Edição 1 642 - 29/3/2000

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Amados inimigos

O papa João Paulo II fez o milagre de agradar
a árabes e judeus em sua viagem à Terra Santa

 

Arturo Marti/ AFP / Pool


A viagem de sete dias que o papa João Paulo II fez à Terra Santa era um antigo sonho seu. Na Jordânia, em Israel e território palestino, ele visitou os lugares sagrados onde se acredita que Jesus Cristo tenha nascido, vivido e morrido. Como todo devoto, emocionou-se e rezou muito. Mas o papa, evidentemente, não é um simples peregrino. Líder espiritual de 1 bilhão de pessoas, ele também se tornou, desde que assumiu o comando da Igreja Católica, uma personalidade política de altíssimo coturno no plano mundial. Já no início de seu pontificado, João Paulo II comprometeu-se a ajudar na resolução dos conflitos que fazem daquela região uma das mais conturbadas do planeta. Por isso, foi recebido por judeus, árabes e palestinos como um amigo, e cada gesto seu foi interpretado como um sinal de apoio à causa de cada um. Ainda que nenhum acordo ou tratado tenha sido assinado, não resta dúvida de que a viagem se revestiu de um grande significado histórico.

 

Brennan Linsley/AP
Eyal Warshavski/AP
Entre dois fogos: depois da contemplação, o papa treina sua paciência entre o representante islâmico e o rabino-chefe de Israel. Ele também renovou o apoio a Arafat e ao povo palestino

 

Por onde o papa passou, suas palavras soaram como música aos ouvidos de seus interlocutores. Ao visitar o Yad Vashem, o museu em memória das vítimas do holocausto de Jerusalém, João Paulo II mais uma vez assumiu as culpas milenares da instituição que chefia. "Eu asseguro ao povo judeu que a Igreja Católica está profundamente triste pelos odiosos atos de perseguição e demonstração de anti-semitismo cometidos pelos cristãos em qualquer tempo e em qualquer lugar", afirmou. Ele aproveitou para classificar o anti-semitismo de "pecado contra Deus e a humanidade". Os judeus ortodoxos queriam que João Paulo II também tivesse reconhecido explicitamente a suposta omissão de Pio XII no massacre dos judeus pelos nazistas, mas convenhamos que era pedir demais. O primeiro-ministro Ehud Barak, cujos avós morreram no campo de concentração de Treblinka, aplaudiu o esforço papal. "O senhor fez mais do que ninguém no sentido de uma mudança histórica de atitude da Igreja em relação ao povo judeu", disse Barak. Fez mesmo, inclusive do ponto de vista político: graças a João Paulo II, o Vaticano estabeleceu relações diplomáticas com os israelenses, em 1994. Até então, o Estado judeu era um assunto tabu na cúpula católica. Para se ter uma idéia, quando esteve em Jerusalém, em 1964, o papa Paulo VI nem sequer pronunciou o nome de Israel.

 

No dia anterior a sua visita ao Yad Vashem, o papa passou pelo outro lado do front, ao visitar Belém, a cidade natal de Cristo, hoje sob controle da Autoridade Palestina. O papa esteve na residência oficial do líder Yasser Arafat, rezou uma missa na Igreja da Manjedoura, mas o momento mais tocante de sua passagem pelo território palestino foi a visita a Dehaisheh, um miserável acampamento de refugiados palestinos que remonta à época da guerra árabe-israelense de 1948. "Ninguém pode ignorar quanto o povo palestino tem sofrido em décadas recentes. Seu tormento está diante dos olhos do mundo. E ele já foi longe demais", consternou-se João Paulo II. E emendou: "Os palestinos têm direito natural a uma pátria e direito de viver em paz e tranqüilidade com os demais povos desta área". Israel já reconheceu o direito palestino à terra e segue negociando os termos de convivência dos dois povos. Mas a declaração do papa calou fundo. "Ele falou claramente em favor da independência da Palestina", entusiasmou-se Suha Arafat, a americana cristã que se converteu ao islamismo para se casar com Yasser Arafat. Esse foi o décimo encontro de João Paulo II com o líder palestino. Quando o encontrou pela primeira vez, em 1982, Arafat ainda era o líder da Organização para a Libertação da Palestina. No mesmo ano em que reconheceu Israel, o Vaticano deu seu aval ao pessoal de Arafat. Três anos depois, em 1997, a Santa Sé assinou tratados com Israel e a Autoridade Palestina confiando-lhes a salvaguarda dos templos católicos e lugares sagrados do cristianismo existentes em seus respectivos territórios.

Os maiores constrangimentos durante a visita papal surgiram justamente no campo religioso, de onde era natural esperar mais compreensão. Muçulmanos e judeus radicais fizeram manifestações públicas de desaprovação à presença do papa. O grande mufti de Jerusalém, a mais alta autoridade islâmica na Terra Santa, recusou convite para um encontro com o líder católico e o chefe dos rabinos em Israel, Meir Lau. Mandou em seu lugar um representante, que fez questão de retirar-se no meio da reunião. A desfeita, no caso, foi endereçada ao líder religioso judeu. Mas, mesmo neste campo minado, a visita do papa acabou gerando um momento de simbolismo insuperável. Na praça da manjedoura convivem em clima pouco amistoso o templo católico e uma mesquita muçulmana cujo sacerdote faz diariamente, pelo alto-falante, um estrondoso chamado dos fiéis à oração. Na quarta-feira, o apelo foi atrasado dois minutos, até que o papa terminasse seu sermão. Depois, João Paulo II manteve um respeitoso silêncio enquanto os muçulmanos rezavam.

 
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