Uma fila
de risco
Especialistas discutem
como adaptar a Lei dos Transplantes
para os casos graves
Lucila Soares
Egberto Nogueira
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Cirurgia no HC paulista:
20% dos doentes de fígado morrem na fila do
transplante
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Um dos méritos da Lei dos Transplantes, em vigor
desde 1998, foi a criação da fila única.
Os rins, fígados e corações são
distribuídos conforme a ordem de chegada dos pacientes
à lista de espera. Foi o fim do sistema injusto em
que os hospitais particulares eram autorizados a captar
órgãos por conta própria e decidir
quem receberia o transplante, cobrando até 100.000
reais por cirurgia. Dois anos depois, a fila única
começa a ser bombardeada pelos primeiros pedidos
de liminares feitos por pacientes em estado tão grave
que não podem esperar a vez. Nesta quinta-feira,
o grupo de especialistas responsáveis pela política
nacional de transplante se reúne em Brasília
para avaliar até que ponto a gravidade da doença
deve ser considerada um critério para driblar a regra
básica do sistema quem chega primeiro é
operado primeiro.
O
assunto interessa sobretudo aos doentes que aguardam um
transplante de fígado. A taxa de mortalidade entre
eles é alta, superior a 20%. A fila do rim é
doze vezes maior, mas, graças às sessões
de hemodiálise, os índices de sobrevivência
são bem mais elevados. Pelas normas atuais, em apenas
dois casos um doente hepático tem o direito de furar
a fila. Se ele já se submeteu a um transplante e
houve rejeição ou se for vítima de
hepatite fulminante, capaz de matar em poucos dias. Ficam
de fora todos os outros casos, até mesmo aqueles
em que o prognóstico de sobrevivência é
extremamente limitado. Nos Estados Unidos, utiliza-se também
a lista única, mas leva-se em conta o critério
de gravidade. A mortalidade na fila americana é de
13% (veja quadro acima). Estabelecer um sistema similar
no Brasil exigiria reforçar a estrutura de fiscalização
das centrais de transplantes, criando equipes médicas
independentes para analisar o estado de cada paciente.
No Estado de São Paulo, pelo menos três famílias
já entraram com pedido de liminar para que seus parentes
tenham fígado transplantado. Se não houver
mudanças no critério de formação
da fila única, é bem provável que se
crie uma indústria de liminares. "Se isso ocorrer,
voltaremos ao esquema do passado. Fura a fila quem tem dinheiro
para pagar um advogado", preocupa-se Milton Glezer, coordenador
da Organização de Procura de Órgãos
do Hospital das Clínicas de São Paulo. É
compreensível que os doentes se desesperem com a
demora. Aos 52 anos, em 1997, o sargento da Marinha João
Fraga da Silva recebeu o diagnóstico de hepatite
C, uma das formas mais virulentas da doença. Em agosto
de 1999, Silva soube que só sobreviveria com um transplante.
Cinco meses depois, seus parentes recorreram à Justiça,
pedindo prioridade na fila. A liminar foi negada, a família
recorreu e, enquanto esperava a decisão da Justiça,
surgiu a possibilidade de um transplante. O problema é
que era um órgão sem condições
ideais para a cirurgia, já recusado por várias
equipes médicas. Pressionada pela gravidade do quadro
clínico, a família optou por arriscar. A operação
foi realizada no último dia 16 e, na quarta-feira
passada, o sargento morreu. "Ele poderia estar vivo caso
tivesse sido levada em conta a gravidade de seu estado",
diz o médico Hoel Sette Júnior, responsável
pela cirurgia e coordenador do serviço de transplante
do Hospital Albert Einstein.