Edição 1 642 - 29/3/2000

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Uma fila de risco

Especialistas discutem como adaptar a Lei dos Transplantes para os casos graves

Lucila Soares

 
Egberto Nogueira

Cirurgia no HC paulista: 20% dos doentes de fígado morrem na fila do transplante

Um dos méritos da Lei dos Transplantes, em vigor desde 1998, foi a criação da fila única. Os rins, fígados e corações são distribuídos conforme a ordem de chegada dos pacientes à lista de espera. Foi o fim do sistema injusto em que os hospitais particulares eram autorizados a captar órgãos por conta própria e decidir quem receberia o transplante, cobrando até 100.000 reais por cirurgia. Dois anos depois, a fila única começa a ser bombardeada pelos primeiros pedidos de liminares feitos por pacientes em estado tão grave que não podem esperar a vez. Nesta quinta-feira, o grupo de especialistas responsáveis pela política nacional de transplante se reúne em Brasília para avaliar até que ponto a gravidade da doença deve ser considerada um critério para driblar a regra básica do sistema – quem chega primeiro é operado primeiro.

O assunto interessa sobretudo aos doentes que aguardam um transplante de fígado. A taxa de mortalidade entre eles é alta, superior a 20%. A fila do rim é doze vezes maior, mas, graças às sessões de hemodiálise, os índices de sobrevivência são bem mais elevados. Pelas normas atuais, em apenas dois casos um doente hepático tem o direito de furar a fila. Se ele já se submeteu a um transplante e houve rejeição ou se for vítima de hepatite fulminante, capaz de matar em poucos dias. Ficam de fora todos os outros casos, até mesmo aqueles em que o prognóstico de sobrevivência é extremamente limitado. Nos Estados Unidos, utiliza-se também a lista única, mas leva-se em conta o critério de gravidade. A mortalidade na fila americana é de 13% (veja quadro acima). Estabelecer um sistema similar no Brasil exigiria reforçar a estrutura de fiscalização das centrais de transplantes, criando equipes médicas independentes para analisar o estado de cada paciente.

No Estado de São Paulo, pelo menos três famílias já entraram com pedido de liminar para que seus parentes tenham fígado transplantado. Se não houver mudanças no critério de formação da fila única, é bem provável que se crie uma indústria de liminares. "Se isso ocorrer, voltaremos ao esquema do passado. Fura a fila quem tem dinheiro para pagar um advogado", preocupa-se Milton Glezer, coordenador da Organização de Procura de Órgãos do Hospital das Clínicas de São Paulo. É compreensível que os doentes se desesperem com a demora. Aos 52 anos, em 1997, o sargento da Marinha João Fraga da Silva recebeu o diagnóstico de hepatite C, uma das formas mais virulentas da doença. Em agosto de 1999, Silva soube que só sobreviveria com um transplante. Cinco meses depois, seus parentes recorreram à Justiça, pedindo prioridade na fila. A liminar foi negada, a família recorreu e, enquanto esperava a decisão da Justiça, surgiu a possibilidade de um transplante. O problema é que era um órgão sem condições ideais para a cirurgia, já recusado por várias equipes médicas. Pressionada pela gravidade do quadro clínico, a família optou por arriscar. A operação foi realizada no último dia 16 e, na quarta-feira passada, o sargento morreu. "Ele poderia estar vivo caso tivesse sido levada em conta a gravidade de seu estado", diz o médico Hoel Sette Júnior, responsável pela cirurgia e coordenador do serviço de transplante do Hospital Albert Einstein.