Amados inimigos
O papa João Paulo II fez o milagre
de agradar
a árabes e judeus em sua viagem à Terra Santa
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Arturo Marti/
AFP / Pool

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A viagem de sete dias que o papa João
Paulo II fez à Terra Santa era um antigo sonho seu.
Na Jordânia, em Israel e território palestino,
ele visitou os lugares sagrados onde se acredita que Jesus
Cristo tenha nascido, vivido e morrido. Como todo devoto,
emocionou-se e rezou muito. Mas o papa, evidentemente, não
é um simples peregrino. Líder espiritual de
1 bilhão de pessoas, ele também se tornou,
desde que assumiu o comando da Igreja Católica, uma
personalidade política de altíssimo coturno
no plano mundial. Já no início de seu pontificado,
João Paulo II comprometeu-se a ajudar na resolução
dos conflitos que fazem daquela região uma das mais
conturbadas do planeta. Por isso, foi recebido por judeus,
árabes e palestinos como um amigo, e cada gesto seu
foi interpretado como um sinal de apoio à causa de
cada um. Ainda que nenhum acordo ou tratado tenha sido assinado,
não resta dúvida de que a viagem se revestiu
de um grande significado histórico.
Brennan Linsley/AP
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Eyal Warshavski/AP
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| Entre
dois fogos: depois da contemplação,
o papa
treina sua paciência
entre o representante
islâmico
e o rabino-chefe
de Israel. Ele
também
renovou o apoio
a Arafat e ao
povo palestino |
Por onde o papa passou, suas palavras soaram
como música aos ouvidos de seus interlocutores. Ao
visitar o Yad Vashem, o museu em memória das vítimas
do holocausto de Jerusalém, João Paulo II
mais uma vez assumiu as culpas milenares da instituição
que chefia. "Eu asseguro ao povo judeu que a Igreja Católica
está profundamente triste pelos odiosos atos de perseguição
e demonstração de anti-semitismo cometidos
pelos cristãos em qualquer tempo e em qualquer lugar",
afirmou. Ele aproveitou para classificar o anti-semitismo
de "pecado contra Deus e a humanidade". Os judeus ortodoxos
queriam que João Paulo II também tivesse reconhecido
explicitamente a suposta omissão de Pio XII no massacre
dos judeus pelos nazistas, mas convenhamos que era pedir
demais. O primeiro-ministro Ehud Barak, cujos avós
morreram no campo de concentração de Treblinka,
aplaudiu o esforço papal. "O senhor fez mais do que
ninguém no sentido de uma mudança histórica
de atitude da Igreja em relação ao povo judeu",
disse Barak. Fez mesmo, inclusive do ponto de vista político:
graças a João Paulo II, o Vaticano estabeleceu
relações diplomáticas com os israelenses,
em 1994. Até então, o Estado judeu era um
assunto tabu na cúpula católica. Para se ter
uma idéia, quando esteve em Jerusalém, em
1964, o papa Paulo VI nem sequer pronunciou o nome de Israel.
No dia anterior a sua visita ao Yad Vashem, o papa passou
pelo outro lado do front, ao visitar Belém, a cidade
natal de Cristo, hoje sob controle da Autoridade Palestina.
O papa esteve na residência oficial do líder
Yasser Arafat, rezou uma missa na Igreja da Manjedoura,
mas o momento mais tocante de sua passagem pelo território
palestino foi a visita a Dehaisheh, um miserável
acampamento de refugiados palestinos que remonta à
época da guerra árabe-israelense de 1948.
"Ninguém pode ignorar quanto o povo palestino tem
sofrido em décadas recentes. Seu tormento está
diante dos olhos do mundo. E ele já foi longe demais",
consternou-se João Paulo II. E emendou: "Os palestinos
têm direito natural a uma pátria e direito
de viver em paz e tranqüilidade com os demais povos
desta área". Israel já reconheceu o direito
palestino à terra e segue negociando os termos de
convivência dos dois povos. Mas a declaração
do papa calou fundo. "Ele falou claramente em favor da independência
da Palestina", entusiasmou-se Suha Arafat, a americana cristã
que se converteu ao islamismo para se casar com Yasser Arafat.
Esse foi o décimo encontro de João Paulo II
com o líder palestino. Quando o encontrou pela primeira
vez, em 1982, Arafat ainda era o líder da Organização
para a Libertação da Palestina. No mesmo ano
em que reconheceu Israel, o Vaticano deu seu aval ao pessoal
de Arafat. Três anos depois, em 1997, a Santa Sé
assinou tratados com Israel e a Autoridade Palestina confiando-lhes
a salvaguarda dos templos católicos e lugares sagrados
do cristianismo existentes em seus respectivos territórios.
Os maiores constrangimentos durante a visita papal surgiram
justamente no campo religioso, de onde era natural esperar
mais compreensão. Muçulmanos e judeus radicais
fizeram manifestações públicas de desaprovação
à presença do papa. O grande mufti de Jerusalém,
a mais alta autoridade islâmica na Terra Santa, recusou
convite para um encontro com o líder católico
e o chefe dos rabinos em Israel, Meir Lau. Mandou em seu
lugar um representante, que fez questão de retirar-se
no meio da reunião. A desfeita, no caso, foi endereçada
ao líder religioso judeu. Mas, mesmo neste campo
minado, a visita do papa acabou gerando um momento de simbolismo
insuperável. Na praça da manjedoura convivem
em clima pouco amistoso o templo católico e uma mesquita
muçulmana cujo sacerdote faz diariamente, pelo alto-falante,
um estrondoso chamado dos fiéis à oração.
Na quarta-feira, o apelo foi atrasado dois minutos, até
que o papa terminasse seu sermão. Depois, João
Paulo II manteve um respeitoso silêncio enquanto os
muçulmanos rezavam.
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