Além dos limites
Com novos tratamentos e menos preconceito,
portadores da síndrome de Down vivem melhor
Juliana De Mari
Fotos Claudio Rossi
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A
pequena Susanna, na sala de aula: autonomia que surpreende
os coleguinhas |
Susanna Bernardi Roselli é uma garotinha simpática
e esperta, extremamente curiosa e carinhosa. Aos 6 anos,
está na pré-escola. Como os quinze colegas
de classe, adora desenhar, encanta-se com as histórias
contadas pela professora e já identifica as primeiras
letras do alfabeto. Desenvolta, vira-se muito bem sozinha.
As habilidades de Susanna impressionam, mas passariam despercebidas
se ela fosse como os coleguinhas da turma. Não é.
Ela é vítima de uma anomalia congênita
de origem genética, a síndrome de Down, que
acarreta retardamento mental. Apesar disso, Susanna nunca
freqüentou uma escola especial. Quando tinha 2 anos,
sua mãe, a arquiteta Carla Roselli, optou por educá-la
em uma escola para crianças normais. "Nos primeiros
dias, as outras crianças ficavam espantadas com a
autonomia de minha filha", diz Carla. "Hoje a tratam como
uma coleguinha como as outras." Atualmente, além
da escola, das sessões de terapia e fonoaudiologia,
a menina freqüenta aulas de dança contemporânea.
A
pequena Susanna é representante de uma geração
de portadores da síndrome que se prepara para ter
uma vida social ativa com doses relativamente amplas de
autonomia e liberdade. Há dez anos, estimava-se que
apenas dois em cada dez portadores da deficiência
freqüentassem a escola. Hoje, o índice chega
a 80%. Quase a metade está matriculada em colégios
normais. "Na escola regular, que reproduz o ambiente da
rua, a criança aprende a exercitar suas habilidades
e sua cidadania", diz a jornalista Cláudia Werneck,
autora de sete livros sobre a síndrome de Down. Um
estudo recente e pioneiro realizado pela Federação
Brasileira das Associações de Síndrome
de Down em parceria com o Ministério da Educação,
que apurou a mudança para melhor na qualidade de
vida dos deficientes, concluiu que de cada dez pais nove
acreditam que o filho pode ter um dia-a-dia bem próximo
ao de uma pessoa normal. "Conseguiu-se desmitificar a imagem
de incapacidade que sempre esteve associada ao Down", afirma
Maria Madalena Mendonça, diretora da Federação.
"Sabe-se agora que os portadores podem ser, na maioria dos
aspectos, pessoas como quaisquer outras."
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| O adolescente Artur Pinto da Silva
aprende a tocar flauta: habilidade para ler partitura
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Os deficientes não apenas estão sendo incentivados
a freqüentar a escola até o colegial –
sempre recebendo atenção especial
dos professores, evidentemente –
como também sendo preparados para o mercado de trabalho.
As oficinas profissionalizantes da Associação
de Pais e Amigos dos Excepcionais, de São Paulo,
encaminharam mais de 160 portadores da síndrome de
Down para empregos e estágios remunerados no ano
passado. Os níveis de retardamento mental e dificuldade
de aprendizado sofrem variação individual.
Em muitos casos, surpreende a capacidade de assimilar informações.
O paulista Artur Pinto da Silva, de 19 anos, tem uma rotina
para lá de agitada. Ele divide seu tempo entre a
escola, as aulas de flauta doce, as partidas de tênis
e a ginástica com personal trainer. Obviamente, como
portador de deficiência mental, Artur jamais chegará
a ser um grande concertista. Mas não é isso
o que se espera dele. "Eu quero, eu posso, eu faço,
eu gosto", repete, animado.
A
vida dos portadores também está mais leve
graças aos avanços da medicina. Complicações
de saúde que, em menor ou maior grau, costumam acompanhar
a deficiência já podem ser detectadas até
antes do nascimento e ser tratadas precocemente. Um dos
problemas mais graves é a insuficiência cardíaca,
que atinge 50% dos portadores. Com o aperfeiçoamento
das técnicas e de instrumentos cirúrgicos,
hoje uma criança nos primeiros anos de vida pode
passar por uma cirurgia no coração sem grandes
riscos. Outra doença associada é o hipotireoidismo,
um distúrbio glandular causador de fadiga crônica
e excesso de peso. Detectado cedo, pode ser controlado.
Importante também é a estimulação
precoce, feita desde o berço, que ajuda essas crianças
a atingir um nível intelectual impensável
há poucas décadas. "Até os 25 anos,
o portador da síndrome tem uma capacidade de aprendizado
próxima da normalidade", diz o pediatra e geneticista
Zan Mustacchi, pesquisador da deficiência há
mais de vinte anos. Com todas essas novidades, os deficientes
não vivem apenas melhor, mas também estão
vivendo por mais tempo. A expectativa de vida saltou dos
10 anos, na década de 20, para 60, bem próxima
à da população brasileira em geral
(veja quadro neste parágrafo).
A cada ano, nascem 150.000
crianças com algum tipo de anomalia no Brasil. Cerca
de 8.000 bebês deixam a
maternidade com o diagnóstico de Down. O país
possui hoje 110.000 portadores
da síndrome. Um em cada quatro tem entre 10 e 19
anos e pode ser facilmente identificado pelas características
típicas do defeito genético: o rosto é
arredondado, as bochechas salientes, as mãos pequenas
e os olhos amendoados. Em geral, começam a falar
aos 4 anos, dois a mais que uma criança normal. Dessa
forma, aprendem a ler e a escrever em ritmo mais lento.
Também apresentam dificuldade no desenvolvimento
físico. As articulações são
mais frouxas, o que compromete o equilíbrio, e os
músculos têm menos tonicidade, o que implica
menos força. Tendem ainda a apresentar mais cedo
os sintomas do envelhecimento. É um quadro de complicações
sérias. Mas, como se sabe agora, não desesperadoras.