Está virando água
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Aquecimento da Antártica
transforma radicalmente
a
geografia e os hábitos
da fauna no Pólo Sul
Alexandre Mansur
e Sérgio Ruiz Luz
Jim Lo Scalzo
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| Icebergs na
Península
Antártica:
por causa do
calor, maior
quantidade de
gelo solto |
As variações de temperatura
no Pólo Sul são sempre observadas com atenção,
pois funcionam como uma espécie de termômetro
do comportamento do clima no restante do globo. Nas últimas
décadas os cientistas andam espantados com o ritmo
permanente de aquecimento da região. Comparada à
decada de 40, a média anual de temperatura da Península
Antártica subiu entre 1,6 e 2,2 graus Celsius. Levando-se
em conta que é um período longo, parecem números
insignificantes. Mas essa alteração sutil
tem sido suficiente para provocar mudanças radicais
na paisagem local. O continente gelado está, literalmente,
virando água. Plataformas gigantescas de gelo flutuante
simplesmente derreteram. Blocos de icebergs com quilômetros
de extensão se desprendem das bordas do continente
a um ritmo acima do normal. Nenhum cientista arrisca o palpite
de que, um dia, o Pólo Sul vai sumir do mapa, derretido
feito picolé debaixo de um sol escaldante. "Mas não
há dúvida alguma de que as coisas estão
esquentando por aqui", afirma o glaciologista Francisco
Eliseu Aquino, um dos membros do Projeto Antártico
Brasileiro.
A base brasileira está instalada
na Ilha Rei George, que perdeu um naco de 7% de sua crosta
gelada nos últimos cinqüenta anos. As transformações
provocadas pelo aumento da temperatura já são
bastante visíveis em todo o continente antártico
(veja animação
em Shockwave Flash). Na última década,
três grandes plataformas de gelo que flutuam em seu
litoral, batizadas de Wordie, Larsen A e Príncipe
Gustav, viraram água. Duas outras, a Larsen B e a
Wilkins, também parecem condenadas ao derretimento.
Uma das conseqüências mais óbvias do degelo
contínuo da calota polar é o aumento do nível
dos oceanos. Segundo estimativas recentes, mantido o ritmo
atual de aquecimento no continente, ocorreria uma elevação
média de 60 centímetros no nível dos
mares nos próximos 100 anos.
O aquecimento tem conseqüências
dramáticas para a fauna da região, começando
pelo krill, um pequeno crustáceo de apenas 6 centímetros
de comprimento que está na base da alimentação
de boa parte das espécies que vivem no continente
gelado. O krill atualmente enfrenta dificuldades para se
desenvolver, pois depende do mar congelado para sobreviver
nos três primeiros anos de vida. Durante o inverno,
ele se alimenta basicamente de microalgas que ficam presas
nas grossas camadas de gelo. A formação dessa
crosta, importante para a manutenção da vida
marítima, está ameaçada. Em meados
do século XX, quatro em cada cinco invernos antárticos
produziam grandes camadas de gelo marítimo. Hoje,
isso ocorre apenas em dois a cada cinco. "Os estudos em
andamento apontam para uma relação direta
entre o aquecimento do continente e as possibilidades de
sobrevivência do crustáceo", diz o biólogo
Vicente Gomes, da Uuniversidade de São Paulo.
A escassez de krill está
afetando a dieta dos pingüins adélies. Há
600 anos essa espécie de ave domina a fauna do continente.
Censos recentes indicam que os adélies têm
sofrido baixas seguidas. Nos últimos dois anos sua
população diminuiu 10%. Além disso,
eles têm hábitos extremamente sistemáticos,
a ponto de sempre fazer o ninho no mesmo lugar, ano após
ano. Por isso, os pesquisadores suspeitam que os pingüins
não estejam conseguindo adaptar-se às mudanças
de relevo provocadas pelo derretimento no continente. Algumas
espécies de mamíferos, como os elefantes-marinhos,
estão deixando de migrar do continente nos períodos
de inverno. A razão, segundo os cientistas, é
que a ocorrência de climas mais amenos tem permitido
a vários grupos desses animais permanecer ali o ano
inteiro.
