Edição 1 642 - 29/3/2000

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Está virando água

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O continente derrete
(animação em Shockwave Flash)

Aquecimento da Antártica transforma radicalmente a
geografia e os hábitos
da fauna no Pólo Sul

Alexandre Mansur e Sérgio Ruiz Luz

Jim Lo Scalzo
Icebergs na Península Antártica: por causa do calor, maior quantidade de gelo solto

As variações de temperatura no Pólo Sul são sempre observadas com atenção, pois funcionam como uma espécie de termômetro do comportamento do clima no restante do globo. Nas últimas décadas os cientistas andam espantados com o ritmo permanente de aquecimento da região. Comparada à decada de 40, a média anual de temperatura da Península Antártica subiu entre 1,6 e 2,2 graus Celsius. Levando-se em conta que é um período longo, parecem números insignificantes. Mas essa alteração sutil tem sido suficiente para provocar mudanças radicais na paisagem local. O continente gelado está, literalmente, virando água. Plataformas gigantescas de gelo flutuante simplesmente derreteram. Blocos de icebergs com quilômetros de extensão se desprendem das bordas do continente a um ritmo acima do normal. Nenhum cientista arrisca o palpite de que, um dia, o Pólo Sul vai sumir do mapa, derretido feito picolé debaixo de um sol escaldante. "Mas não há dúvida alguma de que as coisas estão esquentando por aqui", afirma o glaciologista Francisco Eliseu Aquino, um dos membros do Projeto Antártico Brasileiro.

A base brasileira está instalada na Ilha Rei George, que perdeu um naco de 7% de sua crosta gelada nos últimos cinqüenta anos. As transformações provocadas pelo aumento da temperatura já são bastante visíveis em todo o continente antártico (veja animação em Shockwave Flash). Na última década, três grandes plataformas de gelo que flutuam em seu litoral, batizadas de Wordie, Larsen A e Príncipe Gustav, viraram água. Duas outras, a Larsen B e a Wilkins, também parecem condenadas ao derretimento. Uma das conseqüências mais óbvias do degelo contínuo da calota polar é o aumento do nível dos oceanos. Segundo estimativas recentes, mantido o ritmo atual de aquecimento no continente, ocorreria uma elevação média de 60 centímetros no nível dos mares nos próximos 100 anos.

O aquecimento tem conseqüências dramáticas para a fauna da região, começando pelo krill, um pequeno crustáceo de apenas 6 centímetros de comprimento que está na base da alimentação de boa parte das espécies que vivem no continente gelado. O krill atualmente enfrenta dificuldades para se desenvolver, pois depende do mar congelado para sobreviver nos três primeiros anos de vida. Durante o inverno, ele se alimenta basicamente de microalgas que ficam presas nas grossas camadas de gelo. A formação dessa crosta, importante para a manutenção da vida marítima, está ameaçada. Em meados do século XX, quatro em cada cinco invernos antárticos produziam grandes camadas de gelo marítimo. Hoje, isso ocorre apenas em dois a cada cinco. "Os estudos em andamento apontam para uma relação direta entre o aquecimento do continente e as possibilidades de sobrevivência do crustáceo", diz o biólogo Vicente Gomes, da Uuniversidade de São Paulo.

A escassez de krill está afetando a dieta dos pingüins adélies. Há 600 anos essa espécie de ave domina a fauna do continente. Censos recentes indicam que os adélies têm sofrido baixas seguidas. Nos últimos dois anos sua população diminuiu 10%. Além disso, eles têm hábitos extremamente sistemáticos, a ponto de sempre fazer o ninho no mesmo lugar, ano após ano. Por isso, os pesquisadores suspeitam que os pingüins não estejam conseguindo adaptar-se às mudanças de relevo provocadas pelo derretimento no continente. Algumas espécies de mamíferos, como os elefantes-marinhos, estão deixando de migrar do continente nos períodos de inverno. A razão, segundo os cientistas, é que a ocorrência de climas mais amenos tem permitido a vários grupos desses animais permanecer ali o ano inteiro.

O que está acontecendo na Antártica é apenas a ponta do iceberg. Fenômenos semelhantes estão ocorrendo em vários pontos do planeta, ainda que de proporções menos drásticas. A calota polar do Ártico perdeu 6% de sua área entre 1978 e 1996. A cada ano, somem em torno de 34.000 quilômetros quadrados, o equivalente a uma Holanda. A crosta polar também ficou mais fina. "Nos últimos trinta anos, a espessura média do gelo flutuante encolheu de 3,1 metros para 1,8", afirma Lisa Mastny, pesquisadora do Instituto Worldwatch de Washington. Em algumas partes da Groenlândia, a transformação é mais dramática. Lá, a camada de gelo sobre o solo vem perdendo 1 metro por ano de espessura desde 1993. O impacto é percebido no vizinho Canadá. No norte do país, a região cujo solo fica permanentemente congelado recuou 100 quilômetros no último século. Diferentemente da Antártica, que é um continente coberto de gelo, o Ártico pode ser definido como um grande mar congelado, capaz de refletir 90% dos raios solares que incidem sobre sua superfície. Quando encontra um buraco nessa camada, a luz atinge diretamente a água, que absorve a maior parte dessa energia. Quanto mais esquenta a água, mais gelo derrete e mais calor é absorvido pelo mar, criando um círculo vicioso.

Fora dos pólos, o gelo também está derretendo. As geleiras que descem os vales das grandes cordilheiras estão encolhendo. Pesquisadores do Serviço de Monitoramento Mundial de Geleiras estimam que um quarto das geleiras do mundo pode desaparecer até 2050. Dentro de um século, só restarão alguns pedaços isolados no Alasca, na Patagônia e no Himalaia. Esse degelo generalizado é o sinal mais aparente do aquecimento climático do planeta. A Terra está experimentando o período mais quente dos últimos 600 anos, afirmam alguns pesquisadores. Em 1998, a temperatura média da superfície do planeta chegou a 14,57 graus Celsius, um recorde desde que as medições começaram a ser feitas, no final do século XIX.

A causa de todo esse processo de aquecimento ainda é controversa. Vários fatores devem estar concorrendo para alterar o clima do planeta. Uma das possibilidades é que o Sol esteja passando por um período de intensa atividade e emitindo mais calor em direção ao nosso planeta. Geralmente, esses ciclos solares duram milênios. Mas, para os especialistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, reunido todo ano pela Organização das Nações Unidas, o principal vilão é o efeito estufa. Ele estaria ocorrendo porque altas concentrações na atmosfera de gases produzidos pela sociedade industrial, como o metano e o dióxido de carbono, aprisionam na superfície da Terra o calor irradiado pelo Sol. É exatamente o que faz o teto de vidro em uma estufa de jardim. "Há um consenso cada vez maior entre os cientistas de que as variações naturais sozinhas não explicam o que está acontecendo", diz José Antônio Marengo, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Não se tem certeza se o derretimento dos pólos é conseqüência direta da poluição. Mas sua participação nesse processo é inegável. Nos últimos dois séculos, a concentração de dióxido de carbono na atmosfera cresceu 30%, graças à fumaça das chaminés, do escapamento dos carros e dos incêndios florestais. Cientistas estimam que, hoje, a concentração de carbono é a mais alta dos últimos 160.000 anos. Se as emissões continuarem no mesmo ritmo, avaliam os cientistas, neste século a Terra vai esquentar mais rápido do que em qualquer outro período nos últimos dez milênios.