste Asiático?"

Os dois vizinhos, por enquanto, preferem brigar, como no futebol, em vez de se unir. Tanto Brasil quanto Argentina têm balanças comerciais deficitárias nas negociações com quase todos os mercados do mundo. São ambos vítimas de barreiras protecionistas na Europa e nos Estados Unidos e a indústria dos dois lados da fronteira luta para ser mais competitiva. "Ficam discutindo sobre frangos e calçados, enquanto há temas muito mais interessantes, como a fusão das bolsas de valores de São Paulo e Buenos Aires", diz o analista Rosendo Fraga. "Nossos dois governos deveriam adotar uma agenda positiva, que some em vez de dividir. Se esperarem para discutir as reclamações setoriais no segundo semestre, o reaquecimento previsto de ambas as economias acalmaria os ânimos. Acho que o real se revaloriza e o Brasil volta a comprar da Argentina." O embaixador Rêgo Barros concorda: "A retomada do crescimento no Brasil vai arrefecer os problemas". E haverá paz. Sim, até que a inquieta alma argentina encontre outro motivo para se entristecer.

 

Com raiva do vizinho

Editorial Perfil


Carlos Ruckauf, governador da província de Buenos Aires, que curiosamente não inclui a capital, é o mais oportunista dos porta-vozes do sentimento antibrasileiro na Argentina. Ruckauf luta para aprovar um projeto que obriga as licitações em sua província a favorecer as empresas locais. "Quero um movimento para nos defender dos brasileiros", diz. Ruckauf é o autor de um projeto de lei destinado a banir das concorrências públicas, pelos próximos vinte anos, as companhias argentinas que instalarem manufaturas no Brasil. É uma versão dos pampas da Lei Helms-Burton, o mecanismo legal dos Estados Unidos usado para punir empresas estrangeiras que negociem com Cuba.

Numa mostra do grau de animosidade existente contra o Brasil na Argentina, as idéias de Ruckauf têm sido muito aplaudidas. Segundo o jornal Clarín, ele é o segundo político com maior aprovação popular no país (54%), logo atrás do presidente Fernando de la Rúa. É, desde já, candidato peronista à sucessão presidencial em 2003. De posse das pesquisas indicando o Brasil como o lobo mau da vida econômica argentina, Ruckauf aumentou em vários decibéis suas críticas ao Mercosul. Ganha as manchetes dos jornais com suas bravatas. Espertamente ele varre para baixo do tapete os dados contrários à sua tese. Afinal, 40% das exportações da província têm como destino o Brasil, e alguns dos maiores investimentos brasileiros no país, como as fábricas da Sadia e da Brahma, estão instalados em Buenos Aires. "É um grande negócio para Ruckauf atacar o Brasil. Ele é um político midiático, que só trabalha com pesquisas na mão. Não é ideológico ou nacionalista, simplesmente serve a esses interesses", afirma Carlos Pagni, analista do jornal Ámbito Financiero, um dos mais respeitados do país.

A história dele é tão suspeita quanto a repentina raiva pelo Brasil. Ex-sindicalista, foi ministro do Trabalho de Isabelita Perón. Ministro do Interior e vice de Menem, brigou e se reconciliou com o chefe inúmeras vezes, até se candidatar ao governo da província de Buenos Aires. Venceu prometendo "meter bala nos bandidos" e chamando sua adversária Graciela Fernandez Meijide, hoje ministra de Ação Social de De la Rúa, de "atéia, abortista e anticristã". Colocou como secretário de Segurança Pública ninguém menos que o ex-tenente-coronel Aldo Rico, um notório liberticida e golpista.


Depressão platina

Flávio Torres


"O ego humano é um pequeno argentino que todos carregamos dentro de nós", teria dito certa vez o escritor colombiano Gabriel García Márquez. Sem autoria identificada, há outra citação mais cáustica, repetida nos países vizinhos: "O melhor negócio do mundo é comprar um argentino pelo preço que ele vale e vendê-lo pelo preço que ele acha que vale". É preciso reconhecer. Os argentinos, justa ou injustamente, ganharam a fama de arrogantes. Eles próprios já reconheceram que os vizinhos têm lá certa razão.

Já no século XIX, em 1845, o presidente argentino Domingo Sarmiento escreveu: "Os demais povos da América nos jogam na cara nossa presunção e vaidade – mas pobre do povo que não tem fé em si mesmo". Cavando o terreno em outra direção, descobre-se que os argentinos também gostam de atribuir os próprios fracassos a agentes externos. "Culpamos primeiro a mãe, seja judia, italiana ou espanhola. Depois culpamos os militares, o peronismo, a Inglaterra, o Brasil. Somos muito neuróticos", diz Eliseo Subiela, um dos cineastas mais populares do país, com a autoridade de quem faz psicanálise há 35 anos. Segundo uma pesquisa do jornal Clarín, 95% dos argentinos acham que no país se fala muito e se faz pouco. Previsivelmente, 76% dos entrevistados na enquete concordam que os argentinos se consideram superiores aos demais povos.

Com seus 19 000 psicólogos, Buenos Aires é considerada a capital mundial da psicanálise. "Somos angustiados e trágicos", diz o ator Jorge Marrale, que interpreta o terapeuta Guillermo Segura na série de sucesso Vulneráveis, que exibe na televisão uma galeria variada de neuroses. Na Argentina, a realidade supera a ficção no campo das obsessões. É quase inacreditável a dança macabra que se armou com cadáver de gente famosa no passado recente do país. Na década de 80, o túmulo do presidente Juan Domingo Perón foi arrombado por desconhecidos que amputaram e roubaram suas mãos. O corpo embalsamado da primeira mulher dele, Evita, que morreu de câncer aos 33 anos de idade em 1952, foi seqüestrado pelos militares que derrubaram Perón. Para evitar que a tumba de Evita se convertesse em centro de peregrinação de peronistas, os militares golpistas mantiveram o corpo dentro de um furgão que rodou incógnito pelas ruas de Buenos Aires durante meses. Mais tarde foi levado clandestinamente para a Europa, indo parar numa cova anônima na Itália. Dali, foi exumado e levado para a Espanha. Evita não descansou. Com a reeleição de Perón, o corpo voltou triunfalmente a Buenos Aires. Finalmente foi enterrado no cemitério da Recoleta. Nos anos 70, guerrilheiros esquerdistas roubaram de um cemitério o cadáver do general e ex-presidente Pedro Aramburú, um dos cabeças do golpe contra Perón em 1955. Eles tentaram negociar com os militares: exigiram como resgate pelos restos de Aramburú a devolução do corpo de Evita. Não deu certo.

Em comparação com a trajetória claudicante dos vizinhos, os argentinos tiveram um passado de exuberância. Eles vivem hoje a síndrome do país que atingiu a glória e a viu escapar. Seus heróis, colhidos pela fatalidade no auge da fama e do poder, tipificam essa situação. Carlos Gardel não é o único exemplo. Evita Perón foi vencida pelo câncer no auge da adoração popular, quando atribuíam a ela curas milagrosas. "Che" Guevara, ídolo das esquerdas, foi morto quando levava sua revolução comunista para um beco sem saída nas selvas da Bolívia. Essa sensação de perda precoce deitou raízes na sociedade. Pesquisas mostram que cerca de 75% dos argentinos julgam que o país ainda não tem uma democracia madura, 60% têm medo de perder o emprego e 50% sustentam que o sistema de saúde era melhor cinqüenta anos atrás.