O que está acontecendo na
Antártica é apenas a ponta do iceberg. Fenômenos
semelhantes estão ocorrendo em vários pontos
do planeta, ainda que de proporções menos
drásticas. A calota polar do Ártico perdeu
6% de sua área entre 1978 e 1996. A cada ano, somem
em torno de 34.000 quilômetros quadrados, o equivalente
a uma Holanda. A crosta polar também ficou mais fina.
"Nos últimos trinta anos, a espessura média
do gelo flutuante encolheu de 3,1 metros para 1,8", afirma
Lisa Mastny, pesquisadora do Instituto Worldwatch de Washington.
Em algumas partes da Groenlândia, a transformação
é mais dramática. Lá, a camada de gelo
sobre o solo vem perdendo 1 metro por ano de espessura desde
1993. O impacto é percebido no vizinho Canadá.
No norte do país, a região cujo solo fica
permanentemente congelado recuou 100 quilômetros no
último século. Diferentemente da Antártica,
que é um continente coberto de gelo, o Ártico
pode ser definido como um grande mar congelado, capaz de
refletir 90% dos raios solares que incidem sobre sua superfície.
Quando encontra um buraco nessa camada, a luz atinge diretamente
a água, que absorve a maior parte dessa energia.
Quanto mais esquenta a água, mais gelo derrete e
mais calor é absorvido pelo mar, criando um círculo
vicioso.
Fora dos pólos, o gelo também
está derretendo. As geleiras que descem os vales
das grandes cordilheiras estão encolhendo. Pesquisadores
do Serviço de Monitoramento Mundial de Geleiras estimam
que um quarto das geleiras do mundo pode desaparecer até
2050. Dentro de um século, só restarão
alguns pedaços isolados no Alasca, na Patagônia
e no Himalaia. Esse degelo generalizado é o sinal
mais aparente do aquecimento climático do planeta.
A Terra está experimentando o período mais
quente dos últimos 600 anos, afirmam alguns pesquisadores.
Em 1998, a temperatura média da superfície
do planeta chegou a 14,57 graus Celsius, um recorde desde
que as medições começaram a ser feitas,
no final do século XIX.
A causa de todo esse processo de
aquecimento ainda é controversa. Vários fatores
devem estar concorrendo para alterar o clima do planeta.
Uma das possibilidades é que o Sol esteja passando
por um período de intensa atividade e emitindo mais
calor em direção ao nosso planeta. Geralmente,
esses ciclos solares duram milênios. Mas, para os
especialistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças
Climáticas, reunido todo ano pela Organização
das Nações Unidas, o principal vilão
é o efeito estufa. Ele estaria ocorrendo porque altas
concentrações na atmosfera de gases produzidos
pela sociedade industrial, como o metano e o dióxido
de carbono, aprisionam na superfície da Terra o calor
irradiado pelo Sol. É exatamente o que faz o teto
de vidro em uma estufa de jardim. "Há um consenso
cada vez maior entre os cientistas de que as variações
naturais sozinhas não explicam o que está
acontecendo", diz José Antônio Marengo, do
Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Não se
tem certeza se o derretimento dos pólos é
conseqüência direta da poluição.
Mas sua participação nesse processo é
inegável. Nos últimos dois séculos,
a concentração de dióxido de carbono
na atmosfera cresceu 30%, graças à fumaça
das chaminés, do escapamento dos carros e dos incêndios
florestais. Cientistas estimam que, hoje, a concentração
de carbono é a mais alta dos últimos 160.000
anos. Se as emissões continuarem no mesmo ritmo,
avaliam os cientistas, neste século a Terra vai esquentar
mais rápido do que em qualquer outro período
nos últimos dez milênios